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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que ainda há tanta gente sem luz?
Muito obrigada por estarem aqui presentes esta noite, reunidos num momento de recolhimento, respeito e solidariedade. Esta vigília nasce da necessidade de parar. De parar para lembrar, de parar para honrar.
É difícil imaginar a vida sem luz. Não como uma falha momentânea, não como algumas horas de espera, nem sequer como um apagão, como aquele do ano passado. O que é difícil de imaginar é outra coisa. É acordar todos os dias, há mais de 10, sem eletricidade, sem um frigorífico, sem água quente, sem um candeeiro à noite, sem luz.
E em especial, ser muito solidários e compreensíveis para aqueles que estão privados de luz quase há 12 dias e que, neste momento, passam por momentos de aflição.
Este era o presidente da Câmara de Leiria a apelar ao protesto, uma vigília, centenas de pessoas juntas, não para pedir respostas, mas para dizer que já não aguentam. E para lembrar que a tempestade passou, mas continua a matar até aqueles que ajudam.
Os trabalhos têm prosseguido, sempre privilegiando a segurança. Infelizmente, hoje foi um dia triste, na medida em que tivemos um acidente. Acidente esse que implicou o falecimento de uma pessoa que colabora com um prestador de serviços nosso e uma outra pessoa que ficou ferida.
Como é que isto é possível? Como é que mais de 40 mil casas continuam sem eletricidade quase duas semanas depois? Alguém falhou e continua a falhar ou estamos perante limites que ninguém consegue contornar? Isto é um problema do sistema elétrico ou é um problema do país? E quando esta exceção dura há tantos dias, que lições ficam? Eu vou fazer estas perguntas à Ana Suspiro, jornalista do Observador, especialista em energia, que acompanha estes números todos os dias e que pede respostas todos os dias. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 10 de fevereiro. Olá, Ana.
Olá, Pedro.
Ana, vamos começar aqui pelos números, porque eles contam-nos aqui esta história. A 29 de janeiro tínhamos 1,1 milhões de pessoas, de clientes, enfim, sem luz. Depois os números foram descendo de dia para dia, 450 mil, 300 mil, 187 mil, depois esta descida abranda e depois volta a subir. Por que isto está a acontecer?
Olha, começando por explicar por que a descida abranda. Foi relativamente fácil reabastecer as primeiras pessoas que foram afetadas pela tempestade Christine, que foi no dia 28 de janeiro, porque se começou pelos sítios onde havia mais pessoas. À medida que tu vais avançando na recuperação do serviço, vais indo para as zonas mais dispersas, para pequenos aglomerados e zonas onde a infraestrutura foi mais afetada, vai ficando cada vez mais difícil ou mais lento o processo de recuperação. E depois o que tem acontecido são a continuação do mau tempo, mais tempestades, mais episódios de vento, o que leva a que haja um retrocesso no processo de recuperação do serviço. E nós vimos que no sábado tivemos a tempestade Marta, com ventos muito fortes na região do centro, e isso fez com que o número de clientes sem eletricidade quase que triplicasse de um dia para o outro. Depois recuperou, mas tem afetado o ritmo do restabelecimento da energia elétrica.
Sendo que, entretanto, ainda ontem estávamos a falar de 45 mil clientes, portanto, 45 mil casas, 45 mil famílias sem luz. Quer dizer, mais de 12 dias depois, estas pessoas continuam sem luz e não admira que tenha havido a vigília de ontem à noite. A minha pergunta é: o que se está a fazer a nível de meios, sobretudo meios humanos, no terreno?
A E-Redes, que é a empresa que é responsável pela redistribuição, que é uma empresa do grupo EDP, acho que neste momento são mais de 3 mil operacionais no terreno. Já não estamos a falar apenas de portugueses ou de empresas portuguesas. Já chegaram pessoas de França, da Irlanda, de Espanha, de Itália, cerca de 300 e tal pessoas que vieram de fora para poder ajudar. Por quê? Porque isto são trabalhos muito especializados. Não é qualquer pessoa, não é um operário normal que consegue fazer estes trabalhos de restabelecimento da linha elétrica. Há muita gente no terreno, mas está a ser muito difícil, por quê? Porque as condições do tempo não estão a ajudar. Tipicamente, o que nós víamos numa situação de tempestade, em que muita gente ficava sem energia elétrica, as condições climatéricas nos dias seguintes permitiam que houvesse um restabelecimento do serviço. Tu, neste momento, tens pessoas a trabalhar em terrenos alagados, onde há deslizamentos de terra, onde continua a chover, onde há episódios de vento, e tens uma infraestrutura que está deitada no chão, que é aérea, normalmente as linhas elétricas estão no ar, muitas delas estão deitadas no chão. Tu não consegues reerguê-las no ar porque terias que construir postes de cimento para as poderes instalar e isso demoraria meses. Tu estás aqui a tentar minorar o problema. E, portanto, está a ser muito difícil fazer este restabelecimento.
