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Esta é a história do dia da Rádio Observador: O princípio do fim de Gianni Infantino?

One more thing that could be useful for you. You know, in soccer we have referees.

Nos últimos dias, Gianni Infantino quase só tem falado através de comunicados, mas há um som que vale a pena ouvir.

The yellow card is a warning, right?

É Gianni Infantino a explicar a Donald Trump as regras do futebol, nomeadamente o que acontece quando alguém merece ser expulso.

And when you want to kick out someone.

A ironia é óbvia e seria difícil não a aproveitar neste episódio, onde vamos falar de um projeto milionário, do apoio de Donald Trump, de uma guerra aberta com a UEFA e de uma derrota que pode ter mudado as próximas eleições da FIFA. Hoje vou conversar com o editor de esporte do Observador, Bruno Roseiro, para perceber se este pode ter sido o primeiro grande golpe na liderança de Gianni Infantino. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 04 de agosto. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, Pedro.

Estes últimos dois meses, desde o princípio de junho até agora, foram uma oportunidade para quem, como tu, que acompanhas o mundo do futebol, e nós tivemos o expoente máximo do futebol no mundial, para acompanhar aquilo que parece ter sido o coroar de 10 anos de Gianni Infantino e depois o aparente princípio do fim. Isto está muito ligado com esta proposta que a FIFA avançou da FIFA Forward Enterprise. Para quem não conhece os pormenores, vou começar por te pedir que nos expliques que tipo de negócio era este que Gianni Infantino queria fazer.

Primeiro, deixa-me dizer que não é a coisa mais brilhante do mundo, em 40 dias, estar a levar com não sei quantas madrugadas de trabalho. Nem tudo foi bom.

Eu não disse que era fácil, disse só que era uma oportunidade ou um privilégio.

Foi uma oportunidade. Nem tudo foi bom. No caso Infantino, tudo era bom. Por quê? Infantino chegou àquele patamar de, enquanto todo-poderoso do futebol mundial, achar que depois da atribuição do Prêmio da Paz a Donald Trump, que tem várias questões de sobrepor-se a regras, nomeadamente a neutralidade que a FIFA deve sempre ter, Infantino teve no mundial o seu expoente máximo enquanto figura de todo-poderoso. Desde as paragens para hidratação, que para a saúde dos jogadores é zero, ou seja, os jogadores nem sequer queriam parar.

Era claramente uma manobra comercial.

Mas deu US$ 1 bilhão de receitas de publicidade. Teve também aquela questão dos jatos privados da Qatar Airways, sem problemas nenhum. Ou seja, tudo passou a ser feito às claras. Acabou com aquela imagem, onde ele até foi elogiado, onde explicou Donald Trump quase como uma figura paternalista a dizer ao presidente dos Estados Unidos: "Você não pode estar aí. Esse não é o seu palco, você tem de entregar e tem de sair". E essa foi provavelmente a única vez em que ele foi elogiado. Mas quando acaba, ele tem duas certezas: uma, o Mundial 2026, apesar do grande ceticismo que existia, foi um sucesso, globalmente foi um sucesso.

Apesar de tudo isso, tu deste o exemplo do Prêmio da Paz da FIFA, que foi um prêmio inventado só para apaziguar e mimar Donald Trump. A questão do uso de jatos privados, que dava a entender que o presidente da FIFA estava ali a ser comprado com determinadas benesses e luxos.

Pela companhia aérea do organizador do último mundial.

O fato de receber telefonemas de Donald Trump por causa de um cartão vermelho, tudo isso punha em causa a independência e, ao mesmo tempo, o deslumbramento com o poder de Gianni Infantino. Mas a verdade é que o mundial correu muito melhor do que aquilo que se estava à espera.

Sim, até a questão, por exemplo, do Irão, a questão do melhor árbitro africano não ter tido visto para poder estar nos Estados Unidos, na competição. Tudo isso foram páginas que acabaram por ser anuladas por um sucesso global de toda a competição. Mais jogos, mais equipes, mais receitas, mais espetáculo e, de facto, essa parte da conquista foi toda conseguida. Problema: Infantino, que no meio do mundial consegue assegurar que a esmagadora maioria das federações membros da FIFA estão consigo na sua reeleição.

Porque vai haver eleições daqui a uns tempos.

