Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: uma gafe de Sebastião Bugalho ou um recuo do PSD?

Parece-me que faz sentido e que é proporcional que o PSD chame à Assembleia da República, em sede de comissão parlamentar, os governantes que tiveram responsabilidades relacionadas com este processo e a ausência de informação sobre a população do país, estrangeira e nacional, durante estes anos.

Nos finais de junho, o novo vice-presidente do PSD e novo porta-voz do partido dava uma conferência de imprensa sobre os números da população divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e sobre o que isso revelaria do aumento descontrolado da imigração durante os governos do Partido Socialista. Sebastião Bugalho leu a declaração que tinha para ler e quando começou a responder às perguntas dos jornalistas, deu a notícia que foi divulgada em vários órgãos de comunicação social. O PSD prometia ouvir na Assembleia da República ex-ministros do PS.

O impacto do aumento populacional é absolutamente transversal do ponto de vista das áreas setoriais da governação, portanto, certamente não só chamaremos um ex-governante.

Incluindo o ex-ministro da Administração Interna e atual líder do Partido Socialista.

O atual secretário-geral do Partido Socialista tem, evidentemente, responsabilidades, não só na extinção do SEF, como pelo fato de ter sido titular da pasta da Administração Interna. Portanto, parece-me natural que José Luís Carneiro seja chamado a esse esclarecimento.

Mas 10 dias depois, a história parece ter sido mal contada. Hoje eu vou falar com o editor de política do Observador, o Rui Pedro Antunes, porque afinal não há ex-ministros nem secretários de Estado na lista de audições apresentada pelo PSD e pelo CDS. E das duas, uma: ou o PSD recuou, ou o porta-voz do partido falou mais do que devia. Vamos tentar perceber qual das duas hipóteses é mais provável. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 09 de julho. Olá, Rui Pedro.

Olá, Pedro.

Leva-nos aqui ao dia 29 de junho de 2026. Houve uma conferência de imprensa. O que foi anunciado nessa conferência de imprensa?

O porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, que é também vice-presidente, falava pela primeira vez nessa qualidade e anunciou que o Partido Social-Democrata ia chamar ao Parlamento vários responsáveis por aquilo que teria sido um apagão ou uma não atualização dos números da população imigrante em Portugal, o que novos dados do INE tinham vindo a demonstrar que durante alguns anos isso não estava atualizado.

Ou seja, estamos a falar da divulgação dos dados do Instituto Nacional de Estatística, que nos deram a surpresa a todos de que Portugal tinha passado de cerca de 10 milhões de habitantes para 11 milhões e cerca de 400 mil.

Sim, e mais do que isso, a população imigrante ser muito superior ao que era esperado, mas acima de tudo, porque isso alterava por completo aquilo que era a dimensão e também os dados econômicos que depois advêm, por exemplo, o PIB per capita, etc., e responsabilizava o Partido Socialista por isso.

Portanto, basicamente o Instituto Nacional de Estatística revê os dados da população portuguesa e o PSD responsabiliza o Partido Socialista, que estava no governo antes, pela entrada de um excesso de imigrantes que não estaria contabilizada, não estava a aparecer nas estatísticas, é isso?

Exatamente isso que sintetizaste. E então, Sebastião Bugalho critica o Partido Socialista por ter feito e depois diz que vão chamar uma série de pessoas ao Parlamento para serem ouvidas, em sede de comissão parlamentar, para responder a essas questões. E diz ele que, por exemplo, quer perceber se o então governo em funções agiu com conhecimento ou sem conhecimento deste aumento populacional que era tornado público agora, que políticas públicas desse governo é que foram projetadas ou condicionadas por esse aumento, o que é que fizeram ou não fizeram, se sabiam ou se não sabiam. Sem se, nessa primeira declaração que faz do púlpito, ele tinha o busto de Sá Carneiro atrás, a bandeira da Europa, a bandeira de Portugal, uma pose bastante institucional na sede do PSD na São Caetano, Lapa, não avançou logo que tipo de pessoas é que ia chamar. O que é que aconteceu? Naturalmente, nas primeiras perguntas dos jornalistas, essas questões foram colocadas logo a seguir. E aí é a segunda parte, porque quando lhe perguntam quem é que vai chamar, Sebastião Bugalho diz logo que vão ser os governantes que tiveram responsabilidades relacionadas com este processo. Portanto, diz logo que são ex-ministros do PS que vão ser chamados ao Parlamento.

