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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem poderá ganhar a liderança do PSD?
O primeiro ponto foi a aprovação de uma proposta da Comissão Política Nacional de antecipação das eleições, que foi aprovada com eleições em 28 de maio de 2022 e congresso no primeiro fim de semana de julho.
Paulo Mota Pinto é o presidente da Mesa do Congresso e por inerência do Conselho Nacional do PSD. A data das eleições diretas ficou fechada em Ovar numa reunião em que Rui Rio esteve ausente por motivos de saúde.
O que acontece é que foi apresentada uma proposta pela Comissão Política Nacional incluindo o presidente, de antecipação das eleições. Não é uma demissão formalmente, não há nenhuma demissão formal nem existiu. O que houve foi, como anunciado, uma proposta de antecipação das eleições.
As eleições para a liderança do PSD ficaram marcadas para 28 de maio. O Congresso vai ser a um, dois e três de julho, no Porto. Com a saída de Rui Rio depois dos resultados nas legislativas de janeiro, Luís Montenegro tenta pela segunda vez chegar à liderança. Jorge Moreira da Silva, que no passado decidiu não avançar em pelo menos duas ocasiões, vai agora à luta. Hoje vou conversar com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso sobre a corrida eleitoral no PSD. Bem-vindo, Miguel Santos Carrapatoso.
Olá, Ricardo.
Temos aqui dois candidatos à liderança do PSD. Conseguimos, eu acho que tu vais lembrar deste jogo, encontrar sete diferenças entre os dois ou não?
Um é alto, outro é baixo, um usa óculos.
Estás a fazer rodinhas.
Outro não usa óculos. Não, mais a sério, são dois candidatos que sendo da mesma família política, sendo o mesmo partido, obviamente, é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa, como dizia a canção. Mas têm perfis muito diferentes até e percursos, sobretudo percursos políticos muito diferentes. Luís Montenegro mais sólido na parte do aparelho partidário e depois no Parlamento destacou-se como líder parlamentar ainda hoje relembrado pelas suas capacidades oratórias e pela forma como defendeu o governo Pedro Passos Coelho naquela altura tão sensível da vida política do país. Jorge Moreira da Silva alguém que foi sempre sendo cooptado para gabinetes e para ajudar a pensar e coordenar programas. Foi assim com Cavaco Silva, Durão Barroso e também com Pedro Passos Coelho. Esteve na Europa enquanto era deputado, fundou uma plataforma para pensar o país, agora estava na OCD, portanto, são percursos muito diferentes. Se quisermos simplificar, é uma simplificação até injusta para ambos. Um é mais acadêmico, outro é mais político.
E há diferenças no campo ideológico ou no campo do caminho a escolher para o PSD?
Estamos numa fase muito prematura da corrida à liderança do PSD, ainda que falte menos de um mês. Mas se há aspecto que já ficou evidente, e pelo menos é aquele que está a ser mais explorado pelas duas candidaturas, é a relação que o PSD deve ou não ter com o CHEGA. Está a tornar-se um tema de campanha. Jorge Moreira da Silva disse claramente: "Com aqueles senhores eu não falo".
"Comigo não. Na casa do PSD não cabem racistas, xenófobos e populistas."
Luís Montenegro tem sido mais ambíguo.
Eu tenho também a obrigação de ser claro e de dizer que os valores e princípios do Partido Social Democrata não estão a ser violados com esta solução do Governo e com esta solução de apoio parlamentar.
E também se percebe porque é que tem sido mais ambíguo.
Convivo muito bem com aquilo que é hoje a governabilidade e a estabilidade governativa que se alcançou nos Açores.
É ele que tem mais responsabilidades de ganhar estas eleições e no fundo é ele que terá mais probabilidade de vir a lidar com André Ventura. Portanto, também se percebe que há aqui efeito tático de ambas as candidaturas. É evidente que nem Montenegro nem Jorge Moreira da Silva se identificam com o programa do Chega. Agora, o que fazer com o Chega é que aparentemente os distingue nesta altura do campeonato.
Miguel quando falamos em PSD ouvimos sempre falar nas estruturas do partido, nas concelhias, nas distritais. O voto nestas diretas é por militante mas afinal qualé aqui a importância da estrutura nestas eleições?
