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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O regresso das greves e das manifestações. O verão vai ser quente?
O PCP valoriza o significado e a dimensão das lutas que se desenvolveram nos últimos meses, dos trabalhadores e das populações, e apela a uma ampla participação nas lutas em curso e programadas.
A 2 de fevereiro, Jerónimo de Sousa resumia as conclusões da reunião do Comitê Central do PCP, que analisou as eleições de 30 de janeiro. Perante o resultado, estava dado o mote. Depois do fim da geringonça, a luta regressa às ruas.
Os trabalhadores e o povo podem contar com o PCP, a sua intervenção decisiva na defesa e afirmação dos seus direitos e para o combate aos projetos reacionários e antidemocráticos. Hoje, como sempre, é no PCP que se encontrará essa força de todos os dias para os combates e a luta dos trabalhadores e do povo, em defesa dos seus interesses e das suas aspirações.
O Bloco de Esquerda perdeu 14 deputados nas eleições de janeiro. Ficou com cinco. A CDU perdeu seis, incluindo o deputado dos Verdes, e passou de 12 para seis parlamentares. Com a maioria absoluta, o governo socialista deixou de lado os velhos parceiros da geringonça. A jornalista Mariana Lima Cunha, do Observador, falou com diversas fontes, entre comunistas e bloquistas, para fazer a pergunta: e agora? Bem-vinda, Mariana.
Olá, Ricardo.
Vamos recuar à noite das eleições de janeiro. Os resultados foram particularmente duros para o PCP e para o Bloco de Esquerda, mas as lideranças mantêm-se inabaláveis.
É verdade. Os partidos à esquerda do PS costumam dizer, até como forma de crítica, de ironia e de extensão em relação aos outros partidos, que para eles as lideranças não são definidas por resultados eleitorais que sejam melhores ou piores, porque são do coletivo, não são só de uma pessoa, e portanto, todo o partido é responsabilizado pela estratégia que escolheu. E por isso mesmo, Jerónimo de Sousa, apesar das quedas constantes do PCP nos últimos anos, tem dito que se a saúde lhe permitir, até nos disse aqui numa entrevista ao Observador, fique até o fim do mandato, que é em 2024.
A questão, de fato, não está colocada. Haja saúde e vamos até o fim.
E a Catarina Martins também parece segura até à próxima convenção do Bloco de Esquerda, que é no ano que vem.
No arranque deste episódio, ouvimos Jerónimo de Sousa lançar o aviso do regresso às ruas. Este é um aviso que encontra eco nas páginas do jornal Avante, que tens folheado, Mariana Lima Cunha.
Sim, é um hábito meu, às quintas-feiras, ler sempre o jornal do Avante. E no Avante tem sido muito frequentes as notícias, aliás, o Avante tem uma seção só sobre trabalhadores, e têm sido muito frequentes as notícias sobre paralisações, sobre protestos, o apelo à massa dos trabalhadores e agora com as greves recentes que têm havido. Isso é sempre uma nota que o jornal dá. Eu diria que há duas edições apareceu um artigo particularmente interessante, assinado pelo dirigente da Comissão Política do Comitê Central, que é o João Frazão, em que ele fazia muito concretamente esse apelo e explicava por que isso é importante, explicava que a história do PCP mostra que a ligação às massas, ele falava da energia criadora das massas, é a solução para o partido se fortalecer em momentos de dificuldades, e este é um momento de dificuldade assumido pelo PCP. E a juntar a isto, temos um momento de dificuldade geral, que é de inflação e perda de poder de compra, e portanto ele incitava o partido a apelar a essa luta das massas e a ir buscar até novos quadros e novos dirigentes à rua, às empresas e junto dos trabalhadores.
E o PCP, para falar nisso, admite que esteve menos reivindicativo durante os anos da geringonça?
Eu não diria que se assume frontalmente menos reivindicativo, mas há aqui algumas nuances. Herménio Carlos, que era dirigente sindical da CGTP, com quem nós falamos para este trabalho, na altura da geringonça, dizia que, por um lado, havia menos projeção do trabalho dos sindicatos, porque havia menos manifestações nacionais. Portanto, por aí é verdade que havia menos esse plano de trabalho. Por outro, em termos de devolução de rendimentos, como ele também dizia, não se vai protestar contra o que se reivindicou. E de fato, foi uma legislatura em que, em termos de devolução de rendimentos e alguns direitos que tinham sido retirados na altura da Troika, é verdade que o panorama mudou, por isso essa assunção acaba por existir. Há aí uma nuance. Há quem diga no PCP que o tipo de protesto é que era diferente, porque antes ele existia no sentido de dar ímpeto ao governo, de pressionar para soluções que acabavam, se calhar, não com toda a abrangência que os sindicatos queriam por aparecer, mas agora voltamos, no fundo, ao que é o protesto puro, sem interlocutores e sem negociações paralelas.