No próximo ano de 2027, ou seja, vai ser o outro campeonato do mundo. E agora já vamos perceber por que vai ser outro campeonato do mundo. Ele tinha tudo na mão, mas deu um passo maior do que a perna. E em resumo, aquilo que ele queria fazer era, vamos deixar de parte os nomes, era criar uma empresa onde ficariam centralizados todos os direitos, no fundo, todos os ativos, todas as receitas, nomeadamente do campeonato do mundo. A FIFA alocava ali todas as receitas e depois vendia parte do capital social dessa empresa a investidores externos, nomeadamente um que se falou já há muito, que era também da família de Donald Trump, curiosamente, mas provavelmente será só uma coincidência. Era muito dinheiro envolvido nesta nova empresa. E além desse projeto, há também um ultimato feito numa carta. Um ultimato sempre com a benesse de ser algo que se está a dar e não algo que se está a pedir.

A exigir, no caso.

A exigir. Qualquer federação membro Da FIFA que aceitasse até 19 de setembro este projeto, iria receber US$ 40 milhões. Se tal não acontecesse, continuaria com os US$ 10 milhões que teria sempre a receber. Questão, e esse é o problema, todas as federações membro podiam ganhar quatro vezes mais. Infantino, com este projeto, passaria a ganhar seis vezes mais. E isso acabou por ser um dos problemas conjunturais que agora estão todos a desaguar num maior problema estrutural. Infantino deu um passo tão grande que agora até a reeleição da FIFA pode estar em causa.

Então já vamos ver em que medida é que essa reeleição pode estar em causa. Vamos olhar para as reações que houve a esse projeto. A cenoura era evidente que era esses milhões a mais que as federações podiam ganhar. Mas o primeiro obstáculo que ele teve, e era um obstáculo importante, foi logo a UEFA, que conseguiu unanimidade das 55 federações que compõem a União Europeia do Futebol, a dizer: "Nós não queremos esse modelo, nós somos contra esse modelo e se ele for em frente, nós deixamos de participar em provas organizadas pela FIFA."

Que é como quem diz, o Campeonato do Mundo era Brasil, Argentina e o resto. Basicamente passaria a ser isso. Infantino esqueceu-se de um pormenor, é que há cinco anos, a UEFA teve um exemplo disso mesmo com a tentativa de criação de uma Superliga Europeia. Florentino Pérez era o grande cérebro dessa ideia e a Superliga Europeia, quando é apresentada, tinha Real Madrid e Barcelona, alguns dos principais clubes italianos e os grandes clubes ingleses, que eram, no fundo, o coração, além de Real e Barcelona.

Era a elite numa prova de elite.

De elite e que deixava-

Umas migalhas

...quatro plebeus, de quando em vez lá fossem jogar com a elite. Experimentar com tudo aquilo que poderiam ganhar também em termos financeiros. O que é que aconteceu? Em 72 horas, a Superliga Europeia foi apresentada, foi criada e foi suspensa temporariamente, sendo que exatamente neste ano, 2026, caiu de vez. Ou seja, o Florentino Pérez conseguiu ainda tentar aguentar aquilo que já tinha morrido à nascença.

Ligou a máquina.

Mas agora, pura e simplesmente, deixou cair. E a UEFA voltou a atuar como atuou exatamente em 2021. Primeiro, a manifestar-se contra, depois a ameaçar com boicotes, que foi isso também que aconteceu. Tinha também clubes como o PSG e o Bayern do seu lado, mas era sobretudo com boicotes e com essa mensagem de: "Se vocês seguirem por aí, vocês vão ficar fora das nossas provas." E houve também aqui muito peso político. Percebeu-se que, na altura, sobretudo a Inglaterra, houve uma mensagem política para os principais clubes que pura e simplesmente se deixaram cair. Nem quiseram ir à luta, deixaram-se cair.

Porque aqui a lógica, e eu gostava que tu me explicasses por que a UEFA tem essa posição logo tão obviamente relativamente a este tipo de projetos. A ideia romântica, não sei se é realista, é de que ao fazer-se isso, está-se a tirar a alma do futebol, a vender a alma do futebol, que é um desporto essencialmente popular, um desporto de massas e que congrega gente de todos os estratos sociais, de todas as origens, à volta de um jogo.

Sim, basicamente isso. E o futebol é aquela modalidade onde isso não pode ser feito. Porque se tu olhares para o espectro europeu, vamos imaginar o basquetebol, por exemplo. Quando tu dizes Benfica ou Futebol Clube do Porto ou Sporting, ou seja, quem for campeão de basquetebol, vai à Liga dos Campeões, a Liga dos Campeões é quase o equivalente a uma Liga Europa ou uma Liga Conferência no futebol. E por quê? Porque o basquetebol tem uma prova com uma organização própria chamada Euroliga, onde entram as equipas por convite e inclusivamente há equipas, por exemplo, agora este último mês teve uma equipa do Dubai também lá a jogar. E é isto que a própria União Europeia não quer. Não quer competições que estejam atribuídas a privados. E o futebol é o último terreno que se tenta ainda proteger. A UEFA conseguiu proteger bem com a Superliga Europeia, portanto, parece-me que isso, pelo menos na próxima década, não mais voltará a ser assunto, e agora conseguiu proteger com esta questão da privatização do mundial.

