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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Os três desafios do novo presidente.

Juro, por minha honra, desempenhar fielmente as funções em que fico investido

É exatamente isto que os novos presidentes dizem logo de manhã, na cerimónia de tomada de posse. Perante uma plateia de deputados e convidados que ouvem estas palavras de pé, o Presidente da República jura cumprir e fazer cumprir a Constituição. Depois, houve sino e 21 tiros de artilharia naval. Tudo como um guião ensaiado e cumprido à risca. O que está a ouvir aconteceu na primeira tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, mas é exatamente o mesmo na tomada de posse de António José Seguro. Mas depois começam as diferenças. Eu já estou a ver. No caso de Marcelo, começaram até antes, neste momento em que o presidente decidiu furar o protocolo e chegar a pé à Assembleia da República. A imagem era a de alguma desorientação de um país cerimonial que não estaria bem preparado para isto, mas deu o mote àquilo que seria a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. A partir desta manhã, António José Seguro passa a ser o sexto presidente da República eleito em democracia. E queremos saber, para lá do guião, o que vai ser este novo presidente, que prioridades definiu para o mandato e já agora, que desafios tem pela frente a partir de hoje. Vou conversar sobre isto com a jornalista de política do Observador, a Mariana Lima Cunha. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 9 de março. Olá, Mariana.

Olá, Pedro.

Nas cerimónias de tomada de posse dos presidentes, há sempre um guião que é escrupulosamente cumprido, porque faz parte da tradição, mas os presidentes acabam sempre por introduzir alguns elementos mais distintivos, mais pessoais. Eu falava há pouco da forma como Marcelo Rebelo de Sousa, em 2016, aparece a pé na Assembleia da República, o que deixou toda a gente um pouco desorientada.

Eu lá esta semana até ia dizer que foi nesse passeio a pé que definiu um bocado o que é que ia ser na presidência. Foi um daqueles momentinhos que pensou e disse: "Aos 100 e tal anos era falso mudar a minha maneira de ser". Portanto, sim, é um dia que pode ser muito importante para um presidente.

Acompanhado por jornalistas por todo lado. Eu lembro-me que eu estava lá nessa tomada de posse e sabermos que ele estava a vir a pé, o que por um lado surpreendia, por outro lado não, porque batia certo também com a campanha que ele tinha feito e que foi toda muito diferente das outras. António José Seguro é um modelo um bocadinho diferente. Não se está à espera que ele venha fazer passeatas a pé até à cerimónia de tomada de posse.

Ao Multibanco.

Exatamente. Mas o que é que esta tomada de posse vai ter de diferente que nos diga qualquer coisa sobre o estilo de presidente que Seguro vai ser?

Esta tomada de posse é interessante porque tem uma série de elementos diferentes. Para já, isto não é uma ação diferente, mas simbolicamente há aqui uma alteração que é, já sabemos que António José Seguro vai entrar em Belém, no Palácio de Belém, com a mulher e com os filhos, o que é uma diferença em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, que quis sempre manter a vida familiar e pessoal mais separada da vida em Belém. Depois, como tu dizias, vai ter a posse formal, mas vai ter também uma série de elementos que mostram algumas prioridades. Vamos ver se depois consegue priorizá-las enquanto a vida e a atualidade acontecem em Belém. Há uma que é muito evidente, que é a vontade de mostrar que o interior conta. Às vezes há o chavão sobre o interior, o território desertificado, etc., mas eu acho que tem mais a ver com a coesão do país e com não haver pessoas que se sintam esquecidas ou deixadas para trás. Eu acho que no nosso contexto político isso é ainda mais importante e António José Seguro vai fazer isso, não deixando a posse acontecer só em Lisboa. Se se ficasse pelas cerimónias oficiosas, era isso que aconteceria.

Para além de Lisboa e do Porto.

Exatamente.

Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, também esteve no Porto quando foi a tomada de posse.

Sim, António José Seguro vai ter também um concerto musical no Porto, mas além disso, vai passar pela aldeia de Mourísia, que é no concelho de Arganil. É uma aldeia que esteve cercada por chamas em 2025, nos fogos do ano passado, que foram fogos com muita área ardida em Portugal e com bastante impacto. Mesmo sem haver vidas perdidas, houve muita gente que falou da sensação de estar esquecido o seu território, das posses de uma vida inteira estarem esquecidas e portanto, ele quer dar esse sinal, tal como tem tentado estar muito presente na questão das tempestades, por exemplo. E vai estar também em Guimarães, portanto, distrito de Braga, e foi explicando estas prioridades, dizendo que as pessoas do interior merecem tanta dignidade como as pessoas do litoral e portanto quer estar junto de todas. E depois tem também outra diferença, que é vai ter um encontro com os jovens, com alunos do ISCSP, que é a instituição onde dá aulas, onde tem dado aulas até agora. Quer mostrar o diálogo com a juventude, que seja uma coisa na prática, porque eu falava do chavão do interior e eu acho que outro chavão que é sempre muito utilizado na política é o dos jovens, não é? Que é: temos de ouvir os jovens.

