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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o meu voo vai ser cancelado?
Temos o voo cancelado, íamos para o Funchal, o voo das 18h50, mas acima de tudo estamos aqui numa fila enorme e não sabemos se estamos na fila certa. Acreditamos que sim, pero-
Isto é uma vergonha. Ouvi turistas, pessoas a dizer que nunca mais viriam a Portugal.
Desespero, incerteza, cansaço acumulado por horas de espera sem fim e sem se saber bem o que se espera. Sentimentos aqui captados pela CNN Portugal. A pergunta que fazemos no título é, no fundo, a que milhares de passageiros fazem agora a si próprios e vão continuar a fazer nas próximas semanas perante as imagens que veem nos últimos dias. No fim de semana, mais de uma centena de voos foram cancelados no aeroporto de Lisboa e o problema tem continuado semana a dentro. Aquelas que para muitos seriam as primeiras grandes férias depois da pandemia, transformaram-se num pesadelo. Para outros, foi o regresso a casa que ficou impossível. Abdias Melo, um humorista brasileiro retido no aeroporto de Lisboa, tornou-se viral nas redes sociais pela forma como relatou a sua situação à RTP.
Meu anjo, eu estou com a mesma cueca faz seis dias. Eu não tomei banho, tô fedendo. Um absurdo, o meu sovaco tá fedendo e eles não fazem nada, simplesmente nada. Simplesmente fala assim: "Vamos resolver, vamos resolver". Aí bota um voo, dá o cartão de embarque, cancela. Dá um voo, cartão de embarque, cancela.
É certo que o problema no aeroporto de Lisboa não é de agora, mas agravou-se nos últimos dias. E a situação não acontece apenas em Portugal, afeta vários aeroportos internacionais. Falar em tempestade perfeita parece sempre uma frase feita, mas a verdade é que muitos fatores diferentes terão contribuído ao mesmo tempo para este furacão nas viagens aéreas. O que explica este caos nos aeroportos? Quais os problemas de Portugal em específico e o que podemos esperar no resto do verão? Hoje vamos falar com Ana Suspiro, grande repórter e jornalista da seção de economia do Observador. Bem-vinda, Ana.
Obrigada, João.
Temos visto diariamente as cenas de caos absoluto nos aeroportos. Como é que chegamos a este ponto?
Por uma combinação de fatores que está cada vez a ganhar mais força. Nós temos a falta de mão de obra. Há falta de trabalhadores em todas as atividades aeroportuárias, inclusive na parte do controle dos passaportes. Por outro lado, há um aumento de procura, ou seja, as pessoas estão a viajar mais, as companhias estão a reforçar a oferta no verão e também, ao mesmo tempo, temos greves setoriais em algumas empresas, em alguns aeroportos na Europa. E temos ainda um efeito residual do Covid-19, não no sentido de restrições, mas no sentido em que há pessoas que faltam às escalas, seja para realizar voos, seja pilotos, pessoas que faltam às escalas porque têm que estar em isolamento, porque estão infectadas com Covid-19. E é extremamente difícil para uma companhia estar a fazer este planeamento e acautelar este planeamento. Portanto, tens aqui um conjunto de fatores que estão, de facto, a fazer com que a situação nos aeroportos esteja cada vez mais difícil, porque depois tens aquilo que eles chamam o efeito bola de neve. O que é que acontece? Quando há um conjunto de voos que são cancelados, tu tens que resolver os problemas das pessoas que iam nesses voos ou que vinham nesses voos. Tens que as encaminhar para outros voos. E isso afeta toda a operação nas próximas horas, dias, e enquanto não se consegue recuperar essa situação, tudo isto ainda se torna mais complicado de gerir.
É um processo em cadeia. Consequências em cadeia.
Exato.
Tu falaste aí na questão da falta de mão de obra e um dos grandes problemas está no chamado handling, que diz respeito aos serviços em terra, nomeadamente o tratamento de bagagens, mas também na segurança. A questão é que centenas de pessoas foram despedidas durante a pandemia porque naquela altura não eram necessárias. Por que é tão difícil agora contratar estas pessoas de volta?