Demorou mais de 72 horas a cair essa ideia, mas acabou por cair, ou pelo menos foi suspensa. Exatamente, foram 96 horas, porque para além da UEFA, depois houve uma série de confederações regionais a nível mundial que acabaram por se juntar e, portanto, Gianni Infantino percebeu que não tinha ali grande hipótese de seguir com essa ideia em frente. Agora, o que é interessante é que a UEFA, assim que foi anunciado o fim desta ideia, emitiu um comunicado onde se congratulou com o fim dessa prova, mas disse muito claramente que: "Nós perdemos a confiança na atual liderança da FIFA e, portanto, vamos agora dar os próximos passos para pensar de que forma é que essa confiança pode ser restabelecida". E a questão é que o restabelecimento dessa confiança não passa por Gianni Infantino, que está a contar com um novo mandato

Há muito tempo que a UEFA só estava à espera desta oportunidade. Vamos ter isso muito claro. Dou um exemplo prático: quando fiz o perfil de Gianni Infantino, um perfil grande por altura da final do Campeonato do Mundo, todas as pessoas que estavam a representar a UEFA numa reunião que, salvo erro, foi no Paraguai, havia um congresso da FIFA no Paraguai, e Gianni Infantino, para ter compromissos com norte-americanos, neste caso Donald Trump e Arábia Saudita, chegou três horas depois do previsto a esse congresso. E a UEFA, pura e simplesmente, saiu, abandonou a sala e disse: "Nós não estamos para isso, nós não vamos compactuar com este tipo de situações".

Já era tensa a relação.

Era muito tensa. Ceferin, presidente da UEFA, e Gianni Infantino, nem sequer se pode falar numa questão de paz por, não há paz, não gostam um do outro, nunca gostaram um do outro. Sempre que puderem causar dano um ao outro, vão causar. Será sempre por aí. Com uma diferença, é que Ceferin nunca abriu o flanco para Infantino fazer o que quer que fosse. E Infantino, enquanto figura todo-poderoso do futebol mundial, deu um passo maior do que a perna e deu esse espaço para a UEFA agora poder revitalizar novamente o futebol mundial. E basicamente aquilo que está a acontecer é: Infantino foi sempre um caçador, ou seja, quando nós recuamos até 2016, Infantino acaba por emergir como candidato da UEFA na altura em que Blatter sai como presidente da FIFA com todos os escândalos, e Platini também acaba por sair da UEFA envolto em escândalos que depois, se nós formos ver todas as notícias ligadas a isso, ele foi absolvido em tudo. Portanto, ele acaba por sair por escândalos e ficou muito associado.

Estar envolvido, não necessariamente por ser culpado e responsabilizado diretamente.

E não foi culpado, ele foi absolvido em tudo. Mas a verdade é que UEFA, através de Platini, e FIFA, através de Blatter, ficaram sem presidentes. E nessa altura, Infantino, que era secretário-geral da UEFA, emergiu como o candidato da UEFA à FIFA. E foi uma luta muito complicada contra a Ásia, que achava ter mais ou menos a situação controlada. Houve, inclusivamente, uma segunda volta e foram as federações membros da CONCACAF, portanto, América do Norte, Central e Caraíbas, que acabaram por fazer pender a balança para Infantino, que basicamente aquilo que prometia era transparência, lisura e mais dinheiro para todos. Este é o resumo do programa em 2016 de Infantino. O que é que acontece agora? A própria UEFA, percebendo uma oportunidade que estava aberta, começou a olhar para as reações das outras confederações, nomeadamente a Ásia, que ficou particularmente aborrecida por nunca ter sido ouvida sequer antes da apresentação deste projeto, e a própria CONCACAF, que também alinhou um bocadinho por esse diapasão, embora de uma forma muito moderada. Aquilo que a UEFA começou a perceber é: existe terreno para desbravar e para Infantino ter um candidato em 2027 ou um adversário em 2027.

Sendo que havia já uma espécie de apoios nacionais, digamos, das seleções nacionais, das federações nacionais, a Gianni Infantino. Isso ficou em risco agora com estes acontecimentos.

