Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Chega moderou-se a pensar nas eleições de 10 de março?

Sinto-me pronto, sei que estão prontos e eu quero vos dizer que sinto-me tão pronto hoje como sei que Sá Carneiro se sentia para ser primeiro-ministro em 1979. E estou tão pronto a dar a minha vida por este país, como ele estava para transformar Portugal. Estamos prontos, vamos vencer e vamos ganhar as eleições de 10 de março. Viva Viana, viva o Chega e viva Portugal!

Em vários momentos do discurso de encerramento da sexta convenção do Chega, André Ventura citou e comparou-se a Francisco Sá Carneiro, o líder do PSD que encabeçou a primeira AD em 1979. Durante três dias, em Viana do Castelo, o partido de Ventura uniu-se em torno do líder e deu mostras de acreditar num resultado surpreendente a 10 de março. Mas o radicalismo manteve-se ou deu lugar a maior moderação para procurar outro e novo eleitorado? Vou conversar com Inês André Figueiredo, jornalista da seção de política do Observador, que acompanha o Chega e esteve nesta convenção. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia de segunda-feira, 15 de janeiro. Bem-vinda, Inês.

Obrigada, Ricardo.

Ainda estás em Viana do Castelo. Os congressos partidários geralmente terminam por volta da hora do almoço, mas não foi este o caso.

Não, a própria sessão de encerramento estava marcada para as 16h30. Estica-se sempre mais um pouco, mas ainda estamos por aqui.

Inês, nesta história dos congressos há sempre aquela pergunta clássica que os amigos, familiares e também os colegas fazem aos jornalistas. E como a história do dia também já se aproxima das 500 edições, também podemos dizer que já somos quase um clássico. Que tal correu o congresso ou convenção? Como é que correu?

É uma convenção, a sexta convenção do Chega. E eu gostava de começar até pelo início, porque foi marcada por causa do chumbo do Tribunal Constitucional, mas eu acredito que ninguém no Chega esteja minimamente descontente com o timing em que foi realizada, que foi praticamente perfeito. Esta convenção aconteceu já depois de ser conhecido o líder do PS, antes do arranque da campanha, mas já em clima de pré-campanha. Por isso, e para tudo o que implica a estratégia política, parece aqui um tempo perfeito. Um dirigente do Chega dizia ao Observador, antes da convenção, que este era um momento de propaganda política e foi exatamente isso que se passou aqui em Viana do Castelo. Chamamos agora o nosso líder, o nosso presidente, professor doutor André Ventura.

E André Ventura não improvisou na hora de falar, foi sempre, mais ou menos, à hora marcada. Afinal, o que é que sai para fora deste congresso ou convenção do Chega?

Eu diria que depois destes três dias, sai para fora aquilo que o Chega quis que saísse para fora e que trouxe para esta convenção. Eu resumiria isso numa espécie de estratégia assente em três ideias: ignorar Luís Montenegro, desvalorizar a Nova Aliança Democrática e vender André Ventura como a única alternativa a Pedro Nuno Santos. E foi isso que o presidente do Chega quis transmitir. Aliás, este discurso final mostra que Pedro Nuno Santos e que o PS são os verdadeiros adversários do Chega, quer no tom que usou para criticar o líder do PS, quer pelas escassas referências ao PSD.

Se Pedro Nuno Santos mentiu na TAP, se mentiu na habitação, se mentiu na construção da alta velocidade, se mentiu no governo que nos ia baixar impostos, se mentiu no governo que nos ia dar médico de família, se mentiram em tudo, o que é que nos leva a crer que não é mais um mentiroso do Partido Socialista a candidatar-se ao cargo de primeiro-ministro?

E Inês, houve promessas concretas?

O programa eleitoral ainda não foi conhecido, mas houve algumas promessas concretas que foram apresentadas aqui durante o fim de semana. Não é que sejam propriamente novas. Várias delas foram sendo apresentadas ao longo dos últimos meses, mas a verdade é que existem. A que mais se destaca é a das pensões mínimas para os idosos no espaço de seis anos. Mas Ventura também propôs terminar com um programa para a promoção de igualdade de gênero, que custa 400 milhões de euros no orçamento de Estado, e transformá-lo num fundo que sirva para ajudar as forças de segurança, a justiça e os ex-combatentes. Prometeu começar a fiscalização à subsidiodependência. Prometeu que seja a banca a ajudar as pessoas que estão com dificuldades a pagar o crédito à habitação com os lucros excessivos. E disse ainda que o Chega quer recuperar o tempo da carreira dos professores em quatro anos, uma medida que ainda não tinha sido anunciada e que foi aqui dita pela primeira vez.

Mas ao longo do fim de semana, e à medida que iam sendo feitas promessas como essas que acabaste de explicar, Inês André Figueiredo, também houve alguém que fez contas, foram feitas contas. André Ventura explicou como é que vai pagar tudo isto?