Nós estamos a falar de duas atividades, em particular o handling, onde há grandes oscilações de mão de obra. Ou seja, tu tens sempre um conjunto de trabalhadores que trabalham com contratos a termo para reforçar o serviço quando há mais voos. E no negócio da aviação comercial, tu tens o inverno e o verão, e no verão pode haver, eu vou dizer isto e acabar de ser excessivo, não é até o dobro, mas pode haver até mais um terço do número de voos que existe no inverno, e tu tens que contratar pessoas especificamente para aquele período para responder a essa procura. Portanto, quando tivemos a pandemia e quando o setor parou, estes trabalhadores estavam na linha da frente dos despedimentos. Por quê? Porque não eram efetivos. Tinham contratos a termo que não foram renovados e, portanto, foi mais fácil despedir estes trabalhadores, digamos assim, temporários. Houve também trabalhadores com contratos definitivos que foram dispensados com o pagamento de indenizações e, portanto, isso aconteceu e fez com que a capacidade de resposta nos aeroportos se reduzisse muito. O que aconteceu é que as empresas pensavam que iriam conseguir recontratar estas pessoas, só que a retoma veio muito pressa E o que nós estamos a verificar é que enquanto se esperava que demorassemos ainda um ou dois anos a voltar àquilo que se chama o pré-pandemia 2019, nós neste verão já estamos com o nível de oferta a algumas companhias e a alguns aeroportos que está relativamente próximo, para aí a 90, 80% daquilo que era 2019. E não se conseguiu contratar todas as pessoas que seriam necessárias para responder a esse pico de procura muito elevado.
Mas também por não ser apelativo, por não oferecerem condições e remunerações apelativas.
Há uma questão de falta de tempo. Porque não é possível tu contratares, essas pessoas têm que ter formação, nem que seja básica, têm que ter alguma. E depois, quando os operadores começaram a tentar chamar de volta as pessoas que se tinham ido embora, essas pessoas já estavam noutros empregos, não necessariamente mais bem pagos. Nós fizemos um trabalho aqui há umas semanas em que contámos alguns exemplos. Muitas dessas pessoas que não são especialmente qualificadas, foram para o setor da distribuição. Até podem ganhar menos, mas têm uma vida muito mais descansada. Não têm aqueles chamados turnos malucos, não têm que se levantar às 5h e têm um horário mais regular e não lhes apetece voltar e, de alguma forma, se calhar, também têm receio que o emprego na aviação volte a cair, portanto, não seja, de facto, tão seguro como se pensou que era no passado.
We had some issues on absenteeism because of COVID and because also some challenges during the summer, so we are trying to address that. But we have been recruiting more than 300 cabin crews, that's for sure.
A presidente executiva da TAP garante que a empresa tem estado a recrutar pessoal para fazer face aos constrangimentos. A maior parte dos cancelamentos no aeroporto de Lisboa diz respeito a voos da transportadora aérea portuguesa. Daquilo que conseguiste saber, o que é que se passa nesta altura com a empresa?
