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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que sabemos sobre o atentado contra Robert Fico? Robert Fico é alvo de cinco disparos na tarde desta quarta-feira em Hranová, a cerca de duas horas de Bratislava, isto depois de uma reunião do governo eslovaco. O primeiro-ministro é depois transportado em braços pelo corpo de segurança pessoal e levado rapidamente do local. Um homem de 71 anos foi detido em flagrante. Os vídeos que testemunham esta cena foram colocados nas redes sociais quase de imediato. Quem é Robert Fico, o primeiro-ministro eslovaco, e o que justifica um ato de tamanha violência contra um chefe de governo? E o que sabemos sobre este atirador? É sobre isto que vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quinta-feira, 16 de maio. Bem-vindo, Zé Carlos.

Olá, Ricardo.

Zé Carlos, a 11 de setembro, estiveste aqui na história do dia a explicar-nos quem é Robert Fico. Isto numa altura em que este senhor liderava as possibilidades de vir a ser primeiro-ministro da Eslováquia outra vez. Fico venceu essas eleições, mas o governo que saiu dessas eleições de setembro do ano passado é, no mínimo, uma aliança frágil. Explica-nos que governo é este da Eslováquia.

Sim, é realmente frágil em termos ideológicos, ou seja, são dois partidos de centro-esquerda, ou que se assumem como sendo de centro-esquerda, que se aliaram a um partido de extrema-direita, que se chama Partido Nacional Eslovaco, e os dois partidos, neste caso, o Smer, de Robert Fico, e o Hlas, que é o partido de um antigo protegido de Robert Fico, que se chama Peter Pellegrini.

Foi o que ganhou as eleições presidenciais em abril.

Exatamente.

Mas desculpa, interrompi-te.

E que agora novamente os dois estão juntos e têm uma boa relação. Portanto, houve esta aliança entre dois partidos de centro-esquerda e um partido de extrema-direita. Ideologicamente, há aqui uma distância clara entre os três partidos. Essa diferença ideológica esbate-se um pouco na questão da política externa. Ou seja, os três partidos têm uma postura ligeiramente antiocidente, não olham com muito bons olhos pra guerra na Ucrânia, estão muito próximos do Orbán, do primeiro-ministro da Hungria. Ou seja, apesar de em termos de política interna até poderem ter as suas diferenças, em política externa, essas diferenças não se notam tanto quando se compara com a política doméstica.

Também não gostam muito da NATO e da União Europeia?

Não gostam muito. Ainda que destes três, Peter Pellegrini assuma-se como o mais moderado, não são propriamente os maiores apoiantes. Por exemplo, a questão do apoio à Ucrânia, apesar de Robert Fico não ser tão vocal como Viktor Orbán, há aqui uma resistência.

É sempre dúbio, não é, nas posições que toma.

Bloqueia várias iniciativas europeias, portanto, a questão política externa é muito complexa neste caso.

E o passado de Robert Fico, que eu já aqui deixava essa pista, é agora primeiro-ministro pela terceira vez, está marcado por muitas polémicas.

Sim, ele foi primeiro-ministro, primeiro desde 2006 a 2010, depois esteve de 2012 a 2018, sendo que em 2012 consegue uma maioria absoluta, e depois em 2018 demite-se. E demite-se na sequência de um escândalo que teve a ver com a morte de um jornalista. Um jornalista de 27 anos que investigava alguns crimes que terão sido cometidos por membros do governo de Robert Fico. Foi encontrado morto e começou a especular-se que haveria motivações políticas. Milhares de eslovacos saíram às ruas, houve uma grande mobilização popular contra o executivo de Robert Fico na altura. E realmente resultou e Robert Fico acabou por se demitir. Atualmente, a maior polêmica estava relacionada, até aqui de forma estranha, com a televisão estatal. Ou seja, Robert Fico queria encerrar ou desmantelar, melhor dizendo, a RTVS, que é a televisão estatal da Eslováquia, e queria criar uma nova televisão. Esta medida criou várias ondas de choque e desagradou particularmente a oposição, que considerava que isto era um recuo na liberdade de expressão e até na maneira como eram geridos os mídias estatais. E portanto, esta polêmica estava bastante viva atualmente na política eslovaca. Aliás, até pra esta quarta-feira havia uma manifestação contra o encerramento da televisão, que acabou por não se realizar por conta do atentado.