Ou seja, não há dúvidas de que ele fala de ex-governantes, portanto, pessoas que tinham responsabilidades políticas, e fala do anterior governo, portanto, a lógica de que seriam ministros, ele não fala de ministros especificamente, ele fala de ex-governantes, não é?

Exatamente, poderiam ser secretários de Estado, podia ter essa latitude.

Ia ser uma interpretação jornalística um bocadinho...

Exatamente. Já podíamos lá ir, mas eu vou já lá, que o próprio PSD publicou no seu site um título que não difere muito da Agência Lusa sobre essa intervenção, a dizer PSD quer ouvir ex-ministros do PS sobre dados demográficos revelados pelo INE. Ou seja, é a própria comunicação do PSD a assumir que aquela era a mensagem que o PSD queria passar naquele dia.

Ou seja, no dia 29 de junho, através dessa conferência de imprensa, ficava claro, até pelo órgão oficial do Partido Social-Democrata online, que O PSD queria chamar ex-ministros do PS para falar sobre o aumento da emigração, sobre estes números que tinham sido revelados pelo Instituto Nacional de Estatística.

Com uma nuance, Pedro, ainda por cima, que é: Sebastião Bugalho dizia: "Não será só um, porque como são áreas transversais, vai ser mais do que um". E depois perguntaram-lhe diretamente: "Então e José Luís Carneiro?" E Sebastião Bugalho disse: "É natural, tendo ele tido responsabilidades na extinção do SEF, a pasta que teve, até como secretário de Estado das Comunidades, que indiretamente a rede consular, Sebastião Bugalho fez essa ligação, José Luís Carneiro seria chamado de forma natural". Claro que depois ele colocava o ônus da calendarização e também do anúncio mais pra frente dessas pessoas propriamente ditas ao grupo parlamentar do PSD, neste caso, ele até disse ao doutor Hugo Soares, que é o líder parlamentar, mas deixava logo em aberta esta possibilidade. Ainda lhe perguntaram de António Costa, ao que ele foi mais cauteloso, disse que não era uma porta que tivesse aberta, mas também não estava fechada, não ia trancar já, isso a seu tempo. Mas não havia dúvidas sobre essa questão principal, que era o PSD ia chamar ao Parlamento responsáveis do PS, inclusivamente o seu líder, para que prestassem contas sobre isto que tinha acontecido. E era esta a ideia e foi durante nove dias.

Ficou no dia 29 de junho.

Precisamente.

Entretanto, estamos hoje, dia 9 de julho, por que nós estamos a falar disto?

Olha, porque de fato nós andamos a perguntar em várias ocasiões quem é que seriam as pessoas que iam ser chamadas. E pelo meio, cruzamo-nos com a ideia que existia no grupo parlamentar de que não, que não iam ser chamados ex-ministros. Ou seja, que a ideia nunca foi chamar propriamente os titulares das pastas, mas direções intermédias, instituições que tinham responsabilidade nestes números, se quisermos, uma responsabilidade já mais técnica.

Ou seja, não eram ministros propriamente, nem secretários de Estado, eram dirigentes de instituições que lidam diretamente com estas matérias.

Sim, e que seriam responsáveis por fazer esse levantamento e essa atualização de dados. Claro que havia sempre a responsabilidade da tutela, mas o que essa fonte do grupo parlamentar do PSD nos diz é: "Mas a responsabilidade política nós já sabemos de quem é, é dos ministros. Portanto, não vale a pena chamá-los para dizer o que nós já sabemos. Aí já os condenamos, são os responsáveis políticos por isto. Agora é preciso ir ver se houve aí uma maior negligência, alguma falha técnica a nível das estruturas intermédias". Claro que essa mesma fonte, pra não contraditar totalmente o que tinha dito Sebastião Bugalho, porque isto também é política, portanto, vive muito de retórica, diz que: "Bem, no limite, se quisermos, podemos chamar os ministros". Ou seja, não diz: eles não vão ser chamados nunca. Mas não era todo esse o plano inicial. Não está previsto. De certeza que no primeiro requerimento que vai ser entregue no Parlamento-

Que há de ser agora nos próximos dias.

