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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem são os editores da morte da Wikipedia? A banda dos granadeiros toca a Marcha Fúnebre de Beethoven. O corpo de Isabel II, escoltado por militares, é seguido pelos quatro filhos e por dois dos netos, William e Harry. Junto ao Palácio de Buckingham, só a música e as badaladas do Big Ben cortam o silêncio de um momento carregado de solenidade. A rainha é transportada para Westminster Hall, num dos momentos mais marcantes das exéquias. Na página de Wikipedia em inglês dedicada a Isabel II, pode ler-se no arranque do artigo: "Elizabeth Alexandra Mary nasceu a 21 de abril de 1926 e morreu a 8 de setembro de 2022". A Wikipedia transformou-se num dos sites mais consultados para esclarecer dúvidas e está muitas vezes no topo dos resultados apresentados pelos motores de busca. Há um exército de pessoas que constroem esta enciclopédia global e algumas delas largam tudo para atualizar a informação sempre que morre uma figura pública. Quem são e como funcionam estes apelidados de editores da morte da Wikipedia? Vou conversar com a jornalista Cátia Rocha, é a especialista em tecnologia do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Ricardo, obrigada.

O funeral da rainha Isabel II é esta segunda-feira e por certo, esta é uma informação que já constará na página da Wikipedia.

É, aliás, algo que até já tem direito a uma página própria na Wikipedia. Já há outra página, além da página de Isabel II, que é só a morte de Isabel II e o seu funeral de Estado.

Eu acredito que quem nos ouve, num momento ou outro, já consultou a Wikipedia. Podemos chamar-lhe enciclopédia ou uma coisa é Wikipedia e outra coisa é, por exemplo, a Enciclopédia Britânica?

Isso agora vai depender um bocadinho das perspectivas de cada um, mas toda a lógica da Wikipedia é ser uma enciclopédia de acesso livre, a democratização da informação, e que acompanhou muito este crescimento e expansão da internet.

E esse trabalho, como é que é feito? Esses artigos são feitos por voluntários? Como é que se mantém este projeto? Ninguém ganha dinheiro com isto.

Estas edições e esta criação de artigos e páginas na Wikipedia é feita por voluntários. Qualquer pessoa, até nós, se quisermos ir neste momento à Wikipedia, podemos.

E nós que temos tanto para dar.

Sim, temos tanta coisa para contar. Podemos ir editar a Wikipedia. É mesmo essa a lógica, que todas, em teoria, todas as pessoas têm alguma informação que seja relevante para partilhar. Não é que toda a gente seja especialista em alguma coisa, mas provavelmente consegue acrescentar um bocadinho, nem que seja fazer correção de erros ortográficos. Portanto, há voluntários que fazem este trabalho, qualquer pessoa pode fazer, podes estar ou não registado na Wikipedia para o fazer, isso depende depois de quão protegida está a página, mas já lá vamos. E há uma fundação que é responsável pela Wikipedia, que é a Wikimedia Foundation, e neste momento é possível fazer donativos a esta fundação para garantir que esta enciclopédia gratuita fica disponível gratuitamente para sempre.

Ou seja, podemos contribuir com aquilo que quisermos para ajudar nas despesas, é isso?

Sim, aliás, dependendo de cada página, até já recebeste alguma indicação da possibilidade de fazer donativos para contribuir para a Wikipedia.

"This is BBC News. We're interrupting our schedules for the following announcement. Buckingham Palace has announced the death of Her Majesty Queen Elizabeth II. A statement from the palace said the Queen died peacefully at Balmoral this afternoon. The King and the Queen Consort will remain at Balmoral this evening and will return to London tomorrow."

A notícia da morte de Isabel II foi divulgada por volta das 18h30 de uma quinta-feira, 8 de setembro. Quanto tempo, Cátia, demorou a actualizar a informação na página relativa à Rainha Isabel II?

Muito poucos minutos. O anúncio foi feito às 18h30 e em 15 minutos a página já estava praticamente alterada. E é importante lembrar que, dada a extensão da página de Isabel II, porque foi um reinado muito longo, foram 70 anos, era uma página que tinha muita coisa para alterar. E não é só dizer que a Rainha morreu a 8 de setembro.

Não é só pôr a data da morte.

Não, tem que se alterar tempos verbais, passar tudo para o passado, obviamente, fazer também aqui alterações e introduzir novas categorias. É preciso criar aqui uma parte de contexto sobre o anúncio da morte e todas as operações que estão ligadas a isso. Depois percebeu-se que era mais fácil criar uma página à parte para contextualizar tudo o que está associado à morte da Rainha, desde reações até à história da operação London Bridge. Curiosamente, foi criada uma página ou uma comunidade, vamos dizer assim, uma task force entre editores da Wikipedia para alterar toda esta informação, uma equipa de seis pessoas que tinha o mesmo nome da operação, era Task Force London Bridge.