Há uma enorme mistificação em torno do chamado voto livre. É evidente que o voto é sempre livre. Ninguém aponta uma pistola ao militante do PSD pra votar no fulano A ou no sicrano B. Mas historicamente são as estruturas, e estamos a falar de concelhias, portanto a nível concelhio e distritais, quando falamos a nível distrital, que mobilizam os seus militantes. E por isso é que há históricamente determinadas figuras pelo território nacional que pela sua capacidade de mobilização, por serem líderes regionais conseguem convencer determinado conjunto de pessoas a votar no candidato Y ou no candidato X. E é o chamado, e é um termo que ganhou alguma, pra ser simpático, conotação negativa, que é o termo aliás do cacique Este voto cacicado desempenha um papel importante em todas as eleições do PSD, com todos os candidatos do PSD. Gerou-se nas últimas eleições aquela conversa em torno do Rui Rio, candidato puro que não dependia das lógicas do aparelho. Isso é a maior das mentiras. É evidente que o Rui Rio também teve um trabalho muito importante de cacicagem. Não seria ele, seriam outros por ele.
E há uma expressão muito interessante no texto que assinas com o Rui Pedro Antunes sobre a contagem de espingardas no PSD, que está disponível em observador.pt, que é: Jorge Moreira da Silva precisa de um salvador, neste caso é de um Salvador Malheiro.
Salvador Malheiro, personagem que nos temos habituado a falar nos últimos tempos, nos últimos anos do Rui Rio, era exatamente essa imagem. O Rui Pedro já não me deixa escrever esse termo nos textos, mas eu escrevia sempre era o king maker ou foi o king maker de Rui Rio, porque fazia isto sem qualquer espremor, fazia o trabalho sujo, ia às terras, falava com os militantes, convencia-os a votarem em Rui Rio, fazia acordos e estabelecia compromissos, que é precisamente o caso de Salvador Malheiro, que era até há bem pouco tempo líder distrital de Aveiro e vice-presidente do PSD.
Vamos então a contas. Miguel Santos Carrapatoso, nesta altura, a nível das distritais, como é que está a contagem?
Ao dia de hoje, e é importante sempre sublinhar que este exercício comporta algum nível de imprevisibilidade.
Fica feito o aviso.
Ao dia de hoje, Luís Montenegro claramente tem vantagem nesta corrida à eleição do PSD. Tem o apoio da esmagadora maioria das estruturas distritais do PSD. Já muita gente lhe manifestou apoio, já muita gente apareceu a dizer que era ele o candidato mais bem posicionado a suceder a Rui Rio. Se quisermos pôr uma percentagem, diria que Luiz Montenegro lidera com uns confortáveis, para ser simpático, 60%, 65% de hipóteses de vencer as eleições do PSD.
E há distritais mais importantes do que outras, desde logo por causa do número de militantes.
Claro que há, e é importante também explicar isso. Apesar de serem muitas distritais, a corrida à liderança do PSD decide-se em grande parte em quatro: Porto, Lisboa, Aveiro e Braga. Neste momento, e olhando pros dados que são públicos, o próprio partido disponibiliza esses dados, estas quatro estruturas distritais reúnem mais de 20 mil militantes em condições de votar. O total são 38 mil. Estamos a falar que bem mais de metade dos militantes em condições de votar estão concentrados nestas distritais: Aveiro, Porto, Lisboa e Braga.
Já vou voltar a esse número dos 38 mil habilitados a votar, mas queria antes, e já que falamos das distritais, olhar também para as concelhias, porque também há aqui elementos importantes nas concelhias.
Precisamente, e é isso que às vezes confunde um bocadinho quem não está habituado a olhar pra esse tipo de fenômenos. Para termos uma ideia, Barcelos, com cerca de quase 1100 militantes em condições de votar, tem mais gente do que a distrital de Setúbal. Famalicão tem mais militantes em condições de votar do que a distrital de Guarda. Portanto, se andarmos pelo país fora, se falarmos de Portalegre, Beja, Évora, Castelo Branco, estamos a falar de universos eleitorais de 200 militantes, 300. Por isso é que é importante às vezes não olhar apenas para as distritais, mas olhar também pras concelheias mais fortes, que estão sobretudo concentradas em Aveiro, Braga, Porto também, mas sobretudo Aveiro e Braga, que são fenômenos muito engraçados onde o PSD tem raízes muito próprias.
As campanhas internas, Miguel, já viveram tempos mais efusivos e de maior mobilização ou estou errado quando faço esta afirmação?
Sim, e a todos os níveis, quer pela atenção midiática que os candidatos estão a receber, e essa parte é da nossa responsabilidade, obviamente, o próprio número de notícias que geram os candidatos, as interações que têm, as deslocações que fazem. Mas há um dado que é objetivo, que é o número de militantes que têm as cotas em dia, que podem, se as eleições fossem hoje, votar. Neste momento, temos 38 mil militantes em condições de votar.