Nos próximos dias, não vai estar nenhum nome de ex-ministro ou ex-secretário de Estado, a menos que seja um ex-ministro ou secretário de Estado que tutela uma dessas instituições que no passado tenha sido governante. Isso poderia acontecer no limite, mas também não me parece que seja o caso. E, portanto, fica absolutamente claro que nunca foi esta a intenção, e isso parece ficar mais claro agora do que propriamente um recuo, que era uma outra possibilidade, que era ter sido uma coisa há nove dias e agora o grupo parlamentar, por qualquer razão, ter recuado.

Então fica aí a dúvida por que no dia 29 de junho, nessa conferência de imprensa, Sebastião Bugalho entrou com essa garantia de que iam ser chamados ex-governantes e que depois foi interpretado amplamente por ex-ministros.

Sim, eu acho que só o fato de aparecer no site do PSD dá pra perceber que não é uma interpretação abusiva dos jornalistas. Mas mais do que isso, nós não precisamos que o PSD nos diga que estamos a ler mal a notícia.

Não, e já agora, não é uma questão de validação jornalística, não é o PSD, obviamente, que vai fazer validação jornalística, mas nós sabemos muitas vezes que determinados responsáveis políticos, perante determinados fatos, e não só políticos, muitas vezes responsabilizam os jornalistas pela interpretação que fizeram das coisas. Neste caso, o próprio PSD fez a mesma interpretação.

Precisamente, e a comunicação do PSD, ou seja, foi o que eles quiseram comunicar nos canais próprios. E, portanto, é muito estranho que nessa altura não tenha sido logo feita uma correção do tiro. Onde é que isto ganha mais relevância? É porque, de fato, é a introdução de uma figura nova. Creio que desde os tempos de Marco António Costa que o PSD não tinha um porta-voz. Foi tudo sempre feito com o pressuposto de um alinhamento total e coordenação total, quer entre o governo, o grupo parlamentar do PSD, em particular o seu líder Hugo Soares, e o porta-voz Sebastião Bugalho. E aqui, naturalmente, que se identifica uma falha na cadeia, que pela forma como cada uma das partes foi assumindo esta questão, sendo que Sebastião Bugalho não se pronunciou sobre isto, fica, neste caso, o ônus da falha do lado do Sebastião Bugalho, porque as fontes do grupo parlamentar garantem que a ideia nunca foi aquela que o porta-voz acabou por vender, se me permite a expressão, quando fez aquela conferência de imprensa ao país no tal dia 29 de junho.

Rui, tu não revelando, obviamente, as tuas fontes, nem conteúdo de conversas que estão em off e portanto não podem ser reveladas Eu imagino que tu tenhas passado, pelo menos as últimas horas antes desta conversa, a falar com muita gente, sobretudo do Partido Social-Democrata, muita gente envolvida nesta história, direta ou indiretamente. Com que ideia é que tu ficaste? Houve aqui um excesso de intervenção de quem tinha um microfone e estava num púlpito? Houve um certo recuo por parte do PSD? O que se passou?

Desde logo, aqui sem dúvida nenhuma que a falha direta tem que ser imputada a Sebastião Bugalho, tendo em conta a versão dos factos que temos neste momento. Por quê? Ele disse aquilo e agora vai ser contraditado pelos factos, ou seja, ele anunciou uma coisa que não vai acontecer. Claro que poderia haver aqui algum sinal de recuo e que o ónus não estivesse nele. Onde é que esse sinal poderia acontecer? É o facto de não terem logo acorrido a emendar o tiro.

A desmentir ou a corrigir, ou fazer uma segunda.

Isso sabona a favor de Sebastião Bugalho, porque quem tem responsabilidade disto no grupo parlamentar só ao fim de nove dias é que vem dizer que afinal os ministros não vêm.