A TAP, de facto, tem vindo a recontratar alguns dos trabalhadores que despediu e até tem áreas em que tem recorrido a fornecedores externos. Estou a pensar, por exemplo, na manutenção, que é uma coisa que não tem impacto na operação. O grande problema da TAP neste momento é que ela é a principal operadora aeroportuária no aeroporto de Lisboa e quando há um problema no aeroporto de Lisboa, a TAP é sempre a empresa mais afetada. E como tal, não é surpreendente que apareça na lista o número de voos da TAP que foram cancelados, ser superior aos de outras empresas. Nós verificamos também que rotas para as quais a TAP tem uma boa oferta, tem vários voos, foram mais afetadas do que outras. Eu estou a pensar, por exemplo, a nível dos aeroportos europeus, há grandes aeroportos no centro da Europa, nomeadamente na Holanda, na Dinamarca, mas também na Alemanha. E depois há os aeroportos ingleses e nós não nos podemos esquecer que os ingleses são os turistas que mais vêm para Portugal e são estes aeroportos que estão a sentir mais problemas e também o cancelamento de voos nestes aeroportos acaba por afetar a TAP também. E esse tem sido um problema que está na origem, não está na origem, mas tem vindo a agravar a situação. E depois tiveste na sexta-feira um episódio relativamente raro, que foi um avião, um jato privado que ficou imobilizado no aeroporto, na pista, na única pista do aeroporto de Lisboa, durante duas horas. Eu não sei quantos voos foram cancelados, porque essa informação não existe, mas foram certamente muitas dezenas e muitos deles da TAP. E o que aconteceu foi que o efeito bola de neve começou a verificar-se no sábado. Tiveste 60 e tal voos cancelados. Uma parte era por causa do impacto e do efeito de arrastamento que teve essa paragem na sexta-feira à tarde, que é uma hora de muita procura na aviação comercial. E depois tiveste no domingo também dezenas de voos cancelados. E na segunda-feira a coisa começou a melhorar do ponto de vista daquilo que foi a gestão interna da gestão de voos feita pelas empresas que estão a operar em Lisboa, mas começaste a receber os problemas dos outros aeroportos da Europa, com cancelamentos por parte de muitas companhias aéreas.
À parte esse problema conjuntural da sexta-feira, a questão é que quando falamos do caso de Lisboa, há também problemas estruturais, que são crônicos e que, a juntar a tudo, contribuem também para esta situação.
Exato. Existem problemas estruturais que todos nós conhecemos, que são as limitações de capacidade do aeroporto, as dificuldades de circulação, a forma como todo o fluxo de transporte de pessoas, do avião para a gare, da gare para o avião, aquelas voltas de autocarro que nós damos ali, não sei quantas voltas à pista, parece que entramos na segunda circular. Nada disso faz sentido. O que faria sentido era irmos diretamente para uma manga. E quanto mais tempo um avião demora a descarregar, entre aspas, as pessoas e a bagagem, mais tempo fica imobilizado na pista e menos disponibilidade há para outros aviões poderem operar. E esse é, de facto, um problema estrutural que tem vindo a sofrer algumas alterações. Havia um projeto de reforço da capacidade na Portela que ficou parado durante a pandemia porque estava associado ao desenvolvimento do aeroporto do Montijo, que foi suspenso. E depois tens este problema específico que tem a ver com a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que é uma coisa, obviamente, que as pessoas que fazem parte deste organismo contestam. E há greves e também há uma espécie de greve de zelo. Pode haver, dizem que há casos em que existe e que faz com que tu tenhas visto em junho aquelas filas enormes nos controlos de passaporte em Lisboa.
Para conseguir sair de Bruxelas foi um pouco complicado, porque Bruxelas estava impossível de sair. Duas da manhã o autocarro para vir para Paris, para vir de avião de Paris para Lisboa
Com todos os custos que tivemos de suportar.
Já fizeste algumas referências a isso, mas é importante também percebermos que o problema que estamos agora a ver não é exclusivamente português. Qual é, neste momento, a situação a nível internacional?
Aquelas imagens que nós estamos a ver no Aeroporto de Lisboa estão se a repetir um bocadinho por toda a Europa e também nos Estados Unidos. Focando-nos mais na Europa, há os aeroportos mais centrais que estão a sofrer mais e que inclusive já reduziram a oferta. Tu tens o Aeroporto de Amesterdão e os aeroportos de Londres que já avisaram as companhias aéreas: "Nós não vamos continuar com este nível de oferta, vocês revejam os vossos planos e reduzam os vossos voos, porque não conseguimos responder". E depois tu tens as companhias aéreas a anunciarem a supressão e cancelamentos na ordem das centenas de voos, o que, por sua vez, vai agravar ainda mais a situação, porque as pessoas tinham estes voos planeados e se estes cancelamentos são feitos muito em cima da hora, tu tens que arranjar uma solução para aquelas pessoas poderem viajar ou então tens que as indemnizar.
Mas o que é que aconteceu? As companhias aéreas foram surpreendidas com o ritmo de aumento da procura no pós-pandemia. Esperava-se que fosse mais lento esse crescimento, não?
