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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que muda na Netflix e quanto vai custar.
"So the cracking down of the passwords and now adding ads, you're convinced that'll turn things around? Oh, for sure. The impact of account sharing, where a third of the people using Netflix weren't paying, they were borrowing someone else's account. So you look at that and say, 'okay, how do we get them to pay a little bit?'"
Ted Sarandos é o co-CEO da Netflix. Nesta entrevista à Spectrum One, da Califórnia, a 7 de fevereiro, admitia que a introdução de anúncios e o pagamento por contas partilhadas é uma forma de aumentar o financiamento da empresa. Segundo este responsável, um terço dos espetadores não pagava pelo serviço. Quanto a anúncios, e em Portugal, ainda nada se sabe, mas a modalidade passa por pagar menos por mês, mas ter publicidade. Por outro lado, por cá, já está a funcionar o novo sistema de partilha de contas, que torna mais caro o acesso à plataforma de streaming. Vou conversar com a jornalista do Observador, Inês Capucho, sobre o que muda e quanto vai custar esta nova modalidade da Netflix. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Inês.
Obrigada, Ricardo.
Inês, vamos lá então saber o que muda, afinal, na Netflix.
A Netflix começou a combater a partilha gratuita de contas, ou seja, a partir de agora, só quem vive na mesma casa pode utilizar a mesma conta. Por exemplo, se tiveres um relacionamento à distância, se tiveres um filho que não mora na tua casa, nem sequer mora em Lisboa, já não pode fazer parte da tua conta, a menos que pagues por isso.
Mas esse tipo de partilha não chegou a ser incentivado pela própria Netflix até era uma prova de amor, salvo erro.
Sim, chegou a ser incentivada pela Netflix. Até recuperei aqui dois exemplos, dois tweets. Um deles é de 2016 e a Netflix partilha um diálogo que é: "Diz-me o que é que queres e eu dou-te tudo". E a resposta é: "A tua password da Netflix".
Ora aí está.
Sendo que em 2017, amor era mesmo partilhar uma password da Netflix.
Ou seja, Inês, se a própria Netflix incentivava essa partilha como prova de amor, como já percebemos, e já sabemos tudo o que se escreve no Twitter fica para sempre, quer dizer que não era ilegal. Há muitas pessoas a partilhar passwords de Netflix e outras plataformas.
Digamos que não era permitido, era, sim, tolerado. Ou seja, a empresa estava a ver que os subscritores estavam a partilhar a conta, mas fechava os olhos, não agia, só que agora decidiu que já não ia continuar a fazê-lo, ou seja, agora decidiu agir. Mas, por exemplo, se virmos os termos de utilização, pelo menos desde 2018, nós percebemos que está lá escrito, e agora vou citar: "O serviço Netflix e qualquer conteúdo acedido usando o serviço destinam-se apenas a uso pessoal e não comercial e não podem ser partilhados com pessoas fora da sua residência."
Ou seja, estava nas letras pequenas que não se podia partilhar a password, apesar de no Twitter ser uma prova de amor, naquelas letras do contrato que ninguém lê.
Não era propriamente a primeira coisa a aparecer, mas também não estava nas letras pequenas. Mas se partirmos do pressuposto que há pessoas que não leem os termos de utilização, então essas pessoas acham que a Netflix mudou as regras, quando não é verdade. Ainda assim, eventualmente, estes incentivos partilhados nas redes sociais podem ter baralhado assinantes. Ou seja, se lês no Twitter que podes partilhar a password, e que isso até é um ato de amor, e depois lês algo nos termos e condições, vais começar a ficar algo confuso. Então será que posso ou não posso fazê-lo? Se dizem no Twitter que posso e é a conta oficial da empresa, então se calhar até vou fazê-lo e não tem mal nenhum.
Exatamente. Imagina, já deves ter alguns exemplos, mas no caso de a conta estar em nome dos pais e o filho ou filha estar em Erasmus ou estar a estudar fora e estar a usar a conta, isto não é um bocadinho trocar as regras a meio do jogo?
