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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que o Milton é diferente dos outros furacões?
"This could be the worst storm to hit Florida in over a century. And God willing, it won't be, but that's what it's looking like right now. If you're under evacuation orders, you should evacuate now, now, now. You should have already evacuated. It's a matter of life and death, and that's not hyperbole. It's a matter of life and death."
Seis milhões de pessoas vivem na rota do furacão Milton, que está a fazer disparar todos os alarmes nos Estados Unidos. Os moradores na baía de Tampa, no estado da Flórida, são os que correm maior risco. Joe Biden não poupou nas palavras quando pediu à população para abandonar as suas casas. É uma questão de vida ou de morte, sublinhou. Este furacão cresceu de categoria 1 para categoria 5 em menos de 24 horas. É já classificado como o furacão com a maior capacidade de destruição dos últimos 100 anos. E as simulações de inundações e da força do vento impressionam mesmo os meteorologistas mais experientes. Qual é a força do Milton? E o que podemos fazer perante estes fenômenos climáticos? Vou conversar com o climatologista Carlos da Câmara, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Eu sou a Teresa Bacis e esta é a história do dia de quarta-feira, 10 de outubro de 2024. Bem-vindo, Carlos da Câmara.
É com todo o gosto que eu mais uma vez estou aqui a falar pra Rádio Observador.
Professor, o que está em causa com o furacão Milton e por que ele é tão preocupante?
Ora, em primeiro lugar, o que está em causa é a perda de vidas e bens, porque, de facto, trata-se de um furacão com uma extensão e sobretudo uma intensidade, que é completamente fora daquilo que é o habitual. E, portanto, digamos que do ponto de vista do meteorologista, aquilo que o preocupa é tentar saber com a maior exatidão possível, qual vai ser o percurso que este furacão vai ter nas próximas horas, sobretudo, qual vai ser a área de primeiro impacto, porque é extremamente importante perceber, uma vez que há a possibilidade de ser na baía de Tampa, onde há uma densidade de população muito grande. Do ponto de vista do climatologista, é também fonte de preocupação, porque o climatologista preocupa-se mais ao olhar para estes fenômenos em contexto, quero eu dizer, comparando com fenômenos da mesma natureza ao longo dos anos e que têm afetado áreas semelhantes. E nesse contexto, é também preocupante, porque, conforme provavelmente iremos falar a seguir, este furacão sai completamente daquilo que seriam os parâmetros expectáveis, mesmo para fenômenos extremos.
Uhum! Vamos falar então primeiro do impacto que pode ter na vida das pessoas. Já ouvimos no início deste episódio o presidente norte-americano pedir às pessoas que estão na rota do furacão para abandonarem as suas casas. Estamos a falar de cerca de seis milhões de pessoas que podem ser afetadas. O que acontece quando este furacão chega à terra e que obriga a esta retirada massiva?
Ora bem, em primeiro lugar, é preciso não esquecer que esta área já foi afetada há relativamente pouco tempo pelo furacão Helene.
Exatamente, e morreram cerca de duas centenas de pessoas nessa altura.