Àquele protesto na rua. E já vamos falar do Bloco de Esquerda. Antes temos que falar de algo que o PCP tem e o Bloco não tem.
Não aceitamos que o patronato e o governo usem a patranha de que os aumentos dos salários provocam uma espiral da inflação
Sim, o PCP, para já, conta com a Isabel Camarinha, que acabámos de ouvir, que é do partido e é a líder atual da CGTP, e conta com essa influência junto dos sindicatos e, sobretudo, da CGTP. Os líderes, tal como a Isabel Camarinha, têm sido do PCP ou até dirigentes do PCP. E os comunistas acabam por olhar até com algum desdém, sentou-se nas conversas que tivemos para este trabalho, para a participação do Bloco nesses movimentos. Havia uma fonte que nos dizia: "O PCP é uma ferramenta para a luta dos trabalhadores. O Bloco usa a luta dos trabalhadores como ferramenta para se mostrar ou alinhar em ondas midiáticas quando estes movimentos estão a ter atenção". Mesmo assim, tanto do lado do PCP como da CGTP, há um reconhecimento de que está a haver dificuldades na mobilização, no recrutamento de pessoas, sobretudo nas empresas, para o movimento sindical, porque se queixa de não conseguir entrar, não conseguir falar com os trabalhadores, muito menos com as direções das empresas e, portanto, apesar de ter essa influência, é reconhecido que há alguma dificuldade, alguma perda de influência dos sindicatos tradicionais, às vezes até para movimentos inorgânicos.
O discurso da prudência e da prioridade ao déficit está de volta em todo o estilo. E o PS aproveita a inflação para, na prática, desfazer a tímida recuperação dos salários mais baixos que teve de aceitar durante a geringonça.
Mariana Lima Cunha, vamos então olhar para o Bloco de Esquerda. Qual vai ser a resposta do Bloco?
O Bloco também tem influência nos sindicatos, mas o seu peso é menor. Mas também acredita que no contexto atual de maioria absoluta, de menos influência em termos negociais, do aumento da inflação e, sobretudo, dessa inflação querer dizer que as pessoas sentem esses cortes na prática nos bolsos, a esquerda acaba por ter aqui um caminho a trilhar e um discurso para fazer. A esquerda temia ter sido muito absorvida pela maioria absoluta do PS e ter perdido o discurso até dos tempos da geringonça. Agora acha que o recupera, recupera essa oportunidade. O Bloco está muito focado nisso, acha que na rua pode dar gás a esse discurso. Um dos desafios que tem e que admite é não deixar esse potencial descontentamento cair nas mãos da direita do Chega, por exemplo, ou dos tais movimentos inorgânicos.
Porque esse é um problema real, não é?
Sim, e a esquerda assume perfeitamente. Aliás, há quem diga que até aponta culpa ao PS, dizendo: "Se não nos respondem às reivindicações, alguém vai acabar por-"
Alguém vai ocupar esse espaço.
Exatamente, pegar nesse descontentamento para si e fazer dele bandeira.
Ou seja, a luta vai continuar nas ruas e com marcação cerrada.
Essa é a ideia. Se virmos o Avante, se tivermos atenção aos avisos da CGTP, fica clara essa intenção. Arménio Carlos, por exemplo, dizia-nos que estamos a viver agora, lá está, no contexto de inflação e de não haver, por exemplo, aumentos ajustados à inflação que permitam contraditar isso, aumentos de pensões também, é o maior ataque ao poder de compra dos trabalhadores e dos pensionistas desde o tempo da troika, o que é muito significativo. Foi no tempo da troika que houve, obviamente, o pico de manifestações e de greves. E essa marcação cerrada de que falávamos deve acontecer agora mais visivelmente nas ruas do que no período da geringonça, mas sobretudo nos locais de trabalho, onde admitem que têm essas dificuldades, mas dizem que é, no fundo, a base da rede que os sindicatos conseguem criar é mesmo lá, senão não conseguem encher as ruas.
Mas há forma de medir se, por exemplo, neste verão vamos ter mais greves do que há dois ou três anos, sendo que tivemos aqui um confinamento pelo meio e os protestos também diminuíram por essa razão?