Não, a Netflix não mudou as regras. Decidiu combater algo que estava a ver que as outras pessoas estavam a fazer. E está no seu direito. Nós não podemos dizer que a Netflix quebrou aqui uma promessa, porque não havia promessa nenhuma. Mudou, talvez, um pouco a narrativa. Deixou de incentivar para passar a combater. E também porque no final de 2022, a Netflix já dizia que esta ampla partilha de contas, que crê que esteja a acontecer em mais de 100 milhões de residências.
Cem milhões.
Cem milhões, estava a minar a capacidade de investir, de melhorar a Netflix a longo prazo e de construir este negócio. Portanto, estava a sentir-se quase que lesada por estas partilhas.
Ou seja, leia-se menos dinheiro a entrar. É isso.
Exato.
E recentemente a Netflix avançou a hipótese de confirmar via IP, e há pouco estavas a falar nisso, onde estava ou não o utilizador, para perceber se estava realmente naquela casa. Isso do IP, explica-me lá, Inês, é uma espécie de morada virtual, é isso?
É e não é.
Vamos embora, temos tempo.
Cada rede Wi-Fi tem um IP, um protocolo de internet concreto, que a Netflix vai utilizar para fazer a verificação dos dispositivos com a sessão iniciada, ou seja, para perceber se estão todos na mesma localização ou se há alguém que está a aceder àquela conta de um outro local.
Então, por exemplo, em casa, o meu IP é outro Aqui no Observador, o IP é outro completamente diferente, é isso?
Exatamente. E, por exemplo, se estiveres de viagem, o teu IP será outro, mas neste caso, a Netflix diz que se fores o dono da conta, não deverá ser preciso esta verificação do dispositivo. Consegue verificar que estás de viagem, embora ainda não tenha dado grandes detalhes sobre como é que isto tudo se vai passar. Se for uma conta acedida de forma persistente a partir de uma localização fora desta residência, aí sim, o dispositivo vai ter de ser verificado. Ou seja, a Netflix vai mandar um link para o e-mail ou para o número de telefone associado à conta, ao chefe de família dessa conta, e depois esse chefe de família recebe um código de quatro dígitos. Tem de inserir o código num prazo de 15 minutos. Se o tempo passar, tem que se receber um novo código. E esta verificação pode ser feita de forma periódica. Ainda não se sabe de quanto em quanto tempo é que será necessário verificar os dispositivos.
Portanto, aquela história dos 31 dias já não vai ser bem assim.
Não, a Netflix disse que tinha sido um erro, tinha sido colocado nas páginas de todos os países por erro, embora não tenha confirmado nem desmentido se realmente são esses 31 dias cá para Portugal, por exemplo.
Portanto, isso quer dizer que tu, Inês, como é teu hábito, podes ir passar três meses na tua ilha das Caraíbas e continuares a trabalhar aqui para o Observador à distância e a usar a tua conta Netflix.
Pois, se a verificação periódica passar esses três meses, talvez consiga.
Só um esclarecimento, a Inês não tem uma ilha nas Caraíbas. Já voltamos à conversa com a jornalista Inês Capucho. Vamos perceber qual é a solução para tudo isto e afinal, quanto vai custar. Ouviu rádio hoje?
Ouvi a pipoca mais doce, a Ana Garcia Martins.
Ouvi a Catarina Miranda. Ouvi o Manuel Serrão. Ouvi o meu amigo Júlio Magalhães. Sim, ouvi o Paulo Ferreira. Já ouvi a Maria João Simões. Ouvi a voz incrível da Carla Jorge Carvalho. Ouvi o José Manuel Fernandes.
Ouvi a Helena Matos.
Ouvi, claro, Rui Ramos. Ouvi o João Miguel Tavares.
Ouvi o Luís Aguiar Conrague.
Ouvi a Susana Peralta.
Já ouvi o Jorge Fernandes.
Ouvi o João Marques de Almeida. Ouvi o Bruno Cardoso Reis. Ouvi o Carlos Filhais. Eu ouvi o Martins Sousa Tavares.
Ouvi o Bruno Vieira Amaral.