E com grande risco, ainda por cima.
E com grande risco. Aliás, o presidente da E-Redes, aqui há uma semana, alertou, quando foi pressionado com os tempos: "Nós temos aqui a segurança dos nossos funcionários". Estamos a falar de eletricidade, que é propriamente uma coisa segura. Eletricidade num contexto com água, vento, com pessoas penduradas no ar. Isto, do ponto de vista da segurança, é difícil de gerir. E hoje tiveste o primeiro acidente com uma vítima mortal associado a estes trabalhos de reparação.
É isso. E há vários mortos que são pessoas que tentam reparar as suas casas, mas agora estamos a falar mesmo de pessoas que morreram nestas operações de reparação. E a dimensão, os números, não queremos aqui maçar muito as pessoas com números, mas estamos a falar de 6.000 km de linhas afetadas, 9.000 postos danificados. Isto é, de facto, uma dimensão colossal. Sendo que há aqui uma ideia que é a de que, enfim, ponham geradores e a coisa resolve-se. Eu suspeito que tu me vais dizer que a questão do gerador parece uma solução mágica, mas não é.
O gerador é uma solução de contingência que pode resolver alguns problemas, pode ajudar a colocar energia nalgumas linhas quando as subestações e a rede de alta tensão não está operacional. Pode também ajudar os chamados clientes prioritários, estou a pensar nas telecomunicações, os serviços de abastecimento da água, que tenham energia, mas, de facto, não é a solução. É um bocadinho um penso rápido. Além de que os geradores, só para termos uma ideia, os geradores que estão a ser utilizados no restabelecimento do serviço, são máquinas que pesam muitas toneladas, tiveram que ser transportadas de camion tir e para serem instalados exigem gruas. Isto é um pesadelo logístico. De facto, ajudam a minorar o problema enquanto ele não se resolve de uma forma mais estável, mas não são a solução.
Ana, nós já voltamos a falar, até porque eu quero te fazer uma pergunta que é óbvia, que é, no fim de contas, quem é que vai pagar isto tudo? Já falamos. Até já. Estamos de volta à conversa com a Ana Suspiro. A E-Redes tem dado prazos, naturalmente, tem sempre atualizado esses prazos. Entretanto, tu própria já referiste que com as novas tempestades houve ali retrocessos que tiveram de ser compensados. Neste momento, qual é que é a meta da E-Redes para que as pessoas possam finalmente ter luz, que no fundo é isso que esperam?
Olha, eu penso que neste momento não há uma meta. Ou seja, havia metas intermédias que foram comprometidas pela tempestade Marta este fim de semana. Já houve um reconhecimento por parte da empresa de que a meta dos 95% do restabelecimento do serviço no próximo fim de semana, provavelmente não seria cumprida. A meta que ficou na cabeça das pessoas e que foi dita, penso eu, logo nos primeiros dias, pelo José Ferrari Careto, que é o presidente da E-Redes, era de que no final de fevereiro, portanto, no final deste mês, esperava que a generalidade dos clientes, praticamente todos, tivessem o serviço restabelecido. Mas, mais uma vez, vai depender de como é que as condições do terreno vão evoluir. Nós vamos ter uma nova tempestade, com muita chuva, que vai atingir a zona do Centro e do Norte, e pode complicar outra vez estas previsões.
Que é o que não deixa de ser impressionante. Agora, nós estamos a ver todas estas operações, todos os dias, todos os dias é noticiado, todos os meios até, já falaste aí de alguns que são mobilizados para tentar resolver o problema. Há aqui uma pergunta óbvia que é: quem é que vai pagar isto tudo?
Ui. Para já, nem sequer sabemos quanto é que vai custar. Quanto é que está a custar neste momento a reparação, e há muitas coisas que estão a ser feitas agora e que não são ainda a solução. Ou seja, a solução estrutural não vai ser esta. Essa também é uma razão pela qual o serviço cai, é porque são pensos rápidos que estão a ser, de certa forma, aplicados. É preciso saber quanto é que vai custar e depois é preciso saber que opções vão ser tomadas pelo país. Isto não é uma decisão da E-Redes, é uma decisão coletiva do governo, em relação àquilo que vai ser o futuro da rede elétrica nesta zona do país. Uma vez que ela foi abaixo, é preciso reconstruí-la e é preciso fazer opções e começar a pensar, vale a pena enterrar, não vale a pena enterrar, enterra-se aonde, enterra-se o quê.
