Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quem é Abdul Bashir, o atacante do centro Ismaili?
"I'm Abdul Bashir, I am from Afghanistan, I'm 27 years old. I am a refugee in Greece country, but unfortunately when we arrived to the Greece country in Lesbos..."
Rodeado dos três filhos, três rapazes pequenos, Abdul Bashir apresenta-se ao mundo e faz um apelo. Vive em condições difíceis no campo de refugiados em Lesbos, na Grécia, e precisa de ajuda. O vídeo foi publicado por uma organização humanitária em setembro de 2020. Cerca de um ano depois, Abdul e os três filhos chegariam a Portugal como refugiados, já sem a mãe das crianças, que morreu de forma trágica na Grécia. Abdul era apenas um pacato e silencioso pai de três filhos a viver em Odivelas. Depois, tudo mudou. O crime no centro da comunidade muçulmana Ismaili, em Lisboa, chocou o país. Sem que nada o fizesse prever, Abdul Bashir assassinou duas mulheres com uma faca de grandes dimensões, duas pessoas que trabalhavam para o ajudar no seu processo de integração em Portugal. Quem é, afinal, este homem? Que vida tinha antes de chegar a Portugal? Como veio parar a Lisboa e como se integrou por cá? São questões para a conversa com José Carlos Duarte, jornalista do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Olá, José Carlos, bem-vindo.
Olá, João.
Vamos recuar alguns anos até a vida de Abdul Bashir no Afeganistão.
When I applied my problems, many times by email, by fax, by telephone, to the asylum office, to the UNHCR office in year, I can write the email, I can speak English, because I am graduated from university. I am licensed, I am telecom engineer. Here, everybody told me: wait.
José Carlos, o que sabemos da vida deste homem no seu país de origem?
Segundo dois perfis que ele mantém no LinkedIn, temos alguns detalhes sobre a vida de Abdul Bashir no Afeganistão. Ele estudou para ser técnico de telecomunicações em Cabul, que é a capital afegã, e andou numa universidade privada para estudar e estudou lá. Depois, ainda não tinha acabado o curso na universidade e já começou a trabalhar em duas grandes multinacionais. A primeira foi a chinesa ZTE, onde fazia de tudo um pouco no ramo das telecomunicações. Esteve lá durante dois anos e depois, passado esse tempo, teve outro posto de trabalho, desta feita na Huawei, onde desempenhava mais ou menos as mesmas funções do que na ZTE.
E isso até 2016.
Exatamente. Em 2016 foi o ano que, segundo o perfil do LinkedIn de Abdul Bashir, foi o ano em que ele saiu da empresa e desde aí que não sabemos muito bem qual foi o percurso profissional do homem.
Portanto, sabemos também que ele era casado, tinha três filhos. Sabemos que ele fez, como tantos outros milhares de pessoas, essa viagem do Afeganistão até à Europa, mas sabemos quando é que esta família decidiu deixar o Afeganistão?
Ao certo, não sabemos. Lá está, a última menção a um posto de trabalho foi em 2016. Depois, há ali um hiato de três anos em que não é conhecido por onde Abdul Bashir esteve. A única referência temporal que temos é entre junho e agosto de 2019, que deverá ter sido essa altura que o homem e a família chegaram à Grécia e ao campo de refugiados Kara Tepe.
Mas, portanto, foi ali numa altura no Afeganistão em que os talibãs estavam também novamente a ganhar terreno e a preparar-se para retomar o poder, isso é certo.
Sim. Em 2016, o ano do último emprego conhecido de Abdul no Afeganistão, já havia uma ofensiva em curso em várias partes do país, mas nesse ano os talibãs acabaram por ser derrotados pelo governo, pelas instituições oficiais, e também convém aqui dizer que as tropas norte-americanas ainda estavam no país. Apenas quatro anos depois, com Joe Biden, é que elas saem do Afeganistão e providenciaram aqui uma certa estabilidade aos organismos governamentais do Afeganistão.
