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E com olhos postos no clássico entre o Futebol Clube do Porto e também Benfica, tenho comigo Emílio Peixe, antigo internacional português que representou os dois lados da barricada. Emílio, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Obrigado eu, Diego.
Bem-vindo à Rádio Observador. De facto, o Emílio Peixe passa tanto no Futebol Clube do Porto, esteve mais anos do que propriamente no Sport Lisboa e Benfica. Temos este clássico no Dragão. Eu começo desde já, Emílio, por lhe pedir uma antevisão a esta partida, que se espera bem quentinha do nosso campeonato português.
Olha, Diogo, eu creio que será mais um clássico onde irão se defrontar duas das grandes candidatas ao título, juntamente com o Sporting, obviamente, onde o Porto, como campeão atual, terá, quanto a mim, uma pequena vantagem, ainda para mais jogando em casa. Mas este Benfica tem surgido de forma muito clara na sua qualidade, tendo ido de forma muito positiva. Marco Silva realmente conseguiu criar uma identidade nesta equipa. Os resultados estão à vista e obviamente que a pequena percentagem de favoritismo será do Porto. O Benfica terá também uma palavra a dizer pela qualidade que tem demonstrado e obviamente pelo grande resultado que fez a meio desta semana.
Esse triunfo frente ao AC Milan, em pleno solo italiano, em Milão, o AC Milan de Rúben Amorim. Tal como o Emílio Peixe referia, o Benfica, olhando aqui para as águias, vem desse embalo da vitória para a Liga Europa, mas também somou a oitava vitória consecutiva. Em termos de campeonato, o Futebol Clube do Porto, além de ser o atual campeão nacional, é o líder do campeonato, seis jogos, seis vitórias. E vamos ter, Emílio, aqui o embate entre a melhor defesa do campeonato, a equipa do Futebol Clube do Porto, com apenas dois gols sofridos, frente ao melhor ataque da prova, o Benfica, que já leva 21 gols marcados. Acredita que esta estatística também possa pesar relativamente ao clássico?
Relativamente a este jogo, creio que não, mas relativamente àquilo que será o decorrer do campeonato, acredito que sim, porque a história diz-nos que a equipa que menos gols sofre, normalmente, é a equipa campeã no final da liga, do campeonato. Obviamente que isto é só estatístico, obviamente que fala aquilo que tem sido todo o percurso das equipa campeãs no sentido de conseguirem e de confirmarem uma defesa muito forte da sua baliza. A equipa que menos gols sofre, normalmente torna-se campeã, mas poderá eventualmente este ano, tendo em conta a grande qualidade existente nos três maiores clubes de Portugal, isso poder não vir a acontecer. Acredito que sim, que será um jogo onde haverá obviamente gols, com toda a certeza, acredito nisso, pela qualidade demonstrada das duas equipas em termos ofensivos. E seguramente, por aquilo que eu dizia anteriormente, o Benfica terá uma palavra forte neste jogo, tendo em conta o resultado que fez, tendo em conta a evolução que tem tido, mas obviamente temos que contar sempre com o pragmatismo e a atitude de uma equipa que tem uma identidade própria de há muitos anos a esta parte, onde ficou com o mesmo treinador, com os mesmos jogadores e a sua identidade está criada e obviamente que será muito difícil ao Benfica conseguir um resultado positivo, mas tendo em conta, como disse anteriormente, a evolução da equipa, não só na qualidade de jogo, mas sobretudo nos resultados, poderá eventualmente também conseguir ganhar no Dragão.
Pegando precisamente nesse contexto, o palco onde vai decorrer o jogo, o Emílio Peixe esteve na equipa azul e branca entre 1997 e também 2001. Esteve quatro anos nessa casa e toda a gente reconhece, as pessoas que acompanham o futebol, reconhecem esse ADN Futebol Clube do Porto, sobretudo quando joga em casa, no Estádio do Dragão e na cidade do Porto. Eu gostava também de perguntar ao Emílio Peixe que nos explique um bocadinho como é que é viver um clássico frente ao rival Benfica, quando é jogado na cidade do Porto e agora, neste caso, no Estádio do Dragão.
Eu vou-me reportar um bocadinho ao meu tempo. Ao meu tempo, já lá vão, creio que 25 anos.
É verdade.
Exatamente. E, portanto, o jogo, o futebol evoluiu bastante. O contexto, quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista daquilo que é o ambiente criado nos clubes, também obviamente mudou. As pessoas, a liderança também é outra, mas acredito que, principalmente no palco do Porto, esse ADN e essa tal mística de que se fala de há muitos anos a esta parte, nunca poderá deixar de ser a grande marca e a grande afirmação do clube que é o Futebol Clube do Porto. Obviamente que os tempos são outros, mas acredito que o Porto fomentará essa mais-valia que o trouxe realmente a estes tempos como uma equipa com muitos títulos, quer do ponto de vista nacional, quer internacional, pela qualidade não só dos jogadores que teve ao longo dos anos, dos treinadores, mas sobretudo por uma liderança por mais de 30 anos Do falecido presidente Jorge Nuno Pina Costa.
De facto, o Emílio Peixe falava nessa atmosfera também da altura de 1997 até 2001, quando esteve com a equipa do Futebol Clube do Porto. Representou depois o Benfica na época 2002, 2003. Há muita gente que também fala na questão de o jogo se poder decidir nas bolas paradas. E sabemos que a equipa do Futebol Clube do Porto, a equipa de Farioli, é muito forte nesse capítulo, nos pontapés de canto, nos pontapés livres laterais. O Emílio Peixe, também enquanto treinador, acredita que o clássico possa passar por aí na bola parada?