E Robert Fico também é conhecido por tentativas de ingerência no poder judicial na Eslováquia.

Sim. Robert Fico é acusado de assediar, de ter uma postura bastante dura contra, por exemplo, o Supremo Tribunal da Eslováquia. Em abril foi retirado do cargo Jan Mazák, que era presidente do Conselho Judicial da Eslováquia, e terá sido removido do cargo por alegadamente levar a cabo uma investigação, lá está, outra vez, de corrupção contra Robert Fico e alguns membros do seu governo. Uma das promessas eleitorais que Robert Fico também fez e que acabou por não cumprir, entretanto, teve a ver com a redução das penas de prisão pra corrupção. Essa medida foi também muito contestada e até houve manifestações e não foi avante, mas Robert Fico faz uma pressão sempre aos seus governos, ao longo dos seus governos fez sempre uma grande pressão sobre o poder judicial.

António Costa também no meio desta história Como é que aparece António Costa no meio desta história de Robert Fico?

Na sequência das eleições eslovacas de setembro, António Costa escreveu uma carta aos socialistas europeus a pedir a saída quer do SMER, o partido de Robert Fico, do Hlas, do Peter Pellegrini, se se aliassem à extrema-direita, portanto, ao partido Nacional Eslovaco.

O que aconteceu.

O que acabou por acontecer. O resultado foi que os dois partidos de centro-esquerda, que faziam parte durante algum tempo da família socialista europeia, acabaram por ser suspensos da família dos socialistas europeus. Ou seja, houve aqui uma reação pra tentar evitar que este tipo de coligações formassem. Além disso, Costa mostrava algum desagrado na carta com as declarações de Robert Fico sobre a guerra na Ucrânia, que eram bastante negativas e que colidiam com muitos valores da família socialista europeia.

Já voltamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista de internacional do Observador. Vamos tentar perceber melhor que razões existem para este atentado. Regressamos à conversa com José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional do Observador. Zé, e o senhor Fico tem entre os seus aliados europeus Viktor Orbán, na vizinha Hungria, e Putin, em Moscovo?

Quanto a Orbán, não há dúvidas, eles são aliados, partilham várias posições em termos de política externa. Na política interna, não tanto. Robert Fico é mais de esquerda, se pode usar esse termo, defende um Estado Social mais forte, coisa que, por exemplo, o primeiro-ministro húngaro não defende. Mas em termos das relações com o mundo, nas relações com a União Europeia, são os dois muito parecidos. E os dois encontram aqui várias posições em comum, em vários assuntos, a guerra da Ucrânia é um caso paradigmático disto. E não só a guerra da Ucrânia, também a política de migrações. Ou seja, os dois têm vários pontos em comum e os dois não escondem que são aliados e que cooperam em vários níveis em termos de política externa. Quanto a Putin, nunca foi diretamente considerado um aliado, porque também em termos de imagem pública e da imagem pra comunidade internacional, seria muito negativo pra Robert Fico dizer que era aliado de Putin, tendo em conta que a Eslováquia é um Estado membro da NATO e da União Europeia. Mas há sempre aqui uma espécie de ligação a alguns pontos de encontro na propaganda russa e na maneira como entra na Eslováquia, até nos discursos de Robert Fico. Ou seja, há aqui uma aproximação que não existe em outros locais da Europa.

Porque o ambiente político que se vive na Eslováquia está muito polarizado e também percebemos que é altamente permeável à propaganda russa.