Que era o nome da operação especial para desencadear quando a notícia da morte da Rainha. Já vou querer saber mais sobre este grupo, tenho ainda aqui algumas dúvidas. Mas podemos dizer que há uma página da Wikipedia oficial relativa à Rainha ou é melhor falar em páginas?

É melhor falar em páginas, porque dependendo de cada idioma, há uma página que pode ter um aspecto diferente, pode ter uma quantidade de informação diferente, dependendo do idioma. O inglês, como é muito mais falado e tem uma comunidade muito maior de editores, tem consequentemente mais informação do que a página em português, por exemplo.

Porque também há uma página em português.

Há uma página em português, há uma página da Rainha em inúmeras línguas. Portanto, é um pouco escolher qual é que se quer consultar.

Já voltamos à conversa com a Cátia Rocha.

História Rossii i Ukrainy.

Em russo, este significa história da Rússia e da Ucrânia. E José Miás vai explicá-la em bom português a partir do dia 22 de setembro, no primeiro curso da Academia Observador. E nem precisa de sair de casa. Inscreva-se em academia.observador.pt.

Пока.

Até lá.

Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Cátia Rocha, vamos regressar a esse dia 8 de setembro. Quantas consultas teve a página de Isabel II ali nos segundos, minutos, horas depois da morte?

Foi um boom de visualizações. Só no dia do anúncio, foram 8,3 milhões de visualizações à página da Wikipedia da Rainha, ou neste caso, páginas, dependendo dos idiomas. E no espaço de uma semana, de 8 a 15 de setembro, de quinta a quinta-feira, vamos considerar assim, foram mais de 20,5 milhões de visualizações.

Isso é mesmo muito, não é? Estamos a falar de acessos globais.

É mesmo muito e de acordo com o top da Wikipedia das páginas mais visitadas, a morte da Rainha já tem, neste momento, o segundo lugar deste top.

Qual é o primeiro?

É a morte do Kobe Bryant.

Do basquetebolista.

Exatamente, num acidente.

E o que é, Cátia Rocha, o efeito Michael Jackson?

Há que perceber que esta comunidade da Wikipedia gosta de fazer algumas piadas e ter alguns Easter eggs, vamos considerar assim. Em 2009, quando o Michael Jackson morreu, a Wikipedia tinha poucos anos de vida, nasceu em 2001, não era algo assim tão normal. E temos também de contextualizar que nessa altura não era normal as pessoas terem um smartphone e acederem rapidamente-

Posso confirmar que não era

...rapidamente à informação. Estávamos ali ainda muito no início dos smartphones. E quando o Michael Jackson morreu, houve tanta gente a aceder ao mesmo tempo à página da Wikipedia para perceber se já tinha sido alterado. E a morte de Michael Jackson não foi oficializada logo. O TMZ foi o primeiro a avançar, mas houve algum tempo que passou até a notícia ser confirmada. E houve tanta gente curiosa para perceber o que é que estava a acontecer, que acederam ao mesmo tempo à Wikipedia e a página acabou por dar erro. Houve uma instabilidade de sistema, foi uma questão complicada. Daí que se chame o efeito Michael Jackson, que é quando há tanta gente a tentar aceder ao mesmo tempo à Wikipedia, as coisas ficam instáveis. Neste caso, da morte da Rainha, isso não aconteceu.

Isso não aconteceu. E vamos então, Cátia, olhar para as pessoas que constroem a Wikipedia. O que é isso de os editores da morte da Wikipedia? Quase que parece um título de um livro do Harry Potter.

Sim, percebeu-se que havia aqui pessoas que estavam só dedicadas a editar a Wikipedia quando morria alguém, figuras públicas, personalidades históricas. E curiosamente, um dos editores da Wikipedia, um holandês, criou o conceito de deaditors, que mistura a palavra morte com editores.

Dead e editors.

Exato. Assim, muito mais conciso. Tentou-se perceber quem eram estas pessoas que faziam estas edições. Chegou-se à conclusão de que muitas vezes eram utilizadores que não estavam registados ou que até editavam no smartphone, o que editar a Wikipedia no smartphone é uma tarefa muito difícil. Quem é um editor à séria prefere fazê-lo no computador.

Sim, porque escrever não é confortável e nós que trabalhamos também no site do Observador sabemos isso.

Exato. E tentou aqui perceber-se quem eram estas pessoas. Neste caso, esta task force, esta London Bridge, dedicada à edição da página da Rainha, não se sabe se são realmente deaditors ou não, mas foi um grupo de pessoas que teve a iniciativa e quis atualizar a informação o mais rápido possível, até para conseguir informar as pessoas, porque como já percebemos, se houve oito milhões de visualizações só num dia aquela página, era porque as pessoas tinham curiosidade.

