Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia: quem deixamos para trás quando fugimos da guerra. As sirenes tocam em Lviv. O som é registrado pelos enviados especiais do Observador à Ucrânia na estação de comboios da cidade. Ouvimos as rodas das malas a bater nos degraus enquanto crianças, mulheres e homens descem as escadas à procura de abrigo. Há milhares de pessoas que tentam sair do país. A fronteira está quase ali, a 90 km. Em Kiev, a CNN Internacional fala em direto com Petro Poroshenko. O ex-presidente ucraniano mostra uma Kalashnikov. Juntou-se às milícias populares. São armas ligeiras contra o Exército Russo. "Até quando vão aguentar?", pergunta a CNN. "Para sempre", responde Poroshenko.

"How long do you think you can hold out? Forever. I think that Putin never will catch Ukraine despite no matter how many soldiers he has, how many missiles he has, how many nuclear weapons he has. We Ukrainian are free people with a great European future."

Como se vive num país em guerra? Quanto da nossa vida cabe numa só mala? Esta é a história do dia. Hoje vou conversar com a jornalista e enviada especial do Observador à Ucrânia, Cátia Bruno. Bem-vinda, Cátia Bruno. Que bom ouvir-te.

Olá, Ricardo.

Onde é que estás?

Neste momento estou no lobby do hotel onde estamos alojados em Lviv.

E como tu e o João Profírio conseguiram chegar à Ucrânia?

Em primeiro lugar tivemos de apanhar três voos com escalas muito curtas. Tivemos de correr um bocadinho, mas isso também não faz mal nenhum. Depois, assim que chegámos a Cracóvia, na Polónia, alugámos um carro e fomos até à fronteira terrestre, que depois atravessámos pra chegar aqui a Lviv.

Lviv fica sensivelmente a 80, 90 km da fronteira. Nesse trajeto que fizeram entre a fronteira polaca e a cidade de Lviv, a fila para sair da Ucrânia parecia interminável.

Sim, eu diria que chegava quase até metade da distância que separa a cidade da fronteira. Tínhamos carros atrás de carros, tínhamos às vezes que nos desviar para a berma porque havia alguns carros em contramão a tentarem passar à frente da fila.Tínhamos, determinado ponto, um checkpoint gerido por soldados Ucranianos, que estava a verificar a identidade das pessoas que estavam a passar. Pensamos nós já relacionada com a lei marcial que está em vigor e que diz que os homens entre 18 e 60 anos não podem abandonar o país, porque têm de estar disponíveis como reservistas. E isso significa também que havia pessoas a serem enviadas para trás e que às vezes víamos voltarem a pé, porque tinham deixado as mulheres e os filhos seguirem de carro pra Polónia, então estavam a pé com malas pra Lviv.

And we together moved to Lviv yesterday and today we're here. War, total war! When I arrived from Lviv, I understanded that in Lviv some, I don't know how is this in English, but .

Um dos primeiros locais onde estiveram tú e o João Profírio foi a estação de comboios aí em Lviv. Há muita gente a tentar fugir da Ucrânia?

Sim, neste momento há muita gente a tentar fugir da Ucrânia, muita gente que está a vir de outras partes da Ucrânia para Lviv, para depois a partir daqui tentar passar pra Polónia. Eu conheço ucranianos que vivem em Kyiv e que tiveram de sair ao longo do dia de ontem e de hoje, e um trajeto que costuma demorar cerca de seis, sete horas pra chegar de Kyiv a Lviv está a ser feito em 20 e tal horas, 30 horas dentro do carro, e as pessoas fazem-no à mesma, não desistem, não voltam pra trás. Mesmo sabendo alguns homens que podem ser mandados pra trás na fronteira muitos tentam à mesma, na esperança de que possam ter sorte, de que consigam de alguma maneira dobrar as regras. Portanto, há muita gente que quer sair da Ucrânia, isso é evidente, é um êxodo neste momento, uma crise de refugiados a sério que estamos a assistir em direção às fronteiras da União Europeia.

Que histórias encontraste nessa estação de comboios, Cátia Bruno?

Encontrei histórias de pessoas que partem para o completo desconhecido. Pessoas que deixaram as suas casas, os seus carros. Pessoas que se despediram, por exemplo, dos pais, que já têm mais idade e que lhes disseram: "Nós já temos mais idade, podemos morrer aqui. Vocês vão procurar futuro". Pegaram nos filhos, pegaram umas quantas roupas, duas, três, quatro malas e seguiram pro desconhecido. Muitas delas não têm ninguém à espera do outro lado, na Polónia. Outras têm familiares que tentam ir agora pra zona da fronteira para os acolher. E vão completamente desprendidos, sem nada, a não ser as lágrimas que muitos trazem quando falam sobre isso. Não levam quase bens materiais nenhuns consigo, não levam nada apalavrado, não levam sequer a certeza do sítio onde vão dormir no dia a seguir. Sabem que o governo polaco está a preparar apoio, mas não sabem se vão ter esse apoio. Temos agora em direto ao telefone Tatiana Datschuk, ucraniana vivia em Kiev até ontem.

Muitos amigos meus ainda estão a tentar sair daqui porque é muito perigo. Hoje à noite outra vez deitaram bombas russas militares. É muito perigoso.

Há algum tipo de apoio humanitário montado, há algum tipo de apoio para essa evacuação?

