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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que se passa com a Farfetch?

The shares are surging after The Telegraph reported the company may go private after a troubled New York Stock Exchange listing. Founder José Neves, reportedly in talks with advisors at JP Morgan about this.

Primeiro, a notícia do The Telegraph, na terça-feira, que avançava que José Neves, o magnata da Farfetch, assim dizia o título, estava em contactos com outros acionistas para tirar a empresa da Bolsa de Nova Iorque. Depois, o comunicado oficial da empresa, que adiava a apresentação de contas, prevista para quarta-feira, sem indicar nem as razões, nem uma nova data. Mas já antes, os números difíceis de ignorar daquele que foi o primeiro unicórnio português. Prejuízos consecutivos desde o ano passado e uma queda impressionante no valor das ações, que chegaram a valer $73 e desde setembro não passam dos dois. Que problemas enfrenta a plataforma de comércio eletrónico de roupa e acessórios de luxo e que vantagens ou prejuízos pode ter com uma saída da bolsa? Vou conversar com Cátia Rocha, jornalista do Observador, especialista em tecnologia. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia. Quinta-feira, 30 de novembro. Bem-vinda, Cátia.

Obrigada, Sara.

Começamos pelo princípio. O que é a Farfetch?

É uma plataforma de comércio eletrónico que se dedica especificamente ao mercado do luxo. Foi criada em 2007 pelo português José Neves, daí dizermos que é um unicórnio com ADN português. E além de um marketplace, a Farfetch tem a particularidade também de disponibilizar as ferramentas de retalho a outras empresas. Disponibiliza isto como uma solução tecnológica.

Costumamos dizer que foi o nosso primeiro unicórnio, o primeiro unicórnio português. Foi o primeiro unicórnio com ADN português, será a melhor maneira de o dizer, e gerou logo uma enorme expectativa. Por que gerou esta expectativa?

Lá está, foi o primeiro e é importante aqui explicarmos porque é que fazemos a distinção entre o ADN português, porque a Farfetch está sediada em Londres. Dizemos que tem ADN português por causa do José Neves, por causa da criação e de toda a equipa que está associada à fundação da Farfetch.

E já agora dizemos que é um unicórnio, porquê?

Um unicórnio é um estatuto de uma empresa que ultrapassa a avaliação de mil milhões de dólares.

Uma startup.

Uma startup. E normalmente isto diz-se para empresas que não são cotadas em bolsa. Em bolsa existe outra forma diferente de medir a avaliação destas empresas e também é um pouco discutível se se continua ou não a ter sempre este estatuto de unicórnio. Neste caso da Farfetch, sabe-se que ela hoje em dia vale menos de mil milhões. Portanto, em teoria, já não deveria ter este estatuto. E uma empresa de 2007 também já é um pouco difícil ser considerada uma startup. Depois também tem aqui o facto de ter sido a única empresa desta vaga de unicórnios portugueses que chegou à bolsa e logo à de Nova Iorque, que é o maior mercado e tem um peso diferente, o que também contribuiu para esta expectativa. Depois há também a questão da própria temática e do mercado onde a Farfetch opera.

Luxo.

O luxo mexe sempre com o imaginário, o que gera também expectativas e, além disso, é um mercado que movimenta muito dinheiro. Qualquer pessoa que abra o site da Farfetch vê rapidamente que uma peça pode ascender a milhares de euros.

E percebe também que pode não ser para todas as carteiras. Essas expectativas foram sendo cumpridas ao longo do tempo?

Tem sido muito explorada a questão das contas da Farfetch ao longo dos anos, principalmente desde que eles estão em bolsa, que têm esta obrigatoriedade de divulgar as contas ao mercado e os resultados, que é algo que os outros unicórnios não fazem.

Porque não estão em bolsa.

Exatamente. A primeira vez que a Farfetch deu lucro foi no último trimestre de 2020, ou seja, os resultados já foram conhecidos em 2021, no início desse ano, quando passou de prejuízos a lucros. Mas há que ter em conta um fator muito particular da Farfetch, que costuma ter influência também nos resultados que são apresentados, que é um mecanismo de financiamento que a empresa usa, que se chama obrigações convertíveis, que são indexadas à cotação da ação. O que isto quer dizer?

Por favor.

É uma forma de atrair investidores, mas que está muito dependente do valor das ações em bolsa. Ou seja, se as ações subirem, vai ter que ser inscrito um custo maior nesta emissão deste financiamento. Isso tem de estar nas contas e no que é divulgado ao mercado. Daí que esteja sempre um pouco dependente de quanto é que a empresa está a valer em bolsa.

Em 2018, há então essa entrada na bolsa, na Bolsa de Nova Iorque, que é uma experiência que se revelou, com o passar do tempo, destes cinco anos, muito atribulada.