Ouvi o Eduardo Sá. Ouvi o Alberto Gonçalves.
Ouvi o Gabriel Alves.
Acabei de ouvir o Pedro Henriques. Se também já os ouviu, ouviu a Rádio Observador. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Inês Capucho. Inês, e agora, como vai ser? Como vamos poder continuar a ter Netflix em casa se tivermos uma password partilhada com alguém? Explica-nos lá de uma vez por todas como é que tudo isto vai funcionar.
É preciso pagar. Desde já, é preciso pagar. Por exemplo, Ricardo, se tens um filho a estudar na Madeira e vives aqui em Lisboa, em princípio, o teu filho tem de ser incluído na tua conta como um membro adicional. E é por isso que tem que pagar. Mas imaginemos que o teu filho não quer ser um membro adicional e por isso quer continuar a ter Netflix, mas quer uma conta nova. Também há uma ferramenta que é a transferência de perfil para uma nova conta. Ou seja, o histórico dele, as recomendações, as listas, ficam todas guardadas, só que é numa conta nova e aí já não está partilhada.
E quanto é que isso vai custar, Inês?
Os membros adicionais custam €3,99 por mês, mas há aqui algumas limitações. Ou seja, os assinantes do plano mais básico, que é o mais barato, não podem ter nenhum membro adicional. O plano Standard, que é aquele médio, por assim dizer, só permite adicionar uma pessoa e o Premium, duas. Portanto, no máximo, quem é subscritor do plano Premium só consegue adicionar dois membros extra.
Inês, então naqueles casos em que, contando com o titular, há quatro pessoas na mesma conta, uma vai a vida dela.
Exatamente. Se for o plano Premium, é assim que funciona.
Mas tudo isto levanta também outras questões, Inês Capucho. Por exemplo, no que toca à privacidade. Vamos imaginar que tu e eu tínhamos aqui um acordo, eu estava pendurado na tua password e agora tenho o tal acesso por €3,99, mais a assinatura base. Como é que fica no meio disto tudo a questão da proteção de dados? Porque eu nunca cliquei em lado nenhum, não é?
É uma preocupação à qual ainda não dá bem para responder, porque a Netflix também ainda não deu grandes detalhes sobre como é que vai fazer o acesso aos dados, nomeadamente ao IP. Portanto, é um processo que ainda está a decorrer. Ainda assim, Ricardo, quando pagas esses €3,99 para fazer parte da outra conta, para estares associado a um titular, tens de dar o teu nome, o e-mail e uma password diferente daquela pessoa, do chefe de família. Portanto, estás a concordar que a Netflix tenha acesso aos teus dados. A Netflix está a ter acesso aos teus dados para que tu tenhas acesso aos conteúdos deles. E portanto, a base contratual e o consentimento são duas das formas lícitas para alguém utilizar um dado pessoal de outra pessoa, segundo os advogados ouvidos pelo Observador.
Ou seja, é como se tivesse a clicar lá no quadradinho, a dizer que li e aceito todos os termos do contrato, é isso?
Exato. Por outro lado, ou o titular da conta tem a tua autorização para transmitir os teus dados à Netflix, sendo tu alguém que não subscreve o serviço e está só pendurado na outra conta, ou se fores um membro adicional e colocaste lá os teus dados na plataforma, aqui não há qualquer problema em termos de proteção de dados. Contudo, o problema é se a Netflix utilizar dados de terceiros sem autorização. Terceiros que têm contas partilhadas, que não subscrevem o serviço, que não assinaram um contrato, que não concordaram com os termos e a Netflix está a ver o IP delas. Não estou a dizer que isto acontece. Não sabemos se poderá acontecer, mas se chegar a acontecer, é um problema.
Inês, então a Netflix vai continuar a funcionar para quem pagar, obviamente, esse acesso, cerca de €4, €3,99. Por que tanta irritação? Há pessoas muito zangadas a dizer: "Netflix nunca mais". São muitas?
