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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que são os temíveis incêndios de sexta geração.

Santarém deve chegar aos 44 graus, Évora aos 43. As temperaturas vão manter-se altas até quarta-feira. Há 120 conselhos em perigo máximo de incêndio, Beja, Faro e praticamente todo o Norte interior e centro do país.

É uma realidade com a qual temos de conviver com cada vez mais frequência. E com as ondas de calor, vem também o flagelo dos incêndios, que já estamos a viver esta semana no país. Mas há uma nova ameaça que se pode tornar cada vez mais comum. Chamam-lhes superincêndios ou tempestades de fogo, mas o nome técnico é incêndios de sexta geração. Libertam tanta energia que até têm a capacidade de mudar o clima em seu redor, e a água de nada serve, porque evapora quase toda antes de chegar às chamas. Já aconteceram em Portugal, vamos também falar sobre isso neste programa, e a probabilidade de voltarem a acontecer é cada vez maior. Que incêndios são estes? Como se formam e por que são tão difíceis de combater? São questões para a conversa com Joaquim Santos Silva, professor e investigador de Ecologia do Fogo na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vindo, professor Joaquim Santos Silva.

Bom dia.

Professor, comecemos aqui pelo princípio. O que é um incêndio de sexta geração?

Em alguns meios, convencionou designar-se como incêndio de sexta geração, um incêndio de comportamento extremo, que gera a sua própria meteorologia, dando origem a fenômenos extremos de comportamento de fogo, muitas das vezes, comportamento errático, que tornam ainda mais difícil a extinção desses incêndios relativamente àquilo que seria um incêndio, digamos assim, dominado pela meteorologia sinóptica ou pela meteorologia geral que afeta uma determinada região. Este tipo de incêndios não era conhecido até há uns anos na Europa, nomeadamente na Europa do Sul, mas noutros continentes onde existe uma grande acumulação de combustível, devido ao fato de se manterem florestas muito antigas nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, já havia relatos de comportamento extremo, aquilo que na literatura internacional se designa como extreme fire behavior. Só que aqui, no nosso contexto da Europa, nomeadamente da Península Ibérica, são fenômenos recentes.

Estes incêndios, de resto, dão origem a um fenômeno que cientificamente é conhecido como pirocúmulo, e espero estar a dizer bem o nome deste fenômeno. Que fenômeno é este?

Ora bem, o termo cúmulo vem da designação que se dá às nuvens. Existem várias designações, em função da forma como se originam e da forma como, onde se localizam na atmosfera e até a própria morfologia da própria nuvem. Existem cúmulos, cumulonimbus, estratos, cirros, por aí fora. E estes pirocúmulos têm o prefixo "piro" porque são cúmulos, ou seja, são nuvens que são geradas pelo próprio incêndio, devido à ascensão vertical do ar, através de movimentos de convecção, que dão origem a uma subida em grande altitude das massas de ar. O que dá depois origem a arrefecimento, dá origem à condensação e, havendo condensação, frequentemente, dá origem também a descargas elétricas, porque geram-se diferentes polaridades dentro da própria nuvem. São fenômenos muito localizados que tornam bastante difícil exercícios de previsão com modelos, porque estão sujeitos a condições muito locais.

Portanto, há pouco, quando dizia que estes eventos criam o seu próprio clima, é isto mesmo, não é? Ou seja, nuvens que podem, inclusivamente, gerar estas descargas elétricas, que por sua vez, podem originar novos focos de incêndio, por exemplo.

Precisamente. Isso pode ser, obviamente, um problema, porque a existência de diferentes focos de ignição numa mesma área torna ainda mais difícil o processo de combate. Mas há fenômenos, como aquele que conhecemos em 2017, em Pedrógão Grande, que associados precisamente a este tipo de ascensão vertical do ar a grande altitude, que depois, devido à O peso dessa massa de ar, ao arrefecer, torna-se mais densa e torna-se mais pesada. E há circunstâncias em que a coluna de convecção pode colapsar e esse ar pode descer abruptamente, a partir de grande altitude, e chocar com a superfície da Terra, dando origem a ventos horizontais extremamente violentos. Foi esse fenômeno, conhecido também por downburst, que esteve na origem da maior parte das mortes, das fatalidades, em 2017, em Pedrógão Grande.