Tem tido altos e baixos, sim, como toda esta história da entrada na bolsa. A cotação da empresa tem estado a desvalorizar de forma gradual no último ano e aqui temos que ter em conta que o facto de estar em bolsa significa que está também, consequentemente, exposta a outras empresas que estejam a operar no mesmo setor. Às vezes fala-se até um pouco do efeito de contágio que acontece numa ação, pode penalizar ou beneficiar outras empresas que estejam a operar no mesmo setor. As ações da Farfetch atingiram o máximo em 2021, que foi uma altura em que muitas empresas de comércio eletrônico estavam a ser beneficiadas pela questão da pandemia. Estávamos em confinamento, as pessoas compravam mais online. Tudo isso influenciou muito estas empresas que estão neste mercado de compras online.

Nesse momento, em fevereiro de 2021, ultrapassou os $73 por ação, foi esse pico de que falavas.

Sim, mas desde então as ações têm estado a desvalorizar e agora já desvalorizaram mais de 90% face ao valor de quando entraram em bolsa, que foi nos $20.

É um impacto muito grande num ano que também não está a ser fácil por outras razões. A Farfetch anunciou, entretanto, que ia fechar um segmento que foi aberto há pouco mais de um ano.

É o segmento da beleza. Há um grande mercado da beleza também no luxo. Em janeiro de 2022, foi anunciada a compra de uma empresa, a Violet Grey, que é uma retalhista dedicada apenas ao mercado de beleza de luxo, com marcas muito conhecidas e obviamente muito caras. Na altura, não foi divulgado o montante que a Farfetch investiu nesta empresa, mas mais tarde soube-se, através justamente de uma comunicação ao mercado, que terá rondado os $49 milhões. Era a ambição da empresa entrar numa nova área de negócio, a beleza, mas a aposta parece não se ter concretizado, já que este ano foi noticiado que a Farfetch ia sair desta área da cosmética de luxo e até mesmo que estaria a explorar a venda da Violet Grey.

Fecha essa porta, mas também sofre de outros impactos nas portas que mantém abertas, relacionados, por exemplo, com a Rússia e com a China.

Sim, são mercados que neste momento já são muito importantes pra Farfetch. O mercado principal da Farfetch continua a ser os Estados Unidos, mas a Rússia e a China já tinham um peso também bastante relevante. No ano passado, devido à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a Farfetch tomou uma decisão, que na altura os responsáveis disseram que tinha sido uma decisão difícil, que foi suspender a operação e também parar com as entregas nesse mercado.

Na Rússia.

Na Rússia, sim. Não foi a única empresa a fazer isto, é certo, mas já era um mercado que representava cerca de 7% das vendas da Farfetch. Pode parecer pouco, mas tendo em conta que era um mercado que estava com crescimento de 70% por ano, é bastante relevante. Depois, a questão da China. A China tem se revelado um peso pesado do comércio de luxo nos últimos anos e tornou-se um mercado muito importante pra Farfetch. Só que a questão é que também é um mercado que tem estado a abrandar e passou por uma questão de confinamentos e uma questão da Covid um bocadinho diferente dos timings que nós tivemos aqui na Europa.

Muito mais prolongado.

Muito mais prolongado, sim, que afetou de uma forma diferente o país.

Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Rocha. Vamos tentar perceber que vantagens ou desvantagens pode ter uma saída da bolsa pra uma empresa como a Farfetch e o que pode estar, na realidade, a acontecer. Estamos de regresso à conversa com Cátia Rocha, jornalista do Observador. Cátia, o que pode levar uma empresa como a Farfetch a sair da bolsa?

Há várias.

Várias razões.

Há vários fatores.

Vamos a algumas.

Mas um deles pode ser mesmo a questão de não estar tão exposta ao mercado. É diferente ser uma empresa cotada e ter obrigações, e estar sempre um bocadinho exposta a tudo que está a acontecer. É uma hipótese de escrutínio constante. Responsabilidades, tem que se respeitar as regras do mercado. Neste caso, como a Farfetch está na Bolsa de Nova York, tem de responder aos reguladores norte-americanos. E também há a questão da obrigatoriedade de divulgar contas trimestralmente. Tem de se fazer chamadas com analistas, há perguntas que podem ser um bocadinho mais difíceis. É uma exposição constante. É diferente ser uma empresa que não está em bolsa, a uma empresa que tem os olhares dos investidores constantemente.

A grande vantagem seria, por isso, deixar de estar debaixo dessa lupa?