Tu quando falas em enterrar, nós estamos a falar dos postes de alta tensão, que são aqueles que vemos nalgumas zonas do país, são esses que foram abaixo, mas há outro tipo de soluções mais seguras para resistir a este tipo de coisas, nomeadamente enterrar as linhas.
Sim, existe. Nós temos linhas enterradas em Portugal, não são muitas, mas temos, sobretudo ao nível da baixa tensão, que não são os postes de alta tensão que tu agora referiste. Há uma discussão, aliás, apareceu depois desta tempestade com muita força, que colocar essas linhas no subsolo através de cabos torna-as obviamente muito mais resistentes a este tipo de fenômenos, mas também é muito mais caro. E é essa discussão que o país vai ter que fazer antes sequer de saber como é que vai ser pago.
Bem que tu digas que é preciso uma discussão coletiva e que o governo tem que decidir o que é que quer fazer.
Mas é assim, vai ser pago por nós. Ou seja, seja os contribuintes, através de financiamento público, seja os consumidores da eletricidade, porque os investimentos nas redes elétricas são pagos por aquilo que os consumidores pagam, pelo preço da eletricidade. Poderá haver financiamento europeu, o governo está muito empenhado nisso, mas não está garantido.
E já agora, porque esta questão também se levanta, enquanto não sabemos exatamente qual vai ser o futuro, mas seguramente essa discussão vai ter de ser levada a cabo. Há aqui outra pergunta que eu imagino que passe pela cabeça de muitas pessoas, incluindo pela minha, que agora comecei a conduzir um carro elétrico. Quando se fala da eletrificação, quer dizer, de abandonar combustíveis fósseis, estamos a caminhar cada vez mais para veículos, eletrodomésticos elétricos, que dependem, claro, de postos de abastecimento que fornecem eletricidade. Quando olhamos para uma situação destas, isto não abala a confiança de quem consome esses produtos que são tidos como o futuro?
Eu acho que sim, eu acho que abala, sobretudo quando nós temos uma rede elétrica que tem as características que tem. É rede aérea e estamos a assistir em Portugal a fenômenos que não são apenas agora, temos as tempestades, mas nós no verão temos incêndios que também destroem partes da chamada linha aérea, dos cabos, e que também afetam o serviço. Ou seja, tu para teres tudo eletrificado, tens que ter uma rede à prova de bala. Que seja muito menos exposta a estes riscos e que seja muito mais fácil de reparar quando estas situações acontecem. Tu estás neste momento a ver, na região centro do país, é um recuo à era do combustível fóssil. Porque os geradores funcionam a gasóleo.
E que são eles que estão a garantir neste momento.
E são eles que estão a garantir, e eu imagino que a quantidade de pessoas com geradores naquela zona disparou, o consumo de combustíveis fósseis certamente que subiu, e eu acho que as pessoas vão pensar, se calhar, quem vive em zonas mais isoladas vai pensar muito bem nas opções que vai ter para conseguir ter alguma autonomia, alguma independência energética.
Ana, obrigado por nos teres esclarecido aqui sobre algumas destas dúvidas que continuavam no ar e, sobretudo, por nos deixares a pensar sobre como é que estamos a caminhar para o futuro, que condições é que temos para caminhar por esse futuro. Obrigado, Ana.
Obrigada, Pedro.
Não sei se esta conversa trouxe boas notícias ou nos deixou mais animados, mas aquilo que a Ana Suspiro diz, precisamente por ser uma das jornalistas que mais percebe de energia em Portugal, é mesmo para nos deixar a pensar. Por falar em más notícias, depois das depressões e dos comboios de tempestades, esta terça-feira traz o rio atmosférico. Isto significa basicamente muita chuva, chuva forte e persistente. Esta noite reúne-se a comissão política do PS para analisar a situação política, que é como quem diz os resultados destas presidenciais, onde um socialista conseguiu um resultado histórico. Deve ser uma reunião interessante, tendo em conta que o PS só muito a custo anunciou o apoio a Seguro e mesmo assim houve vários socialistas a apoiar outro candidato. E hoje é também o dia em que a vencedora do Prémio Pessoa 2025 recebe o prémio. Foi atribuído à escritora Lídia Jorge, que se junta a outros nomes distinguidos pelo papel significativo que tiveram na vida cultural e científica do país. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.