Portanto, Pedrógão Grande foi o primeiro caso de um incêndio destes, de sexta geração, registado em Portugal?

Eu penso que não. Vamos ver, este tipo de classificações também não obedece a métricas muito objetivas. Mas existiram outros fenômenos, basta lembrarmos dos grandes incêndios de 2003 e ainda dos grandes incêndios de 2005. Em 2003 arderam mais de 400 mil hectares, em 2005 arderam mais de 300 mil hectares. E houve fenômenos locais com comportamento de grande violência também. É difícil pra mim localizar e identificar exatamente que incêndios é que podem ser catalogados dentro desta categoria de sexta geração, mas o incêndio de Pedrógão foi aquele mais midiático, porque deu origem a um grande número de fatalidades e, portanto, foi um acontecimento de grande impacto na opinião pública. Mas terão existido já outros casos semelhantes.

Dizia há pouco que este tipo de fenômenos já acontecia em outros pontos do mundo, fora da Europa. O fato de estar aqui a acontecer agora, e acontecer agora cada vez mais, tem também a ver com a questão das alterações climáticas, com o fato também de estarmos a viver, com cada vez mais frequência, ondas de calor, por exemplo?

Sim, tem a ver com isso e tem a ver com o processo de acumulação progressiva de combustível nas nossas paisagens. Isto são fenômenos que seriam dificilmente concebíveis há 50, 60 anos, numa altura em que o país tinha ainda uma grande parte da população no mundo rural e em que havia práticas de agricultura e de pastorícia e até, inclusivamente, da recolha de material como combustível doméstico, que entretanto desapareceram, com o evoluir da sociedade. E isso a acrescer também a opções que foram feitas de arborização massiva do país, nomeadamente com uma espécie em particular de rápido crescimento, que repõe rapidamente o combustível na paisagem. Mesmo depois de arder, rapidamente temos cargas grandes de combustível. Isso, juntamente com um clima que de fato tem estado a aquecer, será provavelmente as duas razões para explicar estes comportamentos extremos de incêndios que temos vindo a verificar.

Já voltamos à conversa com Joaquim Santos Silva, professor e investigador de Ecologia do Fogo na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra. Na segunda parte, vamos tentar perceber como se pode tentar combater, contrariar ou pelo menos trabalhar na prevenção de eventos desta natureza. Estamos de regresso à conversa com Joaquim Santos Silva. Professor, há aqui uma imagem que penso que é muito visual pras pessoas perceberem, que é este tipo de eventos, por muita água que se lance para cima, estima-se que às vezes, por exemplo, 90% da água usada nem sequer chega às chamas, porque evapora logo com tanta energia libertada por um incêndio desta magnitude. Assim sendo, como é que se consegue combater um evento desta natureza, por exemplo?

Consegue-se combater com técnicas de combate indireto. Esta ideia de que nós conseguimos com equipamentos e com meios pesados, enfrentar diretamente as chamas de qualquer tipo de incêndio, as pessoas que fazem combate sabem que não é assim. Há inclusivamente um limiar, em termos de potência gerada pelo incêndio, que se assume como o limite a partir do qual não vale a pena estar a fazer combate direto. A partir daí, restam as técnicas de combate indireto, que passam por interromper o combustível, e isso pode ser feito de várias formas. Quando o fogo tem pequenas dimensões, pode ser feito com ferramentas manuais, pode ser feito com bulldozers, pode ser feito com o uso do próprio fogo.

O fogo técnico.