Exatamente. E é preciso perceber que estão amontoados montes de destroços, estão objetos, tudo isto é preocupante. Mas depois ainda há outros aspectos. É que o Helene trouxe quantidades avultadíssimas de precipitação. Isso quer dizer que os solos vão estar certamente saturados, o que quer dizer que toda a precipitação que vier deste furacão irá certamente escoar-se e vai ser uma massa d'água tremenda. É preciso perceber que as precipitações que se anteveem serão da ordem de mais de 450 milímetros. 450 milímetros, digamos, pra cidadão comum, pode parecer muito pouco, mas o que eu quero dizer com 450 milímetros, quer dizer que são 450 litros por metro quadrado. Ou seja, é imaginar que num quadradinho de um metro por um metro, despeja quase 100 garrafões de água do lixo. 100 garrafões seriam 500 litros. Agora imagine o que é isto multiplicado por todos os quadradinhos de um metro por um metro. Portanto, vamos ter uma precipitação brutal. É preciso não esquecer que com o Helene foram quase 800 milímetros e, portanto, só o aspecto da água acumulada e da água a escoar-se vai certamente ser muito problemático. Agora, por outro lado, temos os ventos. Os ventos, tanto quanto se podem prever, irão a mais de 250 km/h. Portanto, eu nem sequer faço ideia do que isto possa ser. Há ainda a acrescentar que a pressão atmosférica vai baixar Cerca de 50 milibares. Ela baixou 50 milibares em 10 horas. Também pra o cidadão comum, isto pode não querer dizer nada, mas quem tiver um daqueles barômetros em casa que tem um ponteiro, verá que 50 é uma brutalidade. Normalmente, a pressão varia de poucos milibares, cinco, seis, 10. Aqui são 50, é algo também que é assustador. E por que isso é preocupante? Porque ao baixar a pressão, é tal e qual o mesmo que pôr uma seringa com a extremidade dentro d'água. Se puxar o êmbolo, o que vai acontecer é que a água sobe pela seringa acima. Por quê? Porque a pressão baixou e, portanto, se a pressão baixou, tem que haver uma compensação, que é a coluna d'água que vai equilibrar essa pressão baixa no interior da seringa, comparada com a pressão atmosférica. Agora, com o furacão é exatamente o mesmo. O furacão vai comportar-se como a seringa, em que vai decrescer a pressão muitíssimo. Então o que vai acontecer? Nessa região, a água vai subir e pode subir, de acordo com previsões, de 4,5 metros. Agora, se imaginar que estes 4,5 metros vão ser empurrados por ventos com centenas de quilômetros por hora e ainda vão ter ondas em cima, imagine o que não vai acontecer junto à costa em termos de destruição. Portanto, na realidade, temos aqui todo um conjunto de diferentes parâmetros meteorológicos.
Todos eles preocupantes.
Todos eles extremamente preocupantes. "Incredible, incredible, incredible hurricane. It has dropped 50 milibars in 10 hours. I apologize, this is just horrific."
Estamos, de facto, perante um fenômeno único. Nas redes sociais circula um vídeo de um meteorologista norte-americano, John Morales, que se emocionou ao descrever o furacão. Alguns especialistas falam numa nova categoria na escala de intensidade. Ela vai até cinco e este parece que vai rebentar esta escala.
É muito possível que rebente a escala. Oxalá isso não aconteça, mas tudo indica que sim. E isso não me espanta, porque ultimamente, nos últimos 20 anos, os fenômenos extremos têm se intensificado de tal forma que começa a haver necessidade de se encontrar novas classes. Por exemplo, naquilo que eu estou mais familiarizado, que é os incêndios de vegetação, portanto, os incêndios florestais e incêndios rurais. O que acontece é que na Europa já se teve que criar uma classe que se chama muito extrema ou anormalmente extrema, ou coisa parecida.
E que nós sentimos também em Portugal.
Exatamente. As ondas de calor também começa a acontecer que vamos ter que inventar novas escalas. Portanto, o que acontece é que fenômenos que dantes eram de tal maneira raros, que na prática não existiam, começam a tornar-se mais comuns e, portanto, vamos ter que acomodar as escalas antigas à nova fenomenologia, introduzindo novas classes de perigo.
Já voltamos à conversa com Carlos da Câmara, climatologista e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Na segunda parte, vamos olhar para o histórico de furacões na zona da Flórida e para o papel das alterações climáticas em tudo isto. Estamos de regresso à conversa com Carlos da Câmara, climatologista. É inevitável olharmos para este furacão e pensarmos em alterações climáticas. No caso dos furacões, a temperatura da água tem influência na intensidade do mesmo. Pode explicar por quê?