Mas portanto, existem pessoas, pelo que estás a explicar, que quase que se dedicam a isto. Cada vez que morre uma figura pública, vão tentar rapidamente atualizar a informação na Wikipedia.

Sim, e até trocaram comentários e deram os parabéns à pessoa que conseguiu fazer a edição, introduzir a data da morte da Rainha na Wikipedia, a primeira pessoa a conseguir. É uma lógica de comunidade, é muito isto que está assente nesta parte dos editores, que vale a pena lembrar, são todos voluntários.

É isso, são voluntários, já percebemos, mas sabemos mais alguma coisa sobre eles? São pessoas com alguma formação especial, se têm conhecimentos científicos, ou Se pode ser realmente o nosso vizinho do lado ou mesmo o nosso primo.

Pode. Na prática, pode ser qualquer pessoa, mas uma das coisas que ficou muito patente nesta lógica, porque quem contou toda esta história de como é que se procedeu às alterações da Wikipédia foi uma página, a Depths of Wikipedia, que explora estes episódios curiosos que se passam nesta comunidade de editores e até coisas engraçadas que se podem encontrar a navegar pela Wikipédia. E percebeu-se que qualquer pessoa pode editar. É muito esta a lógica, mas há um aviso que é: tudo o que seja estes acontecimentos em que se sabe que vai haver muita gente a ver a informação ao mesmo tempo, convém que seja algum editor já com alguma experiência, até porque é algo que tem de ser feito de forma rápida. E depois há outra coisa, que é há muitos conflitos de edição, pessoas que estão a tentar mudar a mesma coisa ao mesmo tempo, e, portanto, é uma tarefa um bocadinho mais complicada, não é para iniciantes.

Mas são editores que já têm credenciais para isso?

Sim, até porque dentro desta comunidade, para já, a página da rainha, neste caso, como era um acontecimento que está a acontecer em tempo real, algo de última hora, havia limitações a quem é que podia editar. É preciso ter uma espécie de ranking, ter já um certo nível para conseguires.

Algum grau de experiência.

Exato. Para conseguires fazer estas edições. E depois há sempre alguém que está a validar se aquela informação faz sentido ou não, se vem de uma fonte que é fidedigna, até porque para editares na Wikipédia convém pôr de onde é que retiraste aquela informação. É por isso que no fim de qualquer página há uma espécie de bibliografia.

Exatamente. E sabemos, por exemplo, quantas alterações foram feitas naquele artigo principal sobre a rainha Isabel II?

Sabemos. Só no dia da morte foram feitas mais de 280 edições. Houve muitos conflitos de edição também.

Houve muita gente a mexer na página.

Muita gente a mexer na página. Foram quase 160 editores só num dia.

Cento e sessenta?

Sim, 160.

E isso também já explicaste, deve gerar essas discussões. Como é que isso tudo depois se resolve?

É uma parte que nós, quem visualiza só o produto final, não tem bem noção, mas há discussões, há troca de comentários relativos às edições. Neste momento, por exemplo, estão a discutir se faz sentido ou não unir a página das reações da morte da rainha e mesmo a página da morte da rainha, se faz sentido juntar ao perfil de Isabel II na Wikipédia.

Isso ocorre em fóruns?

É um fórum, mas ao mesmo tempo é um fórum que tem só o aspeto da Wikipédia, só com as notas bibliográficas e indicações. Neste caso, esta discussão, por exemplo, curiosamente, há uma página para discutir como é que a Wikipédia faz fusões de páginas. Há uma página para tudo. E que lá explica que é possível alguém sugerir uma fusão de páginas e deixar o tema à discussão. E se achar que passou uma semana, já é suficiente, já há comentários suficientes, já há algum consenso, põe-se fim à discussão e aí a fusão da página é feita ou não.

E no meio disto tudo, Cátia Rocha, a História do Dia, da Rádio Observador, já tem alguma entrada na Wikipédia?

Eu fui analisar, fui procurar, não caí no rabbit hole da Wikipédia, mas cheguei à conclusão de que não tem.

Ainda não há.

Ainda não tem. Mas sendo que qualquer pessoa pode editar a Wikipédia, se calhar.

Só espero que não seja um editor da morte da Wikipédia a fazer a entrada da História do Dia.

Não convém, acho que não seria boa ideia.

Obrigado, Cátia.

Obrigada.

Cátia Rocha é jornalista do Observador e é especialista em tecnologia. A Cátia Rocha e a jornalista Inês Capucho assinam um especial no site sobre estes editores da morte da Wikipédia. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.