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Já temos então conosco o Pedro Lino. Bom dia, Pedro. Vamos então olhar para a poupança dos portugueses a propósito do Dia Mundial da Poupança, celebrado amanhã. Os portugueses sabem poupar, mas saberão investir? Bom dia, Pedro Lino.
Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, amanhã é o Dia Mundial da Poupança. Será que os portugueses são bons aforradores? Eu acho que as pessoas reconhecem a importância de poupar, mas ainda temos um grande desafio na forma como gerimos essas poupanças. Durante décadas, nós habituamo-nos a privilegiar os depósitos bancários e os produtos de capital garantido, seja PPR de capital garantido, seja produtos onde os portugueses não percam capital. Por um lado, poupar é fundamental, e os portugueses privilegiam a segurança financeira, mas, por outro, temos que nos perguntar se o dinheiro estando parado, porque basicamente depósitos a prazo e produtos de capital garantido é deixar o dinheiro parado, se não significa perdermos o valor do dinheiro ao longo dos anos. Por quê? Porque a inflação vai reduzindo o poder de compra. Por isso, o grande desafio já não é só incentivar os portugueses a poupar, é ensinar a investir.
Certo, mas muitas das pessoas perguntarão: se uma pessoa tem 10 mil euros, por exemplo, no banco, passado alguns anos, dois, três anos, continua a ter os 10 mil euros. Então onde é que está aqui o problema?
Paulo, o problema é mesmo esse, é que as pessoas veem o mesmo valor, então pensam que o capital está garantido. O problema está no poder de compra. Imagina, por exemplo, que 10 mil euros numa conta sem remuneração, ou seja, em depósitos à ordem, que é perfeitamente natural, e que tens uma inflação de 3% ao ano. Ao fim de 10 anos, os 10 mil euros, como referiste, continuam lá no banco, ou seja, eu não perdi os 10 mil euros. Mas esse dinheiro hoje permite-nos comprar apenas 7.400 €. Por quê? Porque a inflação de 3% ao longo de 10 anos corresponde a uma erosão do poder de compra de 26%. Ou seja, isto é um imposto e uma perda silenciosa que não aparece no extrato bancário. As pessoas não veem, por isso acham que continuam com o mesmo dinheiro, mas o problema é que não investir também envolve este risco, que é comprarmos cada vez menos coisas.
Claro. Vamos aqui também ao início. Sabemos que o orçamento de muitas famílias é apertado. Para quem tem dificuldade, de facto, em chegar ao fim do mês com o dinheiro disponível, por onde é que se deve começar?
Sim, essa é uma realidade. A taxa de poupança que as famílias conseguem poupar não é muito elevada, mas o primeiro hábito é criar esse hábito de poupança, nem que seja por um montante pequeno. Uma boa estratégia, por exemplo, é reservar uma parte do rendimento logo no início do mês ou no fim do mês, quando se recebe o salário, e esperar para ver quanto é que sobra no final. Porque o que os portugueses fazem? Os portugueses recebem o salário, gastam e depois o que sobra é que investem. E o problema, Paulo, é que na maior parte das vezes não sobra nada. Por isso, temos que fazer o exercício ao contrário. Por exemplo, recebe-se o salário, é retirar 20, 30 ou 50 € por mês e começar a investir com regularidade. Isso é que é muito importante. Por isso, antes de começar a investir, também as pessoas devem ter algum fundo de emergência, idealmente o suficiente para ter três a seis meses de despesas essenciais. Para quê? Para que não tenham necessidade de depois retirar ou levantar investimentos em alturas menos boas. Mas eu diria que hoje em dia o maior impedimento ao investimento é mesmo a inércia, porque, Paulo, com 20 € por mês ou até soluções, às vezes, a partir de 10 € por mês, é possível. O que as pessoas às vezes lhes custa é abrir uma conta numa gestora, uma conta no banco ou aderir a estes produtos que a partir de 10, 15 € por mês, lhes permitem, ao fim de 30 anos, provavelmente ter já um pé.
Depois de constituído esse fundo de emergência, essa reserva de emergência de que falaste, o que se deve fazer em relação às restantes poupanças, que caminho deve ser dado?