Não faz sentido nós dizermos que um determinado evento é devido a uma alteração climática. Exatamente como não faz sentido dizer que uma determinada pessoa não morreu num acidente de automóvel porque usava o cinto de segurança. É sempre muito complicado estabelecer isto. O que acontece em climatologia é que nós sabemos que, estatisticamente, ou seja, se eu olhar pra uma coletividade suficientemente grande de fenômenos, que a probabilidade de existirem fenômenos mais extremos, tem vindo a aumentar. E sabemos que a razão tem a ver com o forçamento da atmosfera, devido a uma acumulação de energia, acumulação essa que tem a ver com haver mais gases com efeito estufa. Portanto, se me perguntar: um fenômeno, um furacão, como o Milton, com esta intensidade completamente fora dos cânones, tem a ver com alterações climáticas? A minha resposta é: tem a ver no sentido de que fenômenos com esta intensidade serão muito mais prováveis em condições semelhantes àquelas que estão a acontecer no presente, devido a haver uma concentração maior de gases com efeito estufa No caso dos furacões, a temperatura do mar é importante e a resposta é sim, é uma condição necessária, não é suficiente, ou seja, não basta apenas ter água quente ou água mais quente pra termos um furacão, é preciso outras condições que têm a ver com os ventos, enfim, mas o que é importante é perceber que ela é necessária. Por quê? É também fácil de perceber. Quando queremos aquecer a água ao lume, para a água evaporar, começar a ferver e evaporar, tem que gastar uma enorme quantidade de energia, que se traduz no gasto de gás ou de eletricidade, consoante o fogão, mas sabemos que é um processo que exige muita energia. Para onde é que essa energia vai? Essa energia vai exatamente para o vapor d'água, ou seja, quando a água líquida passa a vapor, é preciso arrebentar as ligações entre as moléculas d'água, pra elas se tornarem livres umas das outras e passar a vapor, e isso quer dizer que essas moléculas ficam com muito mais energia. Quando o vapor se transforma novamente em água, ou seja, quando chove, liberta-se essa quantidade de energia toda que foi armazenada na água em estado vapor. Ora bem, no caso de um furacão, é exatamente isto que acontece. O furacão é uma máquina em que o vapor d'água é transformado em precipitação e a energia que é libertada é transformada em energia do movimento. Portanto, quanto mais quente estiverem os oceanos, mais fuel, mais gasolina, entre aspas.
Mais energia acumulada.
Exatamente. Portanto, a resposta é sim. E se olhar pros mapas hoje, do ponto de vista meteorológico, do ponto de vista de impacto socioeconômico, é preocupante. Do ponto de vista do meteorologista, é extremamente bonito. Tem o nosso amigo Milton, tem o furacão Kirk, aquele que produziu estes temporais, marginalmente aqui em Portugal. E ainda temos um terceiro furacão, que é o Leslie. Portanto, neste momento, temos três furacões ativos no Atlântico. Isso é de espantar? Não. As temperaturas do Oceano Atlântico este ano rebentaram tudo o que é escala. Portanto, temos um oceano perfeitamente preparado para alimentar furacões.
Eu acho que já respondeu, mais ou menos, à minha próxima pergunta, mas mesmo assim faço-a. Já ouvimos dizer que estes fenômenos meteorológicos intensos estão a tornar-se mais frequentes e mais fortes. Isso já é visível mesmo no que acabou de descrever.
Não só no que acabei de descrever, como em todo um conjunto de outros fenômenos. Por exemplo, falar em coisas que conhecemos todos muito bem. Secas aqui na Península Ibérica. As secas na Península Ibérica têm vindo a aumentar em extensão, em duração e em intensidade nos últimos anos. Ondas de calor. As ondas de calor que nos têm afetado têm vindo a aumentar em intensidade, em duração e extensão. Ora bem, e podia lhe dar muitos outros fenômenos. A precipitação. A precipitação tem vindo não aumentar tanto em quantidade global, aquilo que chove anualmente, a tendência é relativamente pequena, mas tem aumentado a concentração. Portanto, isso é mais do que notório. Temos tido cheias cada vez com mais gravidade. Portanto, do ponto de vista dos furacões, está exatamente na mesma linha e há um aspecto que me preocupa, sobretudo, é que todo este aumento de fenômenos extremos é modelável e estava previsto desde há 30 ou 40 anos pelos modelos de circulação da atmosfera. Agora, o que é preocupante? É que os modelos subestimaram a intensidade de muitos destes fenômenos, ou seja, há qualquer coisa ainda que nos escapa e que faz com que, na realidade, as coisas estejam a ser mais severas do que aquilo que está a ser modelável. Do ponto de vista científico, é muito interessante, quer dizer que há coisas que ainda teremos que investigar melhor, mas do ponto de vista prático, é altamente preocupante, no sentido de que estes fenômenos estão a ficar mais severos do que aquilo que se antecipava.