O tal número que deixámos pendurado de há pouco.
Estamos a cinco dias de terminar o prazo de pagamento de quotas. É possível, e antecipando que haja agora um grande fluxo de pagamento de quotas, que chegue aos 45 mil. Diz-nos a experiência que destes 45 mil, apesar de tudo, 15 mil ficam em casa. Arriscamo-nos a ter o próximo líder do PSD escolhido apenas por 30 mil militantes. Tem sido cada vez menor o universo de militantes a votar e a escolher o líder do PSD, mas nas últimas eleições, por exemplo, foram 34 mil militantes. São 4 mil a mais e é uma diferença que nesse universo é considerável.
E qual é o universo total?
É um exercício também difícil de fazer, pois há diferentes estatutos também nos regulamentos do PSD. Objetivamente falando, militantes ativos, e não vou perder muito tempo a explicar o que são militantes ativos, mas militantes ativos são hoje 85.747 militantes activos. Votam neste momento 38 mil.
Mas também, Miguel, num quadro de maioria absoluta do PS, também se percebe alguma falta de entusiasmo, ou não?
Sim. De facto, o quadro externo ao PSD não é fantástico para mobilizar ninguém. Há uma perspectiva de termos o partido a passar quatro anos no longo deserto da oposição. Mas depois também há outra questão que precisamente está también na génese destes fenómenos de eleições internas de um partido muito próprio como o PSD, que é o próprio ciclo eleitoral que se aproxima. As eleições que temos imediatamente a seguir a estas internas são as eleições europeias. Nas eleições europeias não há grande coisa pra negociar, não há grandes cargos pra oferecer, não há grandes lugares para prometer. Até isso contribui para esta fraca mobilização, porque as próprias candidaturas não têm muito para negociar com os tais caciques. E depois, ainda um factor em cima disso, talvez até mais relevante do que este, que é a perspectiva que se gerou de que a vitória está entregue a Luís Montenegro. E ora, se a vitória está entregue a Luís Montenegro, as pessoas não têm grande motivação pra pegarem em bandeirinhas e saírem de casa. Isso explica também esta enorme apatia que se vive hoje no PSD.
É pois chegada a hora de renovar o PSD, reformar a política e liderar o crescimento sustentável em Portugal. E considero que sou o militante que hoje está em melhores condições de protagonizar esse desígnio.
E quem é que paga estas campanhas internas?
São sempre as próprias candidaturas que pagam essas campanhas, depois as candidaturas têm de prestar contas ao partido e têm de apresentar esses orçamentos. Mas é verdade que é um universo muito pouco transparente, se quisermos ser simpáticos. E a este propósito, há que contar uma história muito engraçada, de resto relatada e documentada e nunca desmentida num livro de um camarada nosso que já trabalhou n'O Observador, o Vitor Matos, o livro chama-se Os Predadores, em que ele conta que grande parte do esforço financeiro da candidatura de Luiz Felipe Menezes, na altura contra Luís Marques Mendes, foi precisamente contratar uma empresa espanhola que conseguiu decifrar a máquina que gerenciava as referências Multibanco para pagamento de quotas e investiu largas quantias de milhares de euros a pagar quotas aos militantes para que eles votassem nessa candidatura. Moral da história: Luís Marques Mendes perdeu, Luiz Philippe Menezes ganhou contra todas as expectativas. Isto é pra termos uma noção de que essa parte também de pagamento de quotas representa um bolo muito interessante do ponto de vista financeiro das próprias candidaturas.
Vamos então regressar à contagem das espingardas. Luís Montenegro, como dizes, está na frente, há pelo menos essa tendência. No entanto, ninguém se esquece do favoritismo de Paulo Rangel, que ruiu por completo quando Rui Rio venceu as diretas.
É verdade. E é por isso que é tão importante nós nestas oportunidades fazermos sempre ressalva de que tudo isto é teórico, há uma vantagem teórica, os números dão-nos uma tendência, mas é importante siempre perceber que nada disto é matemático e que de facto há fenômenos e há surpresas que podem acontecer. Acontece que desta vez, Luís Montenegro tem ainda mais estruturas do que Paulo Rangel tinha na altura. Tem muito conforto em Lisboa, na Distrital de Lisboa, conseguiu a Madeira, conseguiu os Açores, tem o Porto muito controlado. O Rui Rio teve uma vitória absolutamente surpreendente no Porto. Desta vez não parece que Jorge Moreira da Silva consiga surpreender. Portanto, Luís Montenegro fez um caminho muito sólido em termos de sedução das estruturas e dos líderes regionais. E depois há outro aspecto que é: o ruísmo não existe sem Rui Rio. Jorge Moreira da Silva é verdade que está a colher muitas simpatias e muitos apoiantes próximos do Rui Rio, mas Rui Rio despertava junto dos militantes uma genuína admiração pelo percurso que tinha feito enquanto presidente da Câmara e pela imagem que sempre criou à volta de si próprio. Jorge Moreira da Silva é, quer sequeira, quer não, desconhecido pra uma grande fatia de militantes do PSD.