Está muito em risco porque muito provavelmente vamos voltar à campanha João Havelange. Ou seja, quando nós recuamos quatro, cinco décadas, aquilo que nós vemos, a campanha João Havelange era o quê? Andar de país em país a tentar assegurar cada um dos votos, porque se tu fores ao Camboja, a Laos, Brasil ou Argentina, é a mesma coisa. Vale tudo um voto. E João Havelange teve esse tipo de campanha, de andar em muitas viagens a falar com os presidentes da federação.

Porta a porta, digamos assim.

Quase porta a porta a conseguir o voto. Infantino, em 2016, fez o mesmo. Infantino, em 2026, provavelmente vai ter de fazer o mesmo. E por quê? A UEFA são só 55 federações membro, portanto, é muito curta. Isto é um bocadinho como o jogo de risco, no fundo. E o problema é que Infantino não tem propriamente nenhum continente, não tem uma carta sequer. A Europa sabe aquilo que tem. A UEFA, aliás, tem a Europa e agora vai à procura de mais continentes. Infantino não tem sequer uma carta nesta altura porque pode ter colocado tudo em causa. E aquilo que vai acontecer é: Infantino vai tentar recuperar os apoios que ficaram agora tremidos, ao mesmo tempo que a UEFA vai tentar ir buscar, provavelmente, duas grandes confederações. Objetivo A, Ásia e CONCACAF, objetivo B, Ásia e África. E poderá ser por aí que o futebol mundial vai novamente virar nestas eleições de 2027.

Vamos ver o que vai acontecer. Já agora, só para terminarmos, como é que Gianni Infantino fez este percurso? Percebemos como é que ele se tornou candidato, mas de onde é que ele vem e quem é este homem?

A família dele é toda italiana, ele nasceu na Suíça, portanto ali na zona da fronteira. Quando nós vemos a ligação que ele tem ao futebol, ele tentou ser jogador de futebol, mas jeito era uma coisa que não tinha propriamente muito. Agora, desde cedo mostrou uma apetência natural para ler contextos. Eu diria que esta é a melhor maneira de descrever Infantino. Um exemplo prático: em 2018, esse mesmo clube onde ele começou a jogar sem muito jeito e acabou, naturalmente, por deixar cair essa ideia, teve eleições e ele foi a eleições com dois candidatos muito mais velhos do que ele, portanto, muito mais experientes, e conseguiu ganhar essas eleições com 18 anos, prometendo que a mãe iria tratar de forma gratuita da lavandaria de todo o clube. Este exemplo serve para quê? Para perceber exatamente o que é a leitura de contexto dele, porque toda a vida de Gianni Infantino foi muito assente na capacidade que ele teve em perceber um pouquinho mais à frente qual era o próximo capítulo. Ele depois fez a formação em Direito, teve uma graduação em Neuchâtel também, mas entra através do Centro de Estudos de Desporto na parte do futebol, chega depois à UEFA como consultor e é Platini que o puxa para secretário-geral. E por quê? Porque quando são as eleições na UEFA, Platini contra Lennart Johansson, ele percebeu, mais uma vez, qual era o cavalo certo para apostar. Apostou em Platini, Platini depois puxou-o para secretário-geral da UEFA. Percebeu também quando Platini cai, que a UEFA podia ser curta para ele e era uma oportunidade de ouro para ir para a FIFA enquanto candidato da UEFA. E foi muito assim que Gianni Infantino chegou aos 56 anos, tornando-se um todo-poderoso do futebol mundial. O problema: qualquer pessoa que chega a todo-poderoso tem um possível calcanhar de Aquiles, que é o deslumbramento. E eu diria que um dos grandes problemas de Gianni Infantino foi ter passado demasiado tempo com Donald Trump. Por quê? A capacidade de ficar tão deslumbrado ficou tão patente neste projeto, que ele próprio deu um passo sem perceber que estava a dar um tiro no pé. E é por isso que ele, que era o caçador, nesta altura é uma presa da UEFA.

Vai ser interessante acompanhar os próximos meses, o que vai acontecer. Bruno, obrigado.

Obrigado.

Eu conversei com o editor de desporto d'O Observador, o Bruno Roseiro. A tentativa de transformar o mundial num negócio ainda maior acabou por ter o efeito contrário. Infantino sai deste episódio mais isolado, com a UEFA em campo contra a sua recandidatura e com a política a entrar, como de vez em quando acontece, nas eleições da FIFA. Os próximos meses vão permitir perceber se este foi só um cartão amarelo ou se é mesmo o início do fim do homem que há 10 anos manda no futebol mundial. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.