Estão também a causar, com ele, esta destruição, muitas vezes mortes. O que se pode fazer pra evitar tudo isto?
Ora bem, no fundo, a primeira coisa desejável a se fazer é tentar limitar as emissões de gases com efeito estufa, o que sabemos que é tremendamente complicado, porque envolve fatores socioeconômicos e entendimentos globais. Portanto, essa é a primeira coisa. Evidentemente que, muitas vezes, a Europa sabemos que está na vanguarda de todas estas ações e muita gente pensa que não vale a pena, porque a Europa não é, de todo, o maior emissor, que do ponto de vista, globalmente falando, representamos uma pequena porcentagem. Eu não penso assim por dois motivos. Primeiro, porque é bom dar o exemplo, mas sobretudo, porque ao implementar-se este tipo de medidas, normalmente aparecem novas políticas e novas tecnologias e essas são exportáveis. Portanto, no fim das contas, não é um trabalho em vão. Mas isso é o ideal. À segunda parte, que me parece que tem mesmo que ser, que é a mitigação e a adaptação. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que vamos forçosamente ter que desenvolver cada vez mais previsões de qualidade. E se reparar, mesmo o Helene e agora o Milton, está a ser muito bem prevista a sua trajetória. Mas sobretudo vai ser preciso desenvolver cadeias de transmissão dos graus de perigo para todos os agentes socioeconómicos, de forma que a população seja atempadamente avisada e, ao mesmo tempo, é preciso também educar a população. A população vai ter que perceber que fenômenos extremos vão tornar-se mais comuns e vamos ter que saber coletivamente como nos comportar para essencialmente evitar perdas de vidas e de bens. Vamos ter que nos saber adaptar às novas circunstâncias, que infelizmente não são as mais agradáveis.
Só pra terminar, voltando a relembrar John Morales, o meteorologista experiente que se emocionou a falar sobre o furacão Milton. O professor também já acompanha esta área há muitos anos. Estes fenômenos climáticos extremos também o surpreendem e, de certa forma, também o assustam?
Surpreender propriamente, não, no sentido de que há muitos anos que os climatologistas sabem que um cenário desta natureza iria ser altamente provável. Para ser sincero, aquilo que me surpreende é que tenha sido tão rápido. Quando eu, há 30 anos, comecei a estudar este género de fenômenos, eu achava: "Bom, isto vai ser pros meus filhos ou pros meus netos. Pra mim não vai ser." E, de facto, neste momento está a ser e eu não sei como é que irá ser.
Ter ultrapassado as previsões que tinham feito, não é? Era isso que há bocado falava.
Exatamente. Por um lado, a intensidade ultrapassou e, sobretudo, antecipou, ou seja, a aceleração das alterações climáticas é maior do que aquela que se antevia há 30 anos. Se me assustam, eu diria que, sobretudo, o que me provocam é um respeito enorme pela natureza. Mais do que assustar, é perceber o que está aqui a acontecer. E eu acho que é importante que as pessoas percebam isto. Muitas vezes, as pessoas acham que isto é a natureza a vingar-se do homem. Faz sempre estes filmes.
Umas explicações míticas.
Eu acho que não é. É exatamente o contrário. É a natureza a tentar restaurar um equilíbrio perdido. No fim de contas, todos estes fenômenos têm como papel, e isso em climatologia nós percebemos isso muito bem, de restabelecer desequilíbrios que havia pelo fato de haver acumulações de energia em determinados locais e menos noutros. A atmosfera tem que ter uma circulação muito mais intensa pra ser compatível com este aumento de energia armazenada. Se quiser, não me assustam, mas fazem respeitar a natureza e, ao mesmo tempo, admirá-la pela forma como ela, na realidade, está a tentar resolver um problema que foi semeado pelo homem, sem dúvida alguma.
Obrigada, professor Carlos da Câmara.
Foi um gosto.
Carlos da Câmara é climatologista, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta foi a história do dia. Neste episódio, usámos ainda um som da Reuters e da NBC. A sonoplastia é de Pedro Oliveira. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou Teresa Bacasis. Até amanhã.