Sim, está. O ambiente político na Eslováquia está muito crispado. A oposição vê-se sem grandes opções pra conseguir reagir. E temo-se aqui que aconteça um bocadinho aquilo que aconteceu à Hungria, ou seja, uma espécie de um caminho pra um regime semi autocrático, quase. Daí que haja aqui uma grande pressão sobre a oposição, sobre de que forma é que podem reagir. E também houve eleições na Eslováquia em abril e o protegido de Fico, o Pellegrini, venceu-as. Ou seja, vai haver aqui uma aliança que não havia, porque ainda presidente, era crítica das políticas do atual primeiro-ministro. E sobre a propaganda russa, existem realmente aqui vários fatores que levam a que permeie e que entre no discurso público eslovaco. Houve aqui também uma condicionante política, diria. O antigo governo eslovaco, antes de Fico chegar ao poder em setembro, foi associado ao aumento do custo de vida gerado pela guerra na Ucrânia e não ficou com uma boa imagem. E começou a associar-se a guerra na Ucrânia às dificuldades que a população estava a viver no dia a dia. E, portanto, houve aqui sempre uma imagem negativa da guerra, que foi explorada muito, e diria que terá sido mesmo explorada pelo Kremlin. Além disso, há uma espécie de ingenuidade, muitos especialistas falam uma ingenuidade, uma espécie de afinidade ideológica com o Kremlin, que acaba por dominar a cena política eslovaca. E este ambiente, juntamente com campanhas de desinformação da Rússia, que contaminam, por exemplo, as redes sociais. Houve um relatório da administração interna da Eslováquia que comprovou realmente que depois da invasão começou a haver aqui várias publicações que difundiam informações falsas, por exemplo, a criticar Volodymyr Zelensky. E houve aqui uma espécie de uma propaganda que teve um espaço e teve um terreno fértil pra dominar. Pra concluir, houve um estudo recente que prova que os eslovacos são aqueles que mais acreditam, e o estudo, por exemplo, teve também em consideração a Hungria, os eslovacos são os que mais acreditam que o Ocidente está na origem da guerra da Ucrânia. Ou seja, foram as provocações do Ocidente contra a Rússia.

Então a Rússia está a defender-se.

Sim, exato. Um argumento muito explorado pelo Kremlin que acabou por chegar aos eslovacos.

Bom, não sabemos até que ponto é que a herança de tempos antigos pode contribuir pra essas opiniões, mas não podemos esquecer que a Eslováquia fazia parte da Checoslováquia, um país que estava do lado de lá da Cortina de Ferro. Influência soviética.

Sim, é verdade. Mas há aqui uma grande diferença, por exemplo, entre a República Checa e a Eslováquia. Eles faziam parte do mesmo país, eram dois países que se tornaram independentes após a queda da União Soviética, mas a República Checa, por exemplo, é muito mais a favor do apoio à Ucrânia.

É mais pró-ocidental.

Pró-ocidental, com uma atitude muito mais proativa junto à União Europeia, coisa que a Eslováquia nunca teve. Ainda que, por exemplo, e aqui outra contradição, a Eslováquia use o euro e a República Checa não.

E o que sabemos sobre o atirador?

Juraj Cintula tem 61 anos, é poeta e foi fundador de um clube literário de esquerda. Ele é natural da cidade de Levice e fundou um clube literário que tinha alguns ideais de esquerda, aliás, os seus posicionamentos políticos eram mais à esquerda. Tinha tentado criar um partido político dessa ideologia e não conseguiu as assinaturas suficientes para que isso se concretizasse. Em termos profissionais, sabe-se que Juraj Cintula foi segurança num centro comercial e que o seu filho tinha porte de arma, ou seja, não era propriamente uma pessoa sem experiência nestas lides e talvez possa ter aproveitado algum deslize para levar a cabo o atentado. Recentemente, Juraj Cintula gravou um vídeo em que se manifestava contra, como já disse, um tema que está muito na ordem do dia da Eslováquia, que é o encerramento da televisão estatal. Ou seja, ele gravou um vídeo em que demonstrava grande preocupação com o facto de os media estarem a ser liquidados na Eslováquia e a televisão estatal estar sob ataque. Portanto, tudo isto terá contribuído para que Juraj Cintula tenha levado a cabo o ataque, ainda que as motivações não estejam completamente claras.

Nós estamos a gravar esta conversa ao início da noite de quarta-feira e a esta hora, Zé Carlos, ainda não há razões claras para este atentado.

Não, não há. No entanto, para o governo eslovaco, este ataque teve motivações políticas, ou seja, a tese do ministro da Administração Interna, que falou em conferência de imprensa, é que houve realmente motivações políticas e também culpou e apontou o dedo às redes sociais e ao discurso de ódio que vem circulando.

À tal polarização?

Sim, à tal polarização. Ele diz uma frase que é: "muitas pessoas deviam olhar-se para o espelho e refletir muitas das atitudes que tomaram e aquilo que escreveram nas redes sociais." Portanto, esta é a tese do governo, mas ainda terá de ser clarificada porque o atentado ocorreu há pouco tempo.

Obrigado, Zé Carlos.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.