O PSD tem, portanto, o direito e a obrigação de escolher um candidato a líder, que será o voto das portuguesas e dos portugueses, não apenas o próximo líder do partido, mas também o próximo primeiro ministro de Portugal. É nisso que eu aposto e é por isso que aqui estou.
Mas tem o apoio de nomes importantes comme Francisco Pinto Balsemão. Os barões, Miguel, ainda riscam alguma coisa no PSD?
Obviamente que riscam e têm um peso próprio. A questão é que servem mais para credibilizar uma candidatura que é desconhecida ou quase desconhecida, e servem mais pra dar essa chancela de credibilidade. Mas o voto vale o mesmo que o militante celorico da Beira. Mas o PSD já há muito tempo que deixou de ser um partido de barões, é um partido de operacionais, de ilustres desconhecidos, de gente que se junta nessas alturas do campeonato para eleger um líder. E portanto, já são poucos os barões e os que existem valem pela chancela de credibilidade que dão, mas valem um voto como os outros.
E que vida é que vai ter este futuro líder do PSD com uma bancada parlamentar que não escolheu e com uma maioria absoluta do PS Para quatro anos, pelo menos até ver.
Sim, é uma vida muito difícil, é um ciclo eleitoral muito complicado. Além de ter uma bancada parlamentar que, até ver, dá sinais de que vai ser hostil, no caso da vitória de Luís Montenegro, ou pelo menos pouco colaborante no caso da vitória de Jorge Moreira da Silva. É o último reduto do riuismo. Além disso tudo, como dizíamos há pouco, as próximas eleições no horizonte são as eleições europeias. São unas eleições difíceis, porque não será fácil crescer do patamar de que o PSD vem, que já é um patamar muito baixo e, portanto, o próximo líder do PSD terá sempre a obrigação de ter resultado incrível nas próximas eleições europeias, de fazer uma oposição supereficaz, porque alegadamente, ou pelo menos dizem eles, Rui Rio nunca a conseguiu fazer, e traz esta pressão adicional de não estando no Parlamento, não tendo grandes chances de sucesso nas próximas eleições, durar dois anos e responder perante isso. Não me parece que tenha vida facilitada, para dizer o mínimo.
E há potenciais candidatos que escolheram ficar quietos por agora?
Não faltam. Aliás, a lista de não candidatos é seguramente muito superior à lista dos dois candidatos que decidiram ir a jogo. Mas o nome mais evidente que muita gente fala no PSD é o nome de Carlos Moedas. Ele foi desafiado a avançar várias vezes, era o desejado. Toda a gente que falava em Carlos Moedas dizia que se ele avançasse, ganhava de caras. Carlos Moedas resistiu ao canto da sereia, percebe-se porquê. Acabou de chegar à Câmara Municipal de Lisboa, tem de consolidar este percurso, mas daqui a dois anos, em 2024, quando se discutir novamente a liderança do PSD, Carlos Moedas já terá uma noção exata de se esteve à altura ou não do desafio da Câmara de Lisboa e o partido também saberá se Carlos Moedas era exatamente o campeão da direita, tal como se anunciou. Mas não tenho dúvidas que será sempre uma sombra do próximo líder do PSD, seja ele Luís Montenegro ou Jorge Moreira da Silva, Carlos Moedas será sempre aquela reserva para o qual o partido não hesitará olhar à primeira falha, quer de Moreira Silva, quer de Montenegro. Portanto, o líder, seja ele qual for, ainda não chegou, ainda não sucedeu a Rui Rio e já terá aqui um fantasma muito difícil de lidar.
Obrigado, Miguel.
Obrigado, Ricardo.
Miguel Santos Carrapatoso é o editor adjunto de política d'O Observador e assina com o editor Rui Pedro Antunes o especial Contagem de Espingardas no PSD. No Observador e na Rádio Observador vamos acompanhar as diretas no Partido Social Democrata ao pormenor. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.