A comparação é difícil precisamente por causa dessa questão da pandemia, mas há algumas tendências a registar. Até posso falar, por exemplo, do caso dos pré-avisos de greve, que não são exatamente a mesma coisa que manifestações no contexto da pandemia. Os que foram registrados na última década têm um pico claríssimo em 2013, o que é natural, na altura da troika, que depois cai no início da geringonça, muito claramente em 2016, penso para cerca de metade ou menos de metade, e começa progressivamente a crescer de novo, atingindo um novo pico em 2019, que é quando acaba a geringonça. Com a pandemia, isso cai, parece natural, mas volta a estar em crescendo agora. Portanto, só para explicar os números. Em 2016, tínhamos um mínimo de pré-avisos de greve de 488 nesse ano. No ano passado, já estávamos nos 872, que é quase o dobro. Em janeiro e fevereiro deste ano, que são os dados que temos até agora de 2022, foi quase o dobro dos mesmos que havia nos mesmos meses do ano passado, embora aí, obviamente, possa entrar o fator confinamento e, portanto, temos que ter cuidado na análise.
Sendo que um pré-aviso de greve não quer dizer greve, mas pelo menos fica feito o pré-aviso.
Mas é um indicador do descontentamento.
O PCP e o Bloco admitem que, de alguma forma, que esta é uma forma de sobreviver no plano político ou esta afirmação é um bocadinho exagerada?
Os partidos em si não admitem isto, até porque dizem que a luta sempre fez parte da sua identidade, que mesmo com grupos parlamentares maiores, até a maioria absoluta, neste caso dos a Sócrates, por exemplo, a faziam. Mas há um ponto que é referido até por uma fonte comunista que é relevante. O PCP, e aliás, isto até cola com o artigo do Avante que falávamos antes. O PCP sente-se mais, as palavras dele eram atacado e silenciado do que em muito tempo. Perguntei se era por causa da Ucrânia, mas juntou-se outros fatores como as posições do PCP em relação à pandemia e em relação ao último orçamento de Estado, em que o partido continua a dizer que foi incompreendido as razões que levaram ao chumbo. E portanto, isto, na verdade, acaba por ser exatamente uma tentativa de provar a sua força. O PCP tem muito esta tendência, e nós víamos isto, por exemplo, quando foi a organização da Festa do Avante em pandemia, de cerrar um bocadinho fileiras nestes momentos e de voltar um bocadinho à base. O Avante fala, aliás, que na longa noite do fascismo era para as massas que o partido tinha de se virar, que se ficasse sem dirigentes, pelo menos tinha sempre a massa de trabalhadores que continuaria a passar a mensagem e, portanto, seja um argumento mais real, seja uma forma retórica de apelar às bases, claramente há aqui uma tentativa do PCP provar que continua forte Apesar desses ataques que diz que sente.
E do lado do PS e do lado do governo, como é que tudo isto está a ser visto?
No PS existe a ideia precisamente de que essa prova de força vai existir, mas que não tem grande hipótese de sucesso. A Rita Tavares fez este trabalho comigo. Ouviu quem dissesse no PS que com o PCP fragilizado, precisamente por causa da questão da Ucrânia, portanto, o partido com algumas dificuldades junto à opinião pública, vai haver mais dificuldades de mobilização, a falar às empresas e ao que uma fonte chamava aos não convertidos do PCP, é mais difícil convertê-los agora. E por isso, eu diria que o PS até admite que há motivos de preocupação, a inflação claramente à cabeça, mas duvida é da capacidade do PCP para os agarrar e aproveitar. Aliás, quando falávamos da nossa conversa com Herménio Carlos, ele respondia a isto, ironizando e dizendo: "Bem, ainda bem que o PS se preocupa tanto com o estado do PCP, mas pelos vistos o PS prefere fragilizar a esquerda do que lutar contra a extrema-direita e dar-nos resposta, e assim a extrema-direita pode ficar com o que sobra deste descontentamento social."
Podemos esperar um verão quente, Mariana?
Parece que sim. Nós ouvimos de várias fontes que o que se está a passar agora e a anunciar agora pode ser ainda um aquecer de motores para uma convulsão social, que ainda por cima com o contexto económico europeu que temos, e que é incerto, ainda se pode vir a agigantar.
Obrigado, Mariana.
Obrigada, Ricardo.
Mariana Lima Cunha e Rita Tavares são jornalistas da secção de política. Assinam um especial no Observador sobre um expectável crescimento da contestação. Só nesta semana, de 16 de maio, já tivemos duas greves, uma na CP, e nesta quarta-feira, dia 18, há greve no metro de Lisboa. Isto para citar apenas dois exemplos. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.