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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o menino prodígio dos negócios de Angola. Este som é o do episódio 12 da série de reportagens da televisão pública de Angola sobre o dinheiro que algumas pessoas ganharam durante o regime de José Eduardo dos Santos. Chama-se O Banquete.
Com menos de dois anos de existência e sem qualquer historial no setor ferroviário, a Energy assinou com o Estado angolano três contratos no valor aproximado de 1000 milhões de dólares norte-americanos para venda e manutenção de locomotivas.
Provavelmente nunca ouviu falar desta empresa, a iEnergy, mas foi uma empresa muito lucrativa que deu fortuna a um homem cujo nome também pode não fazer soar campainhas.
Representada pelo seu proprietário legal, o cidadão português Ricardo Filomeno Duarte Leitão Machado.
Ricardo Machado é um dos visados da série de reportagens O Banquete, precisamente porque fez fortuna durante o antigo regime angolano. Hoje, a vida de Ricardo mudou, nem que seja porque agora está constantemente debaixo dos holofotes. Em plena guerra judicial com Angola, está a ser também investigado em Portugal. E é provável que já tenha visto uma notícia ou outra a falar do cunhado do ministro Leitão Amaro. É ele. Hoje vou falar com o redator principal do Observador, o Luís Rosa, para traçarmos o caminho até ao topo deste menino prodígio dos negócios, que começou como engenheiro-agrónomo e pode já muito bem ser um dos homens mais ricos do país. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 27 de maio. Olá, Luís Rosa.
Olá, Pedro.
Sabes que eu estive aqui a pensar de cada vez que nós fazemos uma história do dia juntos, eu fico sempre com uma ansiedade que é não há um único tema que eu pense: estes 15 minutos não vão chegar.
É capaz. É onde eu tenho a tendência para escrever textos muito longos.
Não, não é só isso.
Mas são divertidos.
Não, esse é o lado bom. Era isso que eu ia chamar, é que são sempre textos divertidos. Portanto, vamos tentar conseguir falar disto no tempo curto que temos. Vai ser uma história com alguma densidade, mas vai ser divertida. Portanto, venham conosco nessa viagem. Luís, este teu mais recente artigo no Observador é sobre Ricardo Machado, que é um nome que as pessoas que vão lendo as notícias vão conhecendo ao de leve, mas por que exatamente é que estamos a olhar para ele há umas semanas?
Estamos a olhar para ele porque ele começou por ser investigado no chamado Processo do Cartel dos Fogos. Em março de 2025, começou a ser conhecido o seu nome. Depois também foi automaticamente associado, não porque o seu familiar tenha algo a ver com a investigação criminal que eu acabei de falar, ou que tenha algo a ver com a história que nós vamos falar, mas ele é cunhado do ministro António Leitão Amaro.
Portanto, é casado com uma irmã do ministro Leitão Amaro.
É casado com uma irmã do ministro António Leitão Amaro.
Agora, o Cartel dos Fogos tinha a ver com helicópteros, não é?
Tem a ver com a cartelização da contratação pública de helicópteros para o combate aos fogos florestais.
E ele estaria numa das empresas que fornecia esses helicópteros.
Exatamente. Além de que existem suspeitas de que existirá um acesso à informação privilegiada junto de decisores públicos. Esta já é uma última suspeita que foi agora lançada nas últimas buscas que ocorreram nas últimas semanas e que visaram especificamente Ricardo Machado e as suas empresas. E é por isso que nós estamos a fazer este trabalho.
E essa questão da influência junto de decisores políticos vai ter relevância nesta história, não necessariamente aqui em Portugal. Vamos só ao princípio. Quem é ele, de onde é que ele veio, como é que se tornou empresário ou como é que se tornou um empresário de sucesso, porque aparentemente ele teve muito sucesso.
Teve muito sucesso, não há dúvida sobre isso, já vamos explicar porquê. Ele é um engenheiro-agrónomo de formação, natural de Lisboa, tem origens no Cadaval, mas é um alfacinha. Aliás, a sua família está em Lisboa e até a sua avó, pelo que eu consegui saber, até tem uma loja, um supermercado na zona de Benfica. E, portanto, gosta de boinas à Peaky Blinder. Quando deu uma entrevista ao Expresso, apresentou-se com uma boina à Peaky Blinder, que esconde a sua careca, a sua calvície. Não estou a censurar, obviamente, estou só a descrever um facto. Quer educar o país a comer melhor. É fanático por água. Defende que nós devemos beber diferentes águas ao longo do dia. Isto é uma matéria científica, não é nenhum capricho.
Sim, dos vários minerais que são compostos das diferentes águas.