Eu creio que a equipa que do ponto de vista defensivo for mais consistente, estará mais próxima de ganhar este jogo. É um jogo com características diferentes, onde o estímulo e a preparação para o jogo é realizado da mesma forma que todos os outros. Este jogo não precisa de qualquer tipo de ingrediente, de maior estímulo, digamos assim, de maior preparação, porque os jogadores irão estar estimulados, irão estar preparados para jogar este jogo. Este jogo é realmente daqueles jogos que todo o jogador gosta de jogar e acredito que do ponto de vista da abordagem estratégica, quer de uma equipa quer de outra, qualquer coisa que sirva para tirar vantagem, irão fazê-lo. E as bolas paradas, o Futebol Clube do Porto tem mostrado e provado que é uma equipa muito forte e obviamente o Benfica já estudou, já se preparou e terá obviamente também a sua abordagem relativamente a esse momento do jogo.
Em relação ainda aos protagonistas que vão estar em campo, até porque o futebol não só vive do coletivo, mas muitas vezes, como o Emílio Peixe também sabe, vive de individualidades. Gostava de lhe perguntar também quem é que o Emílio Peixe considera que possam ser aqueles nomes, quer da parte do Porto, quer também da parte do Benfica, que podem fazer a diferença. Quem é que são as individualidades de cada lado que podem marcar a diferença num jogo como este?
Eu creio que por parte do Futebol Clube do Porto, tem estado realmente muito bem. E é uma surpresa, porque esteve muitos anos fora do clube e voltou em grande forma e tem realmente justificado, porque já marcou também três gols, que é o André Silva, que é sempre um jogador muito perigoso, é um jogador da área, um jogador que finaliza muito bem. O Borja Sáenz também com três gols, é um jogador extremamente perigoso pela sua velocidade e agressividade com bola. E também o Pepe, um jogador que tem esse ADN Porto, que já está no Porto há muitos anos e que pode também, de alguma forma, tirar vantagem pela sua criatividade e pela sua agressividade em processo ofensivo. Por parte do Sporting e do Benfica, eu destacaria o número de gols do Pablo Íñiguez, é o melhor marcador neste momento. É sempre um jogador muito perigoso nas zonas de finalização. Parece-me que a função do Pablo Íñiguez nesta forma e nesta identidade de jogo que o Marco Silva quer imprimir no Benfica, obriga-o também a outro tipo de atitude sob o ponto de vista defensivo, quando a equipa está preparada para defender e sobretudo preparada para pressionar o adversário numa primeira fase. Creio que o desgasta mais, mas tenho percebido que também do ponto de vista dessa abordagem que ele tem, tem tirado alguma vantagem com alguns roubos de bola e sobretudo pressionar o adversário no sentido de o fazer errar, para depois poder contra-atacar. E depois o Presteroni, que tem realmente enchido os olhos, digamos assim, pela sua qualidade relativamente não só aos gols que faz, mas à qualidade que tem imprimido e tem apostado. Este Benfica desta época tem feito realmente jogos absolutamente incríveis e quanto a mim é realmente o jogador referência neste momento do Sporting e do Benfica.
Ora bem, Emílio Peixe, mesmo aqui para terminarmos também a nossa entrevista, além de ter sido antigo internacional português dentro dos relvados, agora como treinador, o Emílio Peixe também tem ligação às camadas jovens da seleção portuguesa e obviamente não sabemos quem é que irá jogar na lateral direita do Benfica, se o regresso do Alexander Bah ou o Daniel Banjcki. Mas falo aqui do Banjcki porque vem desse lote de campeões do mundo sub-17 e o Benfica tem vindo a apostar em alguns deles, também o caso do Anísio. Eu gostava de lhe perguntar também, Emílio Peixe, esta incursão dos jovens nas equipas principais portuguesas, sobretudo nos grandes clubes de Portugal, isso também é bom, estes jogos para lhes dar esse calo que eles precisam?
Eu costumo dizer, Diogo, porque realmente tive a oportunidade de trabalhar com muitos dos jovens que estão a aparecer agora, quer no Benfica, no Porto, no Sporting, no Braga também. Há que ter coragem. Eu creio que os treinadores têm essa legitimidade de terem que apostar ou não, tendo em conta também o trabalho realizado durante a semana. Obviamente que ninguém vai dar nada de bola, quer ao Banjcki, quer a outro jogador qualquer, seja do Benfica, do Porto ou de outro clube qualquer. Eles têm que fazer por eles, mas sobretudo há que ter alguma coragem sob o ponto de vista daquilo que é a política desportiva dos clubes, porque os jogadores têm qualidade. Eu costumo dizer: se derem 10 jogos seguidos a um Banjcki, a um José Neto, a um Anísio, a um Miguel Figueiredo ou a um Bernardo Lima do Porto, ou a um Tiago Silva do Porto, ou a um André Miranda do Porto, se derem 10 jogos seguidos a esses miúdos, eles não vão deixar ficar mal ninguém. E vão provavelmente conseguir render mais que muitos jogadores que são contratados por milhões e milhões e que a dada altura deixam de valer esse dinheiro, porque realmente há valor no jovem jogador português. Se lhe derem a oportunidade para mostrar esse valor, eu creio que não deixarão ninguém ficar mal.