Nós devemos começar por definir para que estamos a poupar. Estabelecer objetivos é muito importante, porque temos que perceber se vamos precisar do nosso dinheiro dentro de um ano, por exemplo, para comprar um carro, e nesse caso, temos que privilegiar a segurança e liquidez, porque é um investimento de curto prazo, ou se estamos a poupar, por exemplo, pra reforma, pros estudos dos filhos, pra um objetivo de 10, 20 ou mais anos. E nesse caso, devemos considerar investimentos com maior potencial de rentabilidade, como fundos diversificados com exposição a ações e a obrigações, que são títulos de dívida. E aqui entra uma das regras fundamentais das finanças: quanto maior o horizonte temporal, ou seja, quanto mais tempo eu não precisar do dinheiro, maior poderá ser a capacidade pra suportar as oscilações de mercados, porque nós vemos muitas vezes alguns anúncios, seja do senhor Trump, seja de outros dirigentes políticos, que fazem algumas oscilações nos mercados. Por isso, se o meu horizonte for de longo prazo, tranquilo. Por isso, o importante é não tratar todas as poupanças da mesma maneira, porque nós temos objetivos diferentes pra elas.
Pedro, há outra ideia que muitas pessoas têm, que é a ideia de que só vale a pena investir, só vale a pena as pessoas preocuparem-se com isso, se tiverem muito dinheiro, se houver aqui uma quantia já assinalável. Isso é verdade ou não?
É um mito, mas não é nada verdade. Na realidade, o tempo é o ativo mais precioso e mais importante do que o montante inicial. Vamos imaginar, por exemplo, alguém que investe 100 € por mês durante 30 anos. No total, colocou 36 mil euros, 1.200 € por ano. Se conseguir uma rentabilidade média de 5% com capitalização Então pode acumular €83.000, Paulo. Ou seja, os 36 mil transformam-se em 83 mil. Mais de metade do valor final que eu tenho resulta do crescimento do investimento e não de estar a pôr lá mais dinheiro. Por isso, naturalmente, estas rentabilidades não são garantidas, mas neste exemplo de 5% demonstra o poder de capitalização. Ou seja, o segredo não é investir muito, é começar cedo e quanto mais cedo melhor. E eu normalmente defendo que quando temos um filho ou quando nasce alguém, é constituir logo uma conta poupança de capitalização em produtos que capitalizem, seja PPRs, ETFs, fundos de investimento que valorizem ao longo do tempo.
Para pôr o tempo a trabalhar para esse dinheiro. Pedro, vamos aqui olhar para erros mais frequentes. Quais são os erros mais comuns que encontramos quando olhamos para a forma como os portugueses fazem a gestão das suas poupanças?
Paulo, eu destacaria três. O primeiro é adiar. Muitas pessoas dizem que vão começar a poupar e quando ganharem mais dinheiro, depois é para amanhã, depois é no próximo mês e acabam por nunca começar. E o problema é que o tempo vai passando e as bolsas vão subindo. O segundo é manter todas as poupanças em depósitos durante décadas, sem ter em conta o impacto da inflação. Nós vemos em Portugal, entre empresas e famílias, há 280 mil milhões de euros, 100% do PIB em depósitos à ordem e depósitos a prazo. É dinheiro que não produz nada para as pessoas. E o terceiro é investir sem diversificar. Vejo pessoas concentradas ou numa empresa, ou num único setor, ou num investimento que nem sequer compreendem. Por isso, hoje até temos a Bitcoin a cair 10%. As pessoas muitas vezes investem sem perceber a volatilidade do que está a acontecer e principalmente querem ficar todas milionárias amanhã. Não é possível, isto é um investimento de longo prazo. Por isso, cuidado com promessas de rentabilidades muito elevadas e garantidas. Isto não existe.
Muito bem, Pedro. Para terminar, uma mensagem final olhando para o Dia Mundial de Poupança que se assinala amanhã.
Sim, para este dia gostava só de deixar três ideias muito simples. Primeiro, devemos poupar todos os meses, nem que seja quantias pequenas, 10, 15 € e investi-los. A disciplina é muito mais importante do que o montante inicial. Segundo, devemos ter uma reserva financeira para imprevistos, porque a segurança começa pela capacidade de enfrentar situações inesperadas. Algo que acontece e temos aquele dinheiro de lado sem mexer nos investimentos de longo prazo. E por último, uma terceira é que devemos investir as poupanças de longo prazo de uma forma diversificada, adequada ao nosso perfil de risco, mas se é de longo prazo, mais exposto às ações, de forma a beneficiarmos do efeito de capitalização. E por isso terminaria com uma ideia: poupar é guardar dinheiro para o futuro. Investir é procurar que esse dinheiro tenha mais valor quando esse futuro chegar. E é isso que temos que nos precaver.
Muito bem, Pedro, ficam aqui essas três ideias base, a propósito do Dia Mundial da Poupança, que se realiza amanhã. Pedro, bom dia, bom fim de semana e até para a semana.
Obrigado, bom dia a todos e bom fim de semana.