O problema destas iniciativas, se é que é um problema, é que elas são simbólicas, e isso é bom para percebermos quais é que são as prioridades, mas eu lembro-me que quando Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse, penso que nas duas vezes em que ele tomou posse como presidente, uma das coisas que fez no dia da tomada de posse foi uma cerimónia de diálogo inter-religioso com várias confissões religiosas ou todas as confissões religiosas juntas numa mesma sala. E isso era uma coisa simbólica, mas na verdade não tenho ideia de que o diálogo inter-religioso em Portugal tenha piorado ou melhorado.

Sim, arriscaria dizer que nenhum de nós consegue fazer um balanço agora sobre as alterações no diálogo inter-religioso por influência de Marcelo.

Exatamente. Da mesma forma, por exemplo, os sem-abrigo. Era uma bandeira de Marcelo Rebelo de Sousa.

Nos cuidadores até houve alguns avanços, mas eu diria que também é muito por ação do Parlamento, com o Estatuto do Cuidador Informal e nos sem-abrigo, que foi uma causa que Marcelo abraçou e que disse várias vezes que era uma coisa que tinha mesmo de mudar até ao fim dos seus mandatos. Como eu dizia, a atualidade e depois a vida vão passando e o Presidente da República, não tendo uma função executiva, ou tem uma grande capacidade de influência junto do poder executivo, ou acaba por ver estas causas um bocadinho deixadas para trás. Vamos ver se António José Seguro é muito eficaz ou não.

É isso. No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, nos sem-abrigo, ele próprio acabou por reconhecer que tinha falhado nos objetivos que tinha proposto. António José Seguro tem a causa do interior, tem os jovens.

Que se cruzam também, aliás, ambas com as alterações climáticas, é outra questão para a qual ele quer alertar e acha que as gerações mais novas estão mais preocupadas com o tema, portanto acho que também é um tema que vai Que vai discutir com eles.

Três bandeiras do novo presidente António José Seguro. Mariana, daqui a pouco, quando regressarmos à conversa, vou te perguntar por três desafios que o presidente Seguro vai ter de enfrentar agora que tomou posse. Estamos de regresso à conversa com a jornalista de política do Observador, a Mariana Lima Cunha. Mariana, o que achas que são as três prioridades imediatas ou os três desafios que António José Seguro, enquanto presidente da República, vai ter de lidar ou resolver?

Eu distinguiria, para já, o primeiro grande problema, desafio, que lhe quisermos chamar, é o de assegurar a estabilidade. Nós vimos de tempos políticos muito complicados, em modo turbo. Nós jornalistas sentimos muito isso com a quantidade de eleições que tivemos de acompanhar nos últimos anos. E aí eu acho que é um interesse em comum que une Luís Montenegro e António José Seguro. Eles são dois homens do centro do sistema puro, mesmo que António José Seguro se tenha afastado um bocadinho do alegado sistema durante a campanha, mas na verdade é um homem da política e dos partidos, do PS há muito tempo. E acho que se há coisa que os une é, por um lado, assegurar essa estabilidade, obviamente com um fim, que é conseguirem fazer algumas reformas e algumas mudanças efetivas no país e mostrar que o sistema funciona. Eu acho que aí, sendo os dois institucionalistas, interessa aos dois um bocadinho trabalhar para o mesmo fim. Aqui há vários desafios que António José Seguro tem pela frente. Desde logo, tem alguns que Marcelo Rebelo de Sousa não conseguiu superar. Se o objetivo era também, assumimos nós, manter alguma estabilidade no país. Um deles foi Marcelo Rebelo de Sousa decidiu dissolver a Assembleia da República quando o PS não se entendeu com a esquerda para aprovar o orçamento do Estado para 2022. António José Seguro já disse que isso não é uma razão para dissolver a Assembleia da República, portanto vai insistir, vai pedir novos orçamentos até que os partidos se entendam. E aí eu acho que é um ponto em que a influência do Presidente da República se pode fazer notar ou, pelo contrário, a sua ausência é muito relevante. Marcelo Rebelo de Sousa também dissolveu a Assembleia da República quando António Costa saiu no contexto da operação Influencer. António José Seguro também diz que não é um dado adquirido para ele que por o primeiro-ministro sair tenha de se dissolver a assembleia e convocar eleições. Portanto, logo aí tenta ser um bocado anti Marcelo nestas coisas. E depois, eu diria que há outro ponto interessante na questão da estabilidade, que é: nós aqui estamos a falar de questões que a oposição pode levantar, o orçamento, crises parlamentares. Mas depois há outra crise que pode surgir, que é interna na AD, e já algumas pessoas na AD começam a mostrar essa preocupação relativamente às declarações de Pedro Passos Coelho, que têm sido muito duras em relação ao governo e Luís Montenegro.