Portanto, Abdul Bashir e a família seguem pra Europa. Não sabemos muito bem por onde terão passado até chegar à Grécia, muito possivelmente como tantos outros milhares de casos pela Turquia, mas é uma certeza, há registros disso, que estiveram em Kara Tepe, na ilha grega de Lesbos. Quando é que chegaram lá? Por que altura?
Por volta do verão de 2019. Nós sabemos isto porque o próprio Abdul gravou um vídeo em setembro de 2020 em que explica a sua situação. Ele pede ajuda também ao Alto Comissariado das Nações Unidas para que o ajude para tratar da sua situação enquanto refugiado. E ele menciona no vídeo que a mulher morreu nove meses antes daquele vídeo estar a ser gravado, ou seja, por volta de dezembro de 2019.
After four and six months, in a fire accident, I lost my wife. During this fire accident, my wife is died.
Ele também tem outra menção temporal, dizendo que ele chegou ao campo de refugiados quatro a seis meses antes de a mulher ter morrido. Portanto, temos uma noção de que ele chegou entre junho e agosto de 2019 e esteve lá cerca de dois anos.
Ouvimos então esta descrição do próprio Abdul Bashir, da forma como perdeu a mulher num incêndio neste campo de refugiados de Kara Tepe Ele fica então, depois disso, sozinho com os três filhos menores. Quando é que este homem chega a Portugal com os filhos?
Ele chega a Portugal em outubro de 2021, num avião que trouxe 43 refugiados afegãos e que resultou de uma parceria entre o Ministério da Administração Interna e o governo grego. A parceria era uma espécie de um projeto-piloto que contava com a ajuda e com o apoio do Centro Ismaili. Daí que ele tenha chegado por volta dessa altura. Esse acordo entre o governo português e o governo grego foi assinado em 2019, depois do, na altura, ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, ter visitado o campo de refugiados de Moria e ficou mais ou menos por essa altura acordado que Portugal iria receber 100 refugiados afegãos, tendo apenas chegado dois, quase três anos depois da celebração do acordo.
Já voltamos à conversa com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, que traçou um retrato de Abdul Bashir. Vamos, nomeadamente, tentar perceber como era a vida deste homem em Portugal e quais as eventuais motivações para o que aconteceu no Centro Ismaili. É já esta terça-feira que estreia o quarto episódio do podcast "O Sargento na Cela 7". É a história incrível de sobrevivência e superação do português que esteve mais tempo preso durante a guerra em África. Se ainda não ouviu até agora, aproveite para ouvir os três primeiros episódios. Eles estão disponíveis no site do Observador, mas também em todas as plataformas de podcast e ainda no YouTube. E se gostar, deixe também os seus comentários ou mesmo sugestões. Esta é apenas a primeira de muitas grandes histórias que vão ser contadas este ano nos novos podcast plus do Observador. Estamos de regresso à conversa com José Carlos Duarte, jornalista do Observador. José Carlos, já falámos da forma como Abdul e os três filhos vieram viver para Portugal. Onde é que esta família vivia cá?
A família de Abdul Bashir vivia mais ou menos na zona de Odivelas. A casa foi arranjada pelo Centro Ismaili e era entre Odivelas e Lisboa que a vida de Abdul Bashir mais ou menos andava, era nestes dois polos. Durante o dia, ele tinha de vir para o Centro Ismaili para ter aulas de português e de costura e depois voltava para casa à noite. Portanto, era esta mais ou menos a rotina do homem.
Exatamente. Ele frequentava algumas vezes a pastelaria, juntamente com seus filhos. Algumas vezes também as crianças iam só, normalmente pela manhã, horário próximo da escola das crianças. Poucas palavras, sem muita conversa. As crianças bem vestidas, ele também um comportamento muito tranquilo, nada que viesse a chamar a atenção.
Ouvimos aqui declarações de uma funcionária de uma pastelaria em Odivelas, declarações recolhidas pela CMTV. O que é que sabemos mais da vida de Abdul Bashir por cá? O que é que ele fazia no Centro Ismaili?