Eu acho que são muitas. Ainda não consigo quantificar quantas é que são. Tenho ouvido muitas pessoas a dizer que vão cancelar a Netflix e, por outro lado, "adeus Netflix" esteve nas tendências do Twitter em Portugal. Portanto, há muita gente a tweetar sobre isso. É preciso esperar, obviamente. A empresa pode vir a perder subscritores, até porque a concorrência já tem conteúdos que são aliciantes, mas também é mais barata e ainda não falou sobre o combate à partilha de contas e isso pode fazer com que: "Adeus Netflix, olá HBO", por exemplo.
Vamos falar da concorrência mais direta. Temos a HBO, como diz o Pedro Boucherie Mendes no popup, Amazon Prime, Disney+. Como é que funciona no que toca a partilhas?
Até ao momento, não aparentam estar a combater a partilha de contas.
É possível partilhar contas nestas plataformas?
Sim, por exemplo, a HBO Max é a única que nos termos menciona o agregado familiar, ou seja, que os utilizadores autorizados numa determinada conta fazem parte de um agregado familiar, mas ainda assim nunca veio dizer não podem partilhar fora deste agregado. É como a Netflix fazia antes. Está lá nos termos, não quer dizer que possam realmente segui-los. O Prime Video da Amazon permite seis perfis numa única conta e diz que o utilizador, ao aceitar os termos, está a aceitar em seu nome, em nome de todos os membros da sua casa e outras pessoas que utilizem o serviço. Mas quem são estas outras pessoas? Não sabemos, nunca foi especificado. E a Disney+ ainda é menos específica, ou seja, não menciona partilha de contas, diz apenas que o utilizador é exclusivamente responsável por manter a confidencialidade e a segurança do seu nome de utilizador e palavra-passe. Está aqui a dizer que não pode partilhar a sua password, mas na prática não está a fazer nada para verificar isto.
E os concorrentes, Inês, podem aproveitar para conquistar os tais clientes insatisfeitos da Netflix ou também podem seguir o mesmo caminho e começar a cobrar pelas partilhas?
Eu creio que no imediato podem aproveitar para conquistar aqueles que estão revoltados com a Netflix, até porque estão a ver que a nova política da Netflix não está a agradar muita gente e podem aproveitar para conseguir esses clientes. Ainda assim, nada garante que no futuro este novo modelo da Netflix não se torne lucrativo e não pensem: "Olhe, correu bem, se calhar, com a Netflix após um ano, após dois anos, vamos fazer o mesmo". Como vimos, os termos e condições já dão a entender que talvez possa vir a acontecer no futuro. E lá está, mais uma vez, não poderemos falar em promessas quebradas.
E, Inês Capucho, também poderemos assistir à transferência de alguns destes clientes irritados para o domínio da pirataria?
Eu creio que não. E os especialistas ouvidos pelo Observador são da mesma opinião, até porque defendem que um determinado conteúdo tem direitos de autor e temos de pagar por ele. Custa a ser produzido e, portanto, temos esta subscrição.
Muitos milhões, nalguns casos. Basta lembrar "Stranger Things", por exemplo.
Exatamente. E a subscrição é uma forma de nós também contribuirmos para que continuem a ser produzidos conteúdos que gostamos de assistir, "Stranger Things" e outras, para terem mais temporadas, mais tempo de episódio, se calhar. Isto é importante e recorrer à pirataria acaba por desvalorizar estes direitos de autor que a Netflix e outras plataformas de streaming têm.
Obrigado, Inês.
Obrigada, Ricardo.
Inês Capucho é jornalista da secção de Economia do Observador e é especialista em tecnologia. Esta foi a história do dia. Os sons que fomos ouvindo são de séries famosas disponíveis na Netflix. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia. Contamos ainda com a colaboração do jornalista Vasco Maldonado Correia e a música do genérico é do João Ribeiro. Fica ainda um pedido, uma vez que o nosso podcast é gratuito e se tem por hábito ouvir e se gosta da História do Dia, para nós é muito importante que partilhe os nossos episódios com um amigo ou um familiar, porque para nós faz toda a diferença. Pode também clicar em "Seguir" no site do Observador ou nas plataformas de podcast e assim não perde um episódio. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.