Sim, tenho estado em contacto com pessoas que estão tanto na Polónia como na Roménia, ambos os países fazem fronteira, que me disseram que tem havido muito apoio de forma quase orgânica. As pessoas que moram nas regiões de fronteira têm-se mobilizado para acolher refugiados em suas casas, para lhes dar comida quente e portanto tem havido essa capacidade de resposta de reação ao nível quase da sociedade civil. O governo polaco está neste momento a preparar centros de recepção para receber pessoas com condições, mas de facto a quantidade de gente que continua a chegar à fronteira faz-me questionar se essa capacidade estará toda montada a tempo de poder dar auxílio a tanta gente que chega ao outro lado da fronteira sem ter sitio onde dormir, sem ter o que comer, sem saber o que vai fazer no dia a seguir. E estamos a falar muitas vezes de mulheres e crianças e nada mais. Os idosos geralmente ficam para trás e os homens também.

Como é que se vive numa situação dessas? Como é a vida aí em Lviv? Como é que está a ser o dia a dia?

Há uma dissonância cognitiva tremenda, porque a vida parece normal à primeira vista. Tudo está aberto, tudo funciona. Há pessoas nas lojas, nos cafés, nos restaurantes, os transportes públicos estão a funcionar, aparentemente sem perturbações. Mas por outro lado vemos, por exemplo, um pequeno sinal que mostra que nem tudo está normal, são as filas para os multibancos, que são enormes. E a isso soma-se outro fato que é a quantidade de pessoas com malas, famílias inteiras com malas, que se vê na rua. Quando nos aproximamos, por exemplo, da estação central de comboios de Lviv, onde nós estivemos, aí é um aparato então impressionante, porque temos soldados que vão para a frente de batalha misturados com famílias que estão a fugir. As pessoas trazem animais de estimação, hoje vi gaiolas, vi cães, trazem peluches pros filhos, trazem todas as marcas de bens materiais que possam ser de alguma forma sentimentais, que os recordem de casa. E toda esta quantidade de gente coincide com a vida em Lviv, que ao mesmo tempo parece normal, em que nada está fechado, em que tudo decorre com normalidade. Agora, temos um confinamento obrigatório, o que significa que a partir das dez da noite ninguém poderá estar na rua e Portanto, veremos uma Lviv um pouco diferente, sobretudo porque se está na antecipação de que possa haver ataques esta noite, tendo em conta que a noite passada foi uma noite marcada pelo barulho das sirenes.

Perante o barulho das siremes, o que é que fazem?

Perante o barulho das sirenes, a ordem é para as pessoas tentarem ir para as caves ou para os abrigos das casas e dos locais onde estão. Claro que nem todos os sitios têm esses abrigos e, portanto, as pessoas não saem de casa. No fundo, é essa a prática. Se puderem, tentarem se esconder num sitio o mais recatado possível. Por exemplo, aqui o nosso hotel, quando chegámos, tinha todas as luzes apagadas, quando se olhava de fora parecia local abandonado. Não parecia minimamente um hotel em funcionamento. Depois durante o dia volta aqui um pouco à vida. Parece-me que é sempre uma ideia de que a noite é a altura mais perigosa, porque foi à noite que começou a invasão de Donbass e foi à noite que começou a invasão de Kiev. Поэтому се durante о dia Lviv, por enquanto, parece uma cidade normal, embora com ritmo de chegada de refugiados incrível, durante a noite é uma cidade com medo, fechada sobre si própria, em que ninguém sai à rua, em que se apagam as luzes e em que se espera pra ouvir se abre uma sirene.

Se ficarmos na União Europeia e ficarmos na NATO, é outra coisa. Ninguém vai fazer guerra aqui. Cuando ele quer ser rei de todo mundo, este velho doente, isso passou.

Temos ouvido queixas, tanto de dirigentes ucranianos como de alguns relatos que nos vão chegando, de que os ucranianos se sentem abandonados pela comunidade internacional. Isso transpareceu nas conversas que foste mantendo aí em Lviv com os ucranianos?

Sim, na primeira abordagem não porque as pessoas ao falarem com jornalistas ocidentais têm um certo pudor inicialmente em falar sobre isso, mas ao longo do decorrer da conversa a situação política acaba por surgir e de facto a maioria das pessoas com quem falamos sente-se verdadeiramente abandonada. É essa a expressão. As pessoas dizem: "Nós avisámos que a Rússia de Putin era perigosa, nós dissemos que eles poderiam fazer alguma coisa, estamos a dizer isso há muitos anos, é por isso que queremos aderir à NATO. Temos uma guerra no nosso território há anos, já sabíamos que eles são capazes disso e não nos foi dado qualquer apoio nesse sentido." Houve pessoas hoje que me invocaram o fato de a Ucrânia ter aceitado abdicar das suas armas nucleares em 1994 tendo obtido em troca garantias de segurança. E há uma ideia de "nós fizemos tudo o que a comunidade internacional nos pediu". Muita gente que diz: "Nós sentimo-nos europeus, nós somos europeus e vocês não fizeram nada por nós e estão-nos a deixar morrer aqui.".

Obrigado Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

Este foi um episódio extra da História do Dia. A Cátia Bruno, jornalista especialista em Internacional e o editor de fotografia João Porfírio estão na Ucrânia. São os nossos enviados especiais. Pode encontrar os textos e as fotografias em observador.pt e os relatos em direto na Rádio Observador. Vamos continuar a acompanhar ao minuto a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A música do genérico e a sonoplastia são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.