Abdul Bashir tinha aulas de costura e de português no Centro Ismaili, sendo que o protocolo que foi assinado dizia que os refugiados tinham ter aulas nesse centro. E basicamente eram essas duas grandes vertentes que ele tinha de aprender. Em casa, os vizinhos, tal como ouvimos nas declarações, diziam que ele era uma pessoa pacata, mas não se abria muito, era relativamente reservado, portanto, é um pouquinho difícil perceber o que ele fazia. De qualquer modo, várias pessoas próximas de Abdul Bashir dizem que ele era bastante carinhoso e que estava sempre com os três filhos e que passava bastante tempo com eles. Basicamente, eram o centro da vida dele. Agora, o que fazia em concreto é difícil de saber.
Temos dados que nos possam dizer que ele estava integrado?
Essa é uma questão um pouco complicada. O diretor nacional da Polícia Judiciária disse que Abdul Bashir tinha um modo de vida ocidentalizado, ou seja, que não era nenhum radical, tinha um estilo de vida relativamente normal. No entanto, vários colegas dele notam que ele não era uma pessoa muito comunicativa e diziam que ele não tinha grande interesse nas aulas, que estava desatento, que, por exemplo, não respondia as mensagens quando eram para fazer trabalhos de grupo. Portanto, podemos dizer que estava mais ou menos integrado, mas que havia ali qualquer coisa que não permitia que se sentisse completamente enquadrado.
E de resto, ele também, ao que percebo, tinha muito pouca ligação com a própria comunidade afegã, não é? O próprio presidente da comunidade afegã.
Sim, o próprio presidente não o conhecia pessoalmente. Não há aqui nenhuma indicação de que ele fosse uma pessoa próxima. Era uma pessoa reservada, era uma pessoa que passava muito tempo com os filhos e que até se isolava um pouquinho relativamente ao resto do mundo.
Mas uma coisa que sabemos ao certo, e isso vê-se muito também através dessa análise, dessa pesquisa que fizeste através das redes sociais dele, é que era uma pessoa que queria mesmo muito encontrar emprego.
Exato. Eu fiquei até surpreendido quando procurei o perfil dele do LinkedIn, o primeiro que me apareceu, porque estava integralmente em português. Eu até pensei na altura que aquilo tinha sido uma tradução automática, mas não. Ele escreveu aquilo em português e tinha vários detalhes sobre o que aquilo tinha feito na ZTE e na Huawei As suas valências, que, por exemplo, sabia falar inglês. Ou seja, aquilo estava realmente num português muito bem escrito e que nem parecia ser de alguém que estivesse a aprender a língua. Isso demonstra o empenho que Abdul Bashir tinha na busca de emprego. Ele realmente queria encontrar um e noutro perfil do LinkedIn, ele até tem uma nota que diz que está à procura de emprego imediatamente e que se está a candidatar agora, e ele até aí detalha que é na zona de Odivelas. Portanto, eu acho que era, neste momento, a prioridade número um de Abdul Bashir seria mesmo encontrar um emprego que lhe permitisse dar um futuro, se calhar, melhor aos filhos.
Mas antes de tudo isto acontecer, qual era o futuro previsto para Abdul Bashir em Portugal? Não era continuar em Lisboa.
Sim, em princípio, não seria continuar em Lisboa. Segundo uma fonte próxima e conhecedora das dinâmicas do Centro Ismaili, Abdul Bashir deveria, num futuro próximo, não sabemos bem quando, ir pro norte do país, onde ia trabalhar numa fábrica de confecção. Portanto, ele ficaria em Lisboa temporariamente, provavelmente até dominar a costura e até saber falar mais ou menos português, e depois seria recolocado no norte, onde as próprias fábricas teriam casa para acolher refugiados.
Há aqui um dado também interessante nesta história, é que ele tinha uma viagem marcada para Zurique, na Suíça, apenas dois dias após o ataque. Sabemos o motivo, não?