O termo fogo técnico engloba vários tipos de fogo. Mas a nível do combate, há duas formas de utilizar o fogo. Há aquele fogo em que a frente de chamas colide com a frente do incêndio, dando um efeito de exaurimento do oxigênio disponível, fazendo com que há uma coluna que literalmente suga o oxigênio no ponto em que as duas frentes colidem uma com outra, isso é o chamado contrafogo. E depois há o chamado fogo tático, que é um fogo que se lança antes, a uma distância considerável da frente de incêndio, e depois quando a frente de fogo chega a essa mancha queimada, não encontra combustível nenhum e nessa altura poder-se-á dar a extinção. Isto sempre com a grande incógnita de poderem existir focos secundários, ou seja, mesmo que a frente de chamas encontre uma zona de interrupção, e há muitos relatos, por exemplo, de frentes de chamas que encontram uma barragem, por exemplo. Uma barragem é um obstáculo completamente incombustível, como se sabe, e por vezes até com uma largura considerável, mas há muitos relatos de incêndios que têm saltado a barragem pro outro lado e têm continuado o seu caminho, já depois do outro lado, graças a esse tipo de fenômenos, que são folhas que são lançadas, às vezes, a grande distância, quilômetros, e que dão origem a um novo foco de incêndio. Isto para dizer que não há soluções milagrosas e que, por vezes, nem mesmo as técnicas de combate indireto conseguem resultar no combate a esses incêndios.

Esta semana que estamos, de facto, a viver dias de muito calor, que estamos mais uma vez a viver este episódio do flagelo dos incêndios, como vivemos já em outros anos. Coloca-se também esta questão: prevê-se este tipo de incêndios, estes incêndios de sexta geração, poderá tornar-se cada vez mais frequente no futuro, na Península Ibérica e em especial, obviamente, em Portugal?

Pois, infelizmente, as previsões climáticas, de todos os modelos apontam nesse sentido. Por um lado, extremos climáticos, nomeadamente temperaturas mais altas, depois um alargamento daquilo que é a época normal de incêndios, que no nosso país começa normalmente em julho, e acaba em setembro, e tudo aponta que poderemos começar a ter incêndios mais cedo, em abril, em maio, e acabarem mais tarde também. É óbvio que previsões são previsões e modelos são modelos, dificilmente um modelo consegue meter de forma confiável todas as variáveis. Uma das variáveis são as próprias áreas queimadas. Quanto mais arde, menor é a probabilidade, nos anos seguintes, de voltar a arder. Depois há incógnitas também, como o esforço de combate, como a eficácia dos sistemas de detecção. Mas há trabalhos científicos que apontam, por exemplo, para que a média de área queimada em Portugal, num horizonte que é relativamente próximo, 2050, seja o triplo daquela que é neste momento. Isso é bastante assustador, porque isso equivale a termos anos como de 2017, ou 2005, ou 2003 passarem a ser o novo normal. Esperemos que o sistema se consiga ajustar e adaptar o suficiente para que isso não venha a acontecer.

Precisamente. Se estes eventos deverão ser cada vez mais frequentes, sabemos que são muito difíceis ou às vezes impossíveis de combater, então o que é que podemos fazer para estarmos melhor preparados para quando eles acontecerem?

Há três vertentes em que se pode atuar. Eu não alinho com muitos dos meus colegas que apostam muito na chamada prevenção estrutural, que manipulando os combustíveis e gerindo a paisagem que nós vamos conseguir prevenir os incêndios, e mudar bastante o paradigma que temos atualmente. Eu penso que há muito trabalho a fazer ainda a nível da prevenção das ignições, porque continuamos a ter um número ainda muito elevado de ignições face aquilo que é a média dos outros países do Sul da Europa. Ou seja, as pessoas dão origem a muitos fogos, muitas vezes de forma até negligente. Ou seja, há aqui um comportamento dos cidadãos que pode e deve ser trabalhado. E depois, há muito trabalho a fazer na área do combate. Esta não é uma boa altura para falarmos de combate, nem de entrar em detalhes, porque é uma altura em que temos operacionais no terreno a darem o seu melhor para conseguirem debelar os incêndios que estão a ocorrer neste momento no nosso país. Mas há, de facto, muito a fazer nessa área.

Obrigado, professor Joaquim Santo Silva.

Ora esse, eu é que agradeço. Muito obrigado.

Joaquim Santo Silva é professor de Ecologia do Fogo na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra. Esta foi a história do dia e tenho ainda um pedido que pra nós é importante. Se gosta deste programa, não deixe de clicar em "seguir" na plataforma que habitualmente usa para ouvir podcast. Assim está sempre a par dos novos programas e temas diários. Neste episódio usamos ainda um som da CNN Portugal. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.