E não vem dizer em on, não vai dar uma conferência de imprensa dizer. Ou seja, só para as pessoas terem esta noção, Sebastião Bugalho faz o anúncio, o PSD replica esse anúncio, nove dias depois estamos a falar disto com fontes da bancada a dizer: "Não, mas isso nunca esteve previsto."

A única hipótese que existe aqui é alguém, dentro daquilo que é a estrutura de poder e de controle da informação no PSD, controle no sentido de agilizar a maneira como a informação sai, ter validado a Sebastião Bugalho ter dito aquilo. Mas se o próprio não o disser, o que está válido é que aquilo que ele disse não correspondia ao que na verdade vai acontecer, porque os ex-ministros não vão ser chamados. No limite, Pedro, vamos ver, por que o grupo parlamentar não exclui totalmente vir a chamar? Vamos imaginar que um antigo diretor do SEF aponta o dedo a um ex-ministro do PS.

Pois, claro.

Provavelmente vão ter que chamá-lo a seguir.

O problema é que responsabilidades diretas não estão nos ministros ou nos ex-ministros, estão noutras frentes e isso pode implicar depois, no decorrer do processo, que venham a ser chamadas outras personalidades, mas não é esse o objetivo inicial, aparentemente.

Precisamente, tu falavas das fontes, Pedro, e também falavas disto aqui antes de começarmos a conversa, que há uma fonte que diz: "Se Sebastião Bugalho tivesse parado no momento em que acaba a declaração, não tinha ido para fora de pé sobre quem seria chamado ou não". Na fase das perguntas, e nós somos jornalistas, temos que até de alguma forma elogiar os políticos que respondem às questões, mas foi nessa fase que ele acabou por falar de José Luís Carneiro, dos ex-ministros e, portanto, foi aí que acabou por ir mais à frente, porque se tivesse dito: "Olhe, eu agora não vou dizer nenhum nome, porque quem vai anunciar é o grupo parlamentar."

Portanto, foi ele que deu a notícia que entretanto agora não se confirma.

Exatamente, dos ex-ministros. Ele pode, de facto, ter sido enganado. Enquanto não o disser, não é isso que é válido. E de qualquer das formas, mesmo que no meio da coordenação da comunicação do PSD isso tenha acontecido, ali algum telefone estragado, na verdade, é ele o porta-voz, deu a cara e, portanto, é a ele que tem que ser imputada esta falha e no futuro, das duas uma: ou tem mais cuidado no momento em que fala, se não tiver essa informação, ou se tiver a informação, tem que defender a sua própria honra e dizer: "Era esta a informação que eu tinha", mesmo que isso tivesse acontecido, e nós não sabemos, essa parte da história que nos falta aqui a ligação, o que é que ele ia dizer? Ia dizer que foi enganado por um membro do governo? Foi enganado por alguém que o lidera?

O porta-voz do partido a dizer sobre o próprio partido.

Na verdade, também não há uma boa saída desta história. E vamos ver depois quais são os nomes que o PSD vai escolher, mas de alguma forma tinha sido até elogiada essa estreia de Sebastião Bugalho nessa primeira intervenção. Depois, nessa semana, também deu uma entrevista na RTP ao Vítor Gonçalves e acabou por também defender bem o PSD na questão das casas vazias de Grândola contra José Luís Carneiro. Agora, percebe-se que essa semana pode não ter corrido tão bem como parecia, porque este tiro dado ao PS, que era em força, era um ataque até bastante violento, porque quis chamar o líder de um partido adversário ao Parlamento para se justificar dos tempos em que era governante, afinal, não vai acontecer. E portanto, aqui acabou por ser a imagem do porta-voz que acabou por sair chamuscado.

Rui, obrigado.

Obrigado, Pedro.

Eu conversei com o editor de política do Observador sobre esta história de um anúncio público que não se concretizou. Ao final do dia de ontem, já depois de instalada a confusão, os partidos do governo entravam com o requerimento para as audições, onde se confirmam duas coisas: um, não há ministros nem secretários de Estado na lista, ou seja, não há ex-governantes, mas há um parágrafo que protege as declarações de Sebastião Bugalho quando se admite, numa fase posterior, ouvir responsáveis políticos governativos, ou seja, uma versão diluída de ex-governantes. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.