E portanto, estas são algumas das características que Ricardo Machado apresenta nas suas interações, que já são algumas, com a comunicação social. Agora, o nosso trabalho é um pouco o perfil do seu percurso empresarial. Ele começou por trabalhar na Herdade da Torre Bela, que é uma herdade muito conhecida, a memória do PREC, do Processo Revolucionário em Curso, tem na Torre Bela episódios muito importantes. Ele foi trabalhar para lá, por quê? Porque a mulher de Avelino Neves de Carvalho, que é o empresário que terá comprado esta herdade da Torre Bela, reconheceu-lhe competência técnica enquanto engenheiro-agrónomo e portanto indicou ao seu marido a contratação do Ricardo Machado. Avelino Neves de Carvalho, e aqui começa o link com Angola. Avelino Neves de Carvalho conhecia muito bem Angola e conhece muito bem Angola, em especial o poderoso general João de Matos, que foi um dos principais generais do MPLA durante a guerra civil com a UNITA e que liderou a perseguição final a Jonas Savimbi.
E era um homem de negócios também.
E é um homem de negócios também, que tem o seu próprio grupo empresarial. Portanto, digamos que o link à Angola começa em Portugal, começa na Herdade da Torre Bela
E a partir daí ele começa a desenvolver uma vertente de empresário ou pelo menos mais ligado aos negócios e chega a Angola com que estatuto?
Ele chega a Angola ainda como consultor, ainda não como businessman, se tu quiseres, mas como consultor para a área ambiental, porque ele quis conhecer. Foi ele que se propôs a Avelino Neves de Carvalho conhecer João de Matos, porque ele queria que os angolanos percebessem que tinham muito a ganhar com o Protocolo de Quioto, com as licenças de carbono e com os projetos de sustentabilidade ambiental. Ele queria apresentar a sua ideia e realmente conhecer um dos homens-chave do regime angolano para expor essas ideias. João de Matos, em poucos minutos, num encontro nas Amoreiras: "Sim, senhor, você vai já para Angola amanhã." E assim foi. Ele foi, como bom soldado, seguiu para Angola. E é João de Matos que lhe abre as portas, em primeiro lugar, do Ministério do Ambiente, da área ambiental. Ele começa por trabalhar em Angola como consultor de João de Matos, trabalhando com João de Matos, era João de Matos que lhe pagava, através do seu grupo empresarial, tinha também uma área ambiental, mas ele aparece como negociador de Angola no COP de Bali, em 2008. E é aí que ele começa a desenvolver a sua vertente e começa a mostrar os seus dotes como técnico ambiental ao governo angolano. Ele consegue algumas vitórias, consegue cair nas graças da ministra do Ambiente, que era uma mulher muito influente, que é Maria de Fátima Jardim, que foi ministra do Ambiente de Angola entre 2008 e 2017. E ao mesmo tempo que ele ganha esse estatuto junto da ministra, ganha o estatuto junto do governo de Angola como negociador do COP, ele começa a vender os seus serviços também na área das licenças de carbono.
Conhece essa ministra, mas isso é apenas uma porta de entrada, depois para a elite do governo angolano e do poder angolano.
É, ele entretanto sai do grupo de João de Matos, vai trabalhar para um banco, é o Standard Bank, mas depois é a própria ministra do Ambiente, isto segundo fontes próximas de Ricardo Machado, é a própria ministra do Ambiente angolana que o aconselha a Álvaro Sobrinho, para ele ser o braço direito a Álvaro Sobrinho na questão das licenças de carbono.
Álvaro Sobrinho, esse sim, um nome mais sonante aqui em Portugal, porque também com problemas na Justiça, foi presidente do BES Angola.
Foi presidente do BES Angola e o Ricardo Machado torna-se consultor de Álvaro Sobrinho no BES Angola. Não é um contrato em exclusividade, ele vai criar também a sua empresa um pouco mais tarde, que é a Energy. Mas é aí que ele conhece Álvaro Sobrinho. Ele ao conhecer Álvaro Sobrinho, beneficia de uma coisa que é muito comum em Angola, que é um pé no público e um pé no privado. Ou seja, ele tinha grandes relações com a ministra do Ambiente, que tem papel fundamental na questão das licenças de carbono, e o BES Angola era o parceiro do governo angolano para as licenças de carbono, era o intermediário financeiro, portanto, ganhava uma comissão sempre que havia um contrato com as licenças de carbono, que são contratos de futuro, em que se fixa um preço no presente para comprar ou vender um ativo no futuro. E portanto, o BES Angola ganhava uma comissão sempre que era vendida uma licença de carbono, sempre que Ricardo Machado tinha um negócio para intermediar. E é através dessa relação que não só o BES Angola ganha muito dinheiro, mas também Ricardo Machado aparece, juntamente com Álvaro Sobrinho, no processo do BES Angola, que é uma parte importante do nosso trabalho. E é aqui que aparecem as escutas telefónicas, e é aqui que o Ricardo Machado conhece mesmo o Ricardo Salgado.