Uma estabilidade dentro da própria coligação.

Exatamente, da maioria do governo, porque se começam a ver brechas num governo que de facto não tem uma maioria muito sólida. E essas vozes de insatisfação, que nós já ouvíamos quando falávamos com pessoas do PSD, críticas de Luís Montenegro governa à costa, não faz grandes reformas, etc. É muito diferente quando temos uma pessoa com a influência de Pedro Passos Coelho a assumi-las todas de viva voz. E portanto diria que neste ponto da estabilidade, Pedro Passos Coelho pode ser também um agitador e complicar a vida tanto a Montenegro como a Seguro, que quer assegurar essa estabilidade. E há de se falar de um segundo desafio que tem muito a ver com este, que é a tal questão de estabilidade para quê? Para fazer reformas, para mudar alguma coisa no país. António José Seguro tem dito sempre que quer estabilidade, quer três anos e meio, digo eu, vou fazer figas, vou rezar pela nossa sanidade mental, mas estes três anos e meio para fazer reformas de facto, ou seja, para que não fique tudo na mesma. Mas aí há vários pontos por resolver. Temos, por exemplo, a questão laboral, em que António José Seguro estava em desacordo com o governo na sua proposta inicial e o governo já disse que vai tentar polir e agradar um bocadinho o presidente da República novo. Temos a questão da saúde, que António José Seguro assumiu como prioridade do primeiro ano e aparentemente o governo também estará a tentar caminhar um bocadinho mais ao encontro de António José Seguro, recuperar a reforma que era de Maria de Belém, conhecida também como segurista, e portanto alinharem-se um bocadinho aqui numa série de reformas que podem ser importantes quanto prestarem contas. Eu acho que não vai ser só o governo a prestar contas, vai ser também António José Seguro, na capacidade que teve de ser um fiscalizador e de ser vigilante em relação ao governo.

E incentivador. E do ponto de vista internacional, o que te parece que é o grande desafio?

António José Seguro chega num momento muito delicado. Às guerras que já existiam, soma-se agora uma terceira. Nós ainda não ouvimos o novo presidente pronunciar-se, porque ele tem estado calado e agido o seu silêncio para não atrapalhar Marcelo Rebelo de Sousa na reta final. Mas já o ouvimos falar, por exemplo, de Donald Trump. Seguro foi muito crítico sobre a intervenção dos Estados Unidos quando retiraram Nicolás Maduro e capturaram Maduro da Venezuela. E na altura, o que ele fez questão de distinguir é que os Estados Unidos de Trump são uma coisa, os Estados Unidos e a relação especial histórica que Portugal tem com os Estados Unidos é outra. E, portanto, não é propriamente prever que António José Seguro queira grandes ruturas. Eu lia no Expresso um texto em que Carlos Coelho, que é social-democrata, mas grande amigo de António José Seguro e que foi eurodeputado, dizia: "Não se espere aqui um Pedro Sánchez, não é?" Não vai começar a agitar a nossa política externa, pode fazer alguns avisos sobre Trump e sobre algumas ações mais impulsivas do presidente dos Estados Unidos, mas que não será essa a comparação. Mas de facto, António José Seguro quer, sobretudo, uma política mais europeia, mais concentrada na autonomia e na defesa europeia, para também Portugal não ficar tão dependente nestas alturas de crise do que, por exemplo, os Estados Unidos fazem.

Mariana, obrigado.

Obrigada.

A Mariana Lima Cunha escreveu no Observador sobre os trabalhos que esperam o novo presidente. As cerimónias para assinalar a tomada de posse vão durar dois dias. Para além da habitual deposição de coroa de flores junto ao túmulo de Camões, no Mosteiro dos Jerónimos, e da receção à noite no Palácio da Ajuda, o presidente cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, vai ser condecorado pelo novo presidente, tal como também manda a tradição. Essa cerimónia está marcada para às 18h. Depois, os jardins do Palácio de Belém vão ser abertos à população e António José Seguro também tem agenda às 16h30, um encontro com jovens numa universidade em Lisboa para dar um sinal simbólico daquilo que são as prioridades. Esta foi a história do dia, a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.