É difícil eu responder essa pergunta agora. Olhando para aquilo que se tem visto, eu acho que as companhias aéreas fizeram o seu planeamento, olharam para si, olharam para os seus recursos, reajustaram a oferta ou ajustaram a oferta àquilo que poderiam oferecer e ao interesse que tinham por parte dos operadores turísticos e por parte dos passageiros, e se calhar não pensaram ou não viram com as gestoras aeroportuárias se havia capacidade para absorver o aumento da oferta de todas as companhias aéreas na mesma altura. E eu acho que há falha dos gestores dos aeroportos. Aliás, eles estão a tentar corrigir isso rapidamente, reduzindo a oferta no verão, que é a altura pior para todas as pessoas, em que havia já uma expectativa muito grande do setor do turismo de recuperação. Não nos podemos esquecer, tendo como exemplo a TAP, que a aviação atravessou uma crise brutal nos últimos dois anos, teve ajudas públicas, prejuízos, ameaças de falência, e eles estavam a contar com este verão para poder recuperar a receita. Portanto, é muito difícil para as empresas não irem atrás da onda e não tentarem capitalizar essa vontade tão grande que as pessoas têm de viajar. É complicado para elas, mas neste momento já estão a perceber que, se calhar, é preferível reduzirem a oferta e não terem uma situação que também não é boa para a imagem das empresas.
A questão é que estamos agora ainda no início de julho, temos todo um verão ainda pela frente e as pessoas que têm férias marcadas e veem estas imagens, naturalmente, estarão apreensivas. O que é que podem esperar as pessoas que têm voos marcados para este verão, julho, agosto, setembro?
Para já, temos aqui o aviso da presidente executiva da TAP, que ontem veio dizer, numa carta aos clientes, que depois foi difundida, veio pedir desculpas, veio avisar que o fim de semana não foi fácil para a TAP e veio, sobretudo, dizer que as coisas antes de melhorarem, até podem piorar. Por quê? Porque estamos a aproximar-nos das semanas de maior procura nos aeroportos. Há esse aviso por parte da presidente da TAP. A TAP não foi uma das companhias que, até agora, anunciou nenhuma redução de oferta, precisamente porque tem até metas negociadas com a Comissão Europeia para cumprir em termos de recuperação da atividade. Se calhar, também não tem muita margem para fazer isso, mas só nestes últimos dias, eu estive aqui a fazer um levantamento, tu tiveste a Lufthansa, SNS Brussels, hoje a British Airways e a EasyJet. Estas empresas estão a cancelar centenas de voos. Portanto, estes cancelamentos às centenas vão ter impacto nas viagens que estavam programadas para este verão. E o que as pessoas podem fazer? As pessoas o que podem fazer é tentar informar-se o mais possível, sobretudo não esperarem demasiado perto da data para perceber se o seu voo pode ou não ser cancelado. Nós temos tido o problema de que muitos destes cancelamentos parecem acontecer muito em cima da hora. E isso não dá muita margem de manobra às pessoas para reajustarem os seus planos de férias. Obviamente que aí podem escolher, podem esperar que a empresa as reencaminhe para outras opções, o que significa normalmente perder dias de férias e horas no aeroporto à espera, ou podem tentar também reutilizar esses bilhetes mais tarde, numa altura em que a operação aeroportuária já esteja mais tranquila.
Obrigado, Ana.
Obrigada, João.
Ana Suspiro é grande repórter e jornalista da seção de economia do Observador. É importante recordar que em caso de cancelamento ou atraso do voo, o passageiro tem o direito à assistência por parte da companhia aérea, garantido por lei, nomeadamente refeições e alojamento proporcionais ao tempo de espera. Na rúbrica Resposta Pronta, da Rádio Observador, que também está disponível online e em podcast, pode encontrar as explicações da DECO, a Associação de Defesa dos Consumidores, sobre esta matéria. Esta foi a história do dia. Neste episódio, usámos também sons da CNN Portugal e da RTP. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Tenha um bom dia.