O próprio Ricardo Salgado.
O próprio Ricardo Salgado.
Onde é que eles se conhecem?
Conhecem-se em 2012, na altura em que as licenças de carbono, e isso é desenvolvido no processo do BES Angola, é uma parte que tem alguma relevância na acusação do BES Angola, não contra Ricardo Machado, que não é suspeito, nunca foi considerado suspeito, nunca foi constituído arguido, nunca foi acusado de nenhum crime no BES Angola, mas Álvaro Sobrinho e Ricardo Salgado, sim, foram imputados crimes graves neste processo do BES Angola, que está a ser julgado aqui em Lisboa neste momento. Ora, as licenças de carbono são um dos exemplos que o Ministério Público dá de falsificação das contas do BES Angola. Ou seja, há um empolamento de proveitos. E há uma escuta telefónica, que nós revelamos no nosso trabalho, entre Álvaro Sobrinho e Henrique Sardina, que era um diretor do BES Angola, em que Álvaro Sobrinho diz que: "Bem, o doutor Ricardo pressionou-me, nós temos que alterar aqui as contas." Então há, de facto, aqui um empolamento para $ 500 milhões, em termos de proveitos destas licenças.
Doutor Ricardo é o doutor Ricardo Salgado.
É o doutor Ricardo Salgado, mas Ricardo Machado aparece nessa escuta telefónica porque ele era o homem-chave na questão das licenças de carbono. E é assim também que ele conhece Ricardo Salgado, porque ele é chamado a Lisboa. E aí nós tivemos acesso também à agenda secreta de Ricardo Salgado, que apontava, de forma muito diligente, todos os contactos que tinha, não só eventos sociais, tinha alguns, mas muitos contactos profissionais. E através daquela agenda, é possível perceber toda a sua rede de contactos. Angola tem uma forte presença nessa agenda e Ricardo Machado também. Ele está presente em cinco entradas nessa agenda de Ricardo Salgado, nessa agenda secreta. Segundo fonte próxima de Ricardo Machado, ele participou efetivamente numa reunião. Não participou em cinco, segundo a informação que nós temos, mas participou numa. E essa informação é algo digno de escrever.
Então, conta-me.
15º piso da sede do BES na Avenida Liberdade. Era o piso só para Ricardo Salgado. Ele tinha uma parte nesse escritório, que era uma mesa redonda. Então nessa mesa redonda estão sentados, de um lado, Ricardo Salgado, Amílcar Morais Pires, que é também um dos participantes do conselho do BES Angola, era o número dois de Ricardo Salgado, era o Chief Financial Officer, e Rui Guerra, que meses mais tarde vem a substituir Álvaro Sobrinho na liderança do BES Angola. E do outro lado estavam Ricardo Machado e João Moita, que era um operacional de grande confiança de Álvaro Sobrinho. E qual é o tema da conversa? É Ricardo Salgado a perguntarSimplesmente a dizer: "Nós precisamos de 250 milhões de dólares." Ou seja, havia um buraco nas contas do BES Angola e era preciso ter ali um proveito que tapasse aquele buraco.
E o mercado das licenças de carbono serviria, de acordo com a investigação, para colmatar as necessidades dessas-
E tapar o buraco do BES Angola, que depois mais tarde é um buraco de vários mil milhões de euros e que acabam por estar na origem também da derrocada do BES.
Certo. Sendo que ao longo desse processo e ao longo desses anos, estamos a falar dos anos do regime de José Eduardo dos Santos, Ricardo Machado consegue, com os negócios e depois com a empresa que ele próprio cria, a Aenergy, consegue fazer uma fortuna imensa.
Sim, o Expresso escreveu esse valor, 450 milhões de euros será o valor dessa fortuna. Fontes próximas de Ricardo Machado desmentem esse valor, mas também não dizem qual é o valor correto. Calculo que também não seja muito longe disso.
Conseguiu amealhar algum dinheiro.
Conseguiu amealhar muito dinheiro e esse dinheiro foi essencialmente amealhado em Angola. Em Angola, um país que, é público, é um facto, que é um país que do ponto de vista da reputação dos negócios não é propriamente o melhor. Não estou aqui a fazer nenhuma insinuação, estou só a constatar em que as ligações, de facto, ao poder político são ligações muito importantes para se ter realmente o sucesso empresarial. E esse sucesso empresarial de Ricardo Machado foi de facto conseguido através de essencialmente negócios com o Estado angolano.