Não é conhecido o motivo. Há essa viagem e poderá estar relacionada com um episódio que aconteceu na vida de Abdul quando ele já estava em Portugal, que foi uma tentativa de uma ida pra Alemanha. Abdul Bashir tentou ir pro país, mas a Alemanha rejeitou a entrada do homem da nacionalidade afegã e poderá indiciar que Abdul queria ir outra vez pra Alemanha ou então queria ir pra um país diferente, pra Suíça, mas não é claro o motivo pelo qual Abdul se deslocaria à Suíça.
E este homem ainda mantinha contactos com o Afeganistão ou não?
Pelo que sabemos, não, mas o presidente da Associação da Comunidade Afegã em Portugal referiu que Abdul Bashir estava a ser alvo de ameaças por parte do regime Talibã, que estavam a ameaçar sua família e que ele teria de voltar pro Afeganistão o mais rápido possível ou então a família sofreria represálias. Esta é uma alegação do presidente da comunidade afegã. Não sabemos ao certo se isso terá ou não acontecido, mas, a ser verdade, seria este um dos poucos contactos que mantinha com o Afeganistão.
Não há um único indício que aponte pra um ato de natureza terrorista. Todos os outros indícios apontam pra um crime de natureza comum. O que pode estar aqui, e isto só naturalmente uma perícia psiquiátrica que naturalmente averiguará esta situação, é que estamos aqui perante um momento de um surto psicótico.
Ouvimos aqui o Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária. As autoridades foram, de resto, muito rápidas a afastar, por exemplo, a hipótese de que se tenha tratado de um ato terrorista. Mas uma semana depois disto acontecer, a grande questão que ainda se faz é esta: que motivações terá tido, então, para cometer este crime?
Ainda não sabemos. Existem várias teses neste momento a ser estudadas. Há a tese avançada pelo presidente da República que a motivação do ataque terá tido a ver com o exercício do poder parental, em que alegadamente haveria aqui um problema com a guarda dos filhos, mas essa versão não foi confirmada oficialmente, portanto é só atualmente uma suposição. Há também uma teoria que poderá ter sido motivos passionais, porque vários órgãos de comunicação social estão a dizer que Abdul Bashir tinha uma espécie de uma obsessão romântica por uma das vítimas mortais. E poderá ter sido isso que desencadeou aquela resposta, uma eventual rejeição amorosa, não sabemos. E também, lá está, há a parte económica. Abdul Bashir, e como já falámos, queria muito arranjar um emprego, queria muito oferecer uma melhor qualidade de vida aos filhos e se calhar viu-se ali um pouco entre a espada e a parede e acabou por tomar uma atitude mais drástica, mas as motivações neste momento não são conhecidas.
Sim, motivos que poderão, não sabemos, ter contribuído para esse ato psicótico de que falam as autoridades. Há aqui uma questão final, que penso que por vezes não é muito falada, mas acho que muitas pessoas se questionam, que é: ele tem três filhos menores, três crianças, o que que aconteceu a estas crianças e o que lhes vai e pode acontecer agora no futuro?
Neste momento, e após o crime, as crianças estão numa instituição à guarda do Estado. Cabe aqui referir que a CPCJ, e também relacionado com a questão de haver aqui algum tipo de problemas com o exercício do poder parental, a CPCJ não sinalizou as crianças.
Comissão de Proteção de Menores, não é?
Exatamente, não estavam a ser acompanhadas. Portanto, não há aqui nenhum indício desse tipo. Mas agora o que lhes vai acontecer, provavelmente deverão ficar na instituição. O Centro Ismaili, convém referir também, se disponibilizou a arranjar aqui uma solução, mas não sabemos bem ao certo qual é. Portanto, por agora, estão na instituição e deverão ficar nos próximos tempos.
Obrigado, José Carlos.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista do Observador e assina um artigo em que traça o perfil de Abdul Bashir, o homem que atacou o centro muçulmano Ismaili, em Lisboa, provocando a morte de duas mulheres. Esta foi a história do dia. Usamos também sons neste episódio da CNN Portugal e da CMTV. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Contamos ainda com a participação da jornalista Maria Miguel Duarte. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.