Essa é a grande questão que André Ventura vai ter de responder nos próximos tempos, porque sempre que foi questionado sobre o valor das propostas, algumas delas astronômicas, como é o caso da questão das pensões mínimas para idosos, que contas feitas pelo próprio partido, pode custar entre 7,5 a 9 mil milhões de euros. André Ventura acredita que grande parte dos problemas financeiros do país, e aliás, foi isso que tentou transmitir durante todo o discurso, se resolvem com o dinheiro que hoje em dia é gasto na corrupção.

Se cortarmos nos 20 mil milhões que a corrupção tira todos os anos, então sim, será possível que não haja um único idoso com uma pensão abaixo do salário mínimo em Portugal.

Os tais 20 mil milhões de euros que o Chega está constantemente a referir. A questão é que caso o Chega conseguisse chegar ao governo e colocar em prática todas estas medidas, a corrupção não será combatida de um dia para o outro, nem num estalar de dedos. Por isso, a resposta de André Ventura acaba por ser uma não resposta. No dia em que chegasse ao governo ou tentar conseguir, juntamente com o PSD, uma alternativa, será muito difícil que estas propostas venham simplesmente dessa parte de combate à corrupção.

E ainda no campo das promessas, foram feitas algumas por deputados do Chega, como por exemplo, acabar com o IMI ou com o IUC, o Imposto Único de Circulação, vulgarmente designamos pelo selo do carro. Já não é assim, mas algumas pessoas ainda o conhecem por esse nome. Isso não esteve no discurso de Ventura?

Não. As questões dos impostos não estiveram, de facto, neste discurso final de André Ventura, mas foram apresentadas por Pedro Pinto, que é líder da bancada parlamentar, é da direção. André Ventura quis ficar com as propostas mais pomposas para este discurso final, até porque estava toda a comunicação em peso a transmiti-lo, e ele saberia isso. Estavam aqui os convidados, estavam aqui pessoas de associações, muitos militantes. Por isso, a verdade é que essas propostas existem, acabar com o IMI, acabar com o IUC, são propostas que ficam nesta convenção, mas não foram ditas pelo líder do Chega.

Já voltamos à conversa com a jornalista Inês André Figueiredo, olhando para o que foi dito e não dito em Viana do Castelo, o Chega moderou-se ou não? Regressamos à conversa com a jornalista da seção de política do Observador, Inês André Figueiredo. Inês, nos últimos dias, a questão das transferências, aqui numa analogia ao mundo do futebol, foi uma das que mais marcaram a atualidade, transferências do PSD para o Chega. Como é que o tema acabou por ser tratado na convenção?

Eu diria que a verdade é que aqui em Viana do Castelo não se sentiu muito essa onda e foi praticamente um assunto abordado apenas quando André Ventura falava aos jornalistas, porque no palco apenas um dissidente da iniciativa liberal quis mostrar o porquê desta mudança. Essa é uma questão que fica por resolver, quando é que vêm ou quando é que são apresentadas as pessoas que André Ventura prometeu que estariam nas listas, porque até agora só o ex-governante do PSD, Henrique de Freitas, é que foi apresentado oficialmente, digamos assim.

Eu queria deixar claro a todos que o ADN do Chega, a sua força disruptiva, a capacidade de enfrentar os interesses instalados em qualquer momento, que ninguém pense que eles ficarão em causa, que serão comprometidos ou que eu deixarei que este espírito morra por qualquer entrada neste partido a estas horas.

O Chega sabe que o mediatismo desse tal mercado de transferências de pessoas vindas de outro partido pode servir para normalizar o Chega, que pode passar a ter um discurso de: "Ah, estas pessoas estiveram a vida toda noutros partidos e nunca foram extremistas". E este discurso tem uma razão de ser. O eleitorado dos descontentes, que tem de ser alimentado, tem um teto. E por isso, se a ambição de crescer existe dentro do Chega, é preciso conquistar o restante eleitorado da direita, que está essencialmente no PSD, no CDS, e que anda aqui um pouco à deriva. Percebemos isso pelas sondagens em que o PSD não descola e André Ventura quer esse eleitorado.

Na verdade, para politicamente correto, já temos o PSD. Não precisamos de mais.

E ouvindo o discurso final, como explicavas há pouco, André Ventura apontou diretamente a Pedro Nuno Santos, nem sequer nomeou Montenegro ou mesmo Nuno Melo. O Chega mostrou-se muito confiante, mas essa confiança traduz-se em quê? Em que resultado? Quais são as expectativas nessa altura no partido?

Antes das expectativas, deixa-me só dizer uma coisa sobre isto. Faz parte da estratégia que referia no início, mas é muito curioso notar que André Ventura conseguiu referir o PSD pouquíssimas vezes neste discurso. Pedro Nuno Santos foi falado por todas as razões e mais algumas, e o PSD não.

O homem, o mesmo homem, hoje estava de gola alta. Que disse? Hoje estava de gola alta.

Quanto a essa questão, é uma das novidades do discurso. Sempre houve pessoas a dizer que André Ventura podia chegar a primeiro-ministro. Nos próprios eventos do Chega chegava a ser apresentado como tal, mas agora disse que estava preparado para o ser e ficou com o ônus em si, sendo que este passa a ser um objetivo eleitoral.