E essas ligações ao poder político, o problema foi que quando esse regime terminou, não tiveram o mesmo tipo de-
Não. Há muitos negócios que Ricardo Machado tem em Angola. Ele não só faz projetos de sustentabilidade energética, como depois também produz energia, como depois também tem supermercados no Gana, como depois também compra comboios e vende comboios ao governo angolano.
Um menino prodígio dos negócios, claramente.
Sim, claramente um menino prodígio dos negócios. Aqui em Portugal comprou a Herdade do Vale Feito, que era uma herdade que era da família Espírito Santo. Não comprou diretamente à família Espírito Santo, comprou a um empreendedor espanhol, que tinha comprado à massa falida do grupo Espírito Santo, mas também tem helicópteros do tal cartel dos Foros. Tem drones também. Portanto, é um conjunto muito variado de negócios, sendo que ele é um homem ligado, de facto, à sustentabilidade energética. E é, voltando outra vez a Angola, é em Angola que ele, por exemplo, de facto consegue muitos negócios, não só tornando-se o fornecedor exclusivo da General Eletrics, que é uma multinacional americana muito importante, conseguindo o apoio da Embaixada dos Estados Unidos para conseguir vários destes negócios também, não propriamente a Embaixada de Portugal, mas consegue, e isso é aqui um facto muito importante, consegue ter uma capacidade de ligação ao ministro dos Transportes, ao ministro do Ambiente, ao ministro das Finanças, a muita gente do poder político angolano, que de facto é algo que não está ao alcance de qualquer um. E ele de facto conseguiu fazer isso. Agora, a origem da fortuna, também é preciso dizer, de acordo com fontes próximas de Ricardo Machado, foi escrutinada em vários pontos do país. Ele tem muitos negócios na Europa, tem muitos negócios com bancos europeus, nomeadamente espanhóis e portugueses. Ele, é verdade, teve problemas com alguns bancos portugueses que não lhe emprestaram dinheiro, mas, por exemplo, tem negócios com o Santander, tem negócios com o Commerce Bank, tem negócios com bancos americanos e, isso que eu estava-lhe a referir, que era a queixa que ele colocou nos Estados Unidos. Ele foi submetido também a uma investigação do Departamento de Justiça norte-americano. E na guerra que ele tem com o governo angolano, porque quando chega João Lourenço, o que acontece é que face os rumores que existem de que a XZ, filha de José Eduardo dos Santos, é acionista do grupo Aenergy, ou outros familiares da família José Eduardo dos Santos são acionistas do grupo Aenergy, coisa que Ricardo Machado desmente, perentoriamente que seja, diz que as empresas são todas dele.
Certo.
João Lourenço rasga os contratos. Rasga os contratos dos famosos comboios. O Ricardo Machado tinha conseguido convencer o ministro dos Transportes e o ministro das Finanças angolano a comprar 100 locomotivas, que eram locomotivas produzidas pela General Eletrics com os respetivos motores. Ele vendeu, é um negócio de aproximadamente 900 milhões de dólares. É muito dinheiro. E João Lourenço rasga o contrato porque diz que os comboios não foram entregues, para fontes próximas de Ricardo Machado, uma outra versão. Mas o que é certo é que isso dá origem a uma queixa nos Estados Unidos e Ricardo Machado ganha essa queixa nos Estados Unidos.
E ainda está em litígio com o Estado angolano.
Ainda está em litígio, noutras notas ouras, mas ganha essa queixa, ganha o direito a uma indemnização e um funcionário da General Eletrics que, segundo o tribunal americano, falsificou documentos e que levaram a essa rescisão de contrato por parte de João Lourenço, esse diretor, é diretor da General Eletrics África, está preso nos Estados Unidos, está a cumprir pena de prisão por ter falsificado estes documentos.
Esta história tem todos os ingredientes para-
Mas vai continuar a dar que falar, certo?
É isso mesmo, por isso é que eu dizia, eu recomendo, leiam aqui o artigo do Luís Rosa, que tem estes pormenores todos ao detalhe. Luís, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu falei com o Luís Rosa, o redator principal do Observador, sobre o perfil e o caminho de sucesso e a teia de contactos valiosos que Ricardo Machado foi construindo ao longo dos anos. Talvez agora tenhamos ficado a conhecer melhor o homem que é sempre apresentado como o cunhado do ministro Leitão Amaro. Sobretudo depois da investigação por suspeitas de corrupção em concursos públicos para alugar helicópteros de combate aos incêndios. Uma ligação que obrigou o ministro a esclarecer, mais do que uma vez, que não tem qualquer envolvimento ou relação com a investigação que envolve o cunhado. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.