Sim, deixa de ter de responder estas questões burocráticas de comunicação de mercado, de agora houve este negócio e temos de comunicar o que está a acontecer. É diferente. Dá talvez mais recato a uma empresa do que estar constantemente com esta exposição. É claro que a bolsa tem a parte dos investidores e dos acionistas, mas é diferente não estar em bolsa ou estar em bolsa.

Sobretudo quando a experiência na bolsa tem sido tão tumultuosa como tem sido a da Farfetch. Quando saiu a notícia do Telegraph sobre os planos para sair da bolsa, as ações da Farfetch primeiro dispararam, mas pouco depois começaram uma queda muitíssimo acentuada. Por que isso aconteceu?

Podem estar a responder fatores muito diferentes. Primeiro, há a notícia do Telegraph e depois também ao fato de pouco depois de sair esta notícia, a própria Farfetch ter feito um comunicado a anunciar que não ia divulgar as contas do terceiro trimestre, que estavam previstas pra serem divulgadas após o fecho da sessão.

Na quarta-feira.

Na quarta-feira, sim. Adiar a divulgação de contas não é algo invulgar de acontecer, atenção. Mas neste caso, é que não houve uma justificação pra isso ser feito. A Farfetch disse apenas que não ia divulgar e que divulgaria quando assim fosse oportuno.

Sem nenhuma data.

Sim, normalmente as empresas dizem por que vão adiar ou que fator é que teve efeito nesta decisão. Nesse caso, isto não aconteceu. E depois dos relatórios do trimestre passado, que foram conhecidos em agosto e mostraram um prejuízo de $281 milhões, já havia muitos investidores que estavam à espera das contas deste trimestre pra perceberem um bocadinho o que se estava a passar na Farfetch. E também ter a tal chamada com os analistas e poder esmiuçar um bocadinho o que estava a acontecer, nomeadamente com o diretor financeiro. Com esta questão de adiarem a apresentação de contas e também um comunicado da dona da Cartier, as ações estiveram a reagir a estes fatores e a digerir o que está a acontecer e a tentar perceber o que se passa.

Falavas num comunicado da dona da Cartier, porque tudo isto acontece numa altura em que se acreditava que estava prestes a acontecer um negócio muito importante com precisamente a empresa que é dona da Cartier. Que negócio é este?

É um negócio em que tudo está centrado numa participação que a Richemont, que é suíça e é a dona da Cartier ou da Montblanc, tem numa empresa que é a YOOX Net-a-Porter, que é também um portal de comércio eletrônico de luxo que se considera até ser um rival da Farfetch. Há aqui esta participação que ia passar pra empresa do José Neves, em troca de 47,5% do capital, a Richemont ia receber mais de 50 milhões de ações da Farfetch. Já havia aqui uma ligação entre estas duas empresas há uns anos. A Richemont aliou-se mesmo à chinesa Alibaba pra um investimento conjunto na Farfetch. Mas agora neste negócio, já depois da notícia do Telegraph, a Richemont fez um comunicado ao mercado em que veio lembrar aos acionistas que não tem obrigações financeiras para com a Farfetch e que não pretendia emprestar ou investir na empresa, que era uma das tais questões que estava na notícia do Telegraph, que dizia que o José Neves estava a falar com acionistas e que teria até o apoio destas empresas.

Este é um comunicado muito duro, a propósito do negócio, que foi anunciado no ano passado, mas que ainda não aconteceu e que ele próprio também está envolvido em grandes obstáculos. Por quê?

Houve aqui questões de escrutínio, nomeadamente na área da concorrência. Teve de passar pelo crivo da Comissão Europeia e também da concorrência do Reino Unido, porque havia aqui dúvidas se poderia haver ou não uma redução da concorrência no mercado de comércio eletrônico de luxo. Entretanto, recebeu aprovação tanto da Comissão Europeia como do regulador britânico, mas o negócio ainda não está concluído.

A dona da Cartier já veio dizer que está a acompanhar cuidadosamente esta situação. Isto significa que este acordo, este negócio, pode estar em risco?

Existe essa hipótese. A Richemont disse que estava a analisar cuidadosamente, como disseste, a situação da Farfetch e que estava mesmo a considerar analisar todas as opções que tem neste negócio, que foi anunciado há mais de um ano. Dizer que está a analisar já tem aqui um peso. E dizer que não está a planear investir, também tem peso. E há aqui ainda outra tentativa da Richemont de se distanciar, que é quando no final deste comunicado, diz que nem as marcas que tem, que são várias marcas de luxo, nem a Net-a-Porter, já adotaram as soluções tecnológicas da Farfetch. Portanto, distancia-se da empresa.

Deixando claro que não há nenhuma ligação. Obrigada, Cátia.

Obrigada, Sara.

Cátia Rocha é jornalista do Observador, especialista em tecnologia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até segunda.