Este é o momento por que tanto esperámos e é o momento pelo qual agora temos que lutar. Eu estou preparado para ser primeiro-ministro de Portugal.

Mais do que isto, André Ventura pode passar a ser confrontado com este objetivo se o falhar. Durante o congresso perguntamos várias vezes a dirigentes do Chega o que é que seria uma derrota, porque neste momento o Chega está bem colocado para ter uma vitória, mas se colocar o objetivo do primeiro lugar, o que é que pode ser uma derrota? Um segundo lugar, não crescer em número de deputados. E quase todos referiam que uma bancada com o mesmo número de deputados seria uma derrota. Mas neste momento, ao colocar-se como candidato a primeiro-ministro e ao dizer que é possível chegar lá, a fasquia passou a estar bastante mais elevada.

Ok, e se a AD vencer, mas sem a tal maioria necessária para criar um governo estável, o Chega Deixa passar um eventual governo do PSD/CDS? Houve novidades nesta convenção?

É uma resposta que vai ficar para outros episódios, certamente, porque o Chega já disse um bocadinho de tudo e o seu contrário. A ideia principal é que não aceita um governo de direita sem estar integrado nele. Mas também foi dito por vários dirigentes, nomeadamente Diogo Pacheco Amorim, que dificilmente o Chega vota ao lado do PS numa moção de rejeição a um governo, neste caso da Aliança Democrática.

Mas o Chega nunca vai apresentar uma moção de rejeição ou votar uma moção de rejeição ao lado do PS, por exemplo. Ao lado do PS seria complicado. Porque os dois podem querer derrubar Luís Montenegro ou o governo do PSD. Nós nunca nos aliaríamos ao PS, nem para isso.

Ou seja, no dia em que o governo for apresentado na Assembleia da República, resta saber se tanto o PS como o Chega querem apresentar esta moção de rejeição e se os dois o fizerem, conta aqui entre primeiro, o que deixa aqui também uma questão do lado do PS. Se for o Chega a colocar essa moção de rejeição primeiro, se o PS vota ao lado do Chega, já que o Chega disse que muito provavelmente não fará.

E sendo a AD uma proposta de centro-direita, de que forma o discurso do Chega se adaptou para eventualmente conseguir votos junto deste eleitorado mais do centro e do centro-direita?

Há pouco eu dizia que o Chega provavelmente pode ter atingido o limite do eleitorado descontentes. E isso é muito importante para aquilo que André Ventura pode fazer, porque conseguiu ao longo de todos estes anos captar essas pessoas que estavam chateadas com o sistema, chateadas com a vida, e tem esses votos, e esses votos dificilmente os perde, pelo menos para já, nestas circunstâncias. Mas, por outro lado, com esse teto a ter sido atingido, precisa de chegar a outros eleitores. E é aí que André Ventura tem um problema, porque precisa de um discurso mais moderado, mas não pode perder o discurso pelo qual sempre foi conhecido. É um equilíbrio muito difícil para André Ventura, até porque habituou o espaço mediático, as pessoas, o eleitorado, a ter uma forma mais agressiva de estar, mais forte, às vezes até mais histriónica, e isso não é possível de continuar a ser usado da mesma forma quando quer chegar a um eleitorado mais moderado. Por isso é que é um equilíbrio muito difícil de gerir e que está a ser complicado para André Ventura.

Mas isso, Inês, quer dizer que o Chega se apresenta a eleições em 10 de março e o Chega que sai desta convenção se moderou em relação ao Chega do passado? E tu conheces bem o partido há muitos anos.

Eu diria que o Chega está muito mais moderado relativamente às primeiras convenções, ao ano em que André Ventura foi eleito deputado único, mas este é um processo que tem vindo a ser feito ao longo dos últimos tempos. Não foi algo que aconteceu de um dia para o outro, não aconteceu com a queda do governo, mas aumentou-se a necessidade de mostrar que são mais moderados, que estão aqui para governar. E isso foi muito importante se perceber nesta convenção. Quando André Ventura chegou, disse: "Agora nós estamos no campeonato dos grandes, digamos assim, e precisamos de nos comportar como os grandes sem perder o nosso ADN". Isso é também importante porque, lá está, mais uma vez, o Chega não pode perder o que já conquistou até aqui e essa é a parte difícil. Eu diria que o Chega se moderou bastante relativamente àquilo que já foi.

E chamam-nos a nós fascistas, chamam-nos a nós radicais. Meus amigos, vocês não tenham dúvidas, não há moderação que impere no meu coração, exceto para vos dizer isto: eu sou absolutamente radical. Absolutamente radical contra a corrupção, absolutamente radical contra o compadrio que tomou conta desse país e que nós vamos acabar no dia 10 de março.

Ainda falta moderar-se bastante para chegar ao eleitorado moderado do centro.

Obrigado, Inês.

Obrigada, Ricardo.

Inês André Figueiredo é jornalista da secção de política do Observador e acompanha a vida do Chega. Esteve em Viana do Castelo na sexta convenção do partido de André Ventura. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram registados pela Rádio Observador. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.