Os resultados do PISA 2025 constituem um alerta para Portugal. O recuo registado em Matemática e Leitura e a ausência de uma evolução significativa em Ciências mostram que persistem dificuldades nas aprendizagens e obrigam a uma reflexão sobre as condições que sustentam a qualidade do sistema educativo. Mais do que discutir exclusivamente resultados, importa perceber o que permite que uma escola ensine melhor, que os alunos aprendam mais e que os seus percursos se desenvolvam com sucesso.

Os dados recentemente divulgados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos/Pordata ajudam a olhar para este contexto. O estudo “Do pré-escolar ao doutoramento: mais alunos, fortes assimetrias e desafios ao longo do percurso educativo”, publicado a 7 de setembro de 2026, demonstra que a realidade educativa portuguesa não é homogénea e que existem diferenças territoriais relevantes nos percursos escolares, na disponibilidade de professores e nas condições em que a Educação acontece.

O Norte apresenta indicadores particularmente positivos. Nos cursos gerais do ensino secundário público, 81% dos alunos que iniciaram o percurso em 2020/21 concluíram-no nos três anos previstos, um resultado que evidencia uma capacidade significativa de assegurar continuidade e sucesso nos percursos escolares. Este desempenho ganha especial relevância num momento em que os resultados internacionais nos alertam para dificuldades nas aprendizagens e para a necessidade de reforçar a qualidade do sistema educativo.

Também a questão dos professores deve ocupar um lugar central nesta reflexão. A FFMS/Pordata evidencia profundas assimetrias territoriais na disponibilidade de docentes. A existência de professores qualificados, a estabilidade das equipas e a capacidade dos territórios para atrair, formar e fixar profissionais são hoje fatores determinantes da qualidade educativa.

O Porto parte, neste domínio, de condições particularmente favoráveis. A cidade e a região construíram ao longo de décadas um ecossistema de ensino superior público e privado com uma forte tradição na formação inicial de educadores e professores. Essa capacidade instalada mantém-se e constitui um ativo estratégico num momento em que a disponibilidade de docentes se tornou um dos principais desafios da Educação em Portugal. A proximidade entre instituições de ensino superior, escolas, investigação e formação permite ainda criar condições para uma relação mais estreita entre conhecimento, inovação pedagógica e prática educativa.

É neste contexto que o Porto deve olhar para a Educação não apenas a partir dos resultados que já alcança, mas sobretudo a partir das condições que reúne para fazer melhor. Uma cidade com uma forte rede educativa, capacidade de formação de professores, instituições de conhecimento e investigação e uma comunidade educativa diversificada dispõe de uma base particularmente sólida para assumir uma ambição de qualidade.

Essa ambição exige, contudo, uma conceção mais ampla de qualidade educativa. Uma boa escola não se define apenas pelos resultados académicos. Define-se também pela qualidade dos seus espaços, pela estabilidade das suas equipas, pela capacidade de acompanhar cada aluno, pelo envolvimento das famílias e pela existência de ambientes onde crianças e jovens se sintam seguros, reconhecidos e integrados.

É neste sentido que importa refletir sobre o conceito de segurança educacional. Não numa perspetiva securitária ou disciplinar, mas enquanto conjunto de condições físicas, humanas e relacionais que permitem reconhecer a escola como um lugar de proteção, confiança, estabilidade e desenvolvimento. A segurança educacional é uma condição da aprendizagem: alunos que encontram ambientes estáveis, adultos disponíveis e respostas adequadas às suas necessidades têm melhores condições para construir percursos escolares bem-sucedidos.

A esta dimensão deve juntar-se a coesão educacional. Numa cidade diversa, a escola é um dos principais espaços de encontro entre diferentes realidades sociais, culturais e económicas. A capacidade para criar pertença, envolver famílias, promover participação, prevenir ruturas e assegurar que as vulnerabilidades de partida não se transformam em desigualdades de chegada é, também ela, uma medida da qualidade de um sistema educativo.

Qualidade, segurança e coesão não são, por isso, dimensões separadas. Reforçam-se mutuamente. A qualidade dos espaços influencia o bem-estar; a estabilidade e disponibilidade dos profissionais favorecem relações de confiança; o acompanhamento dos alunos previne dificuldades; a participação reforça a pertença; e comunidades educativas mais coesas criam melhores condições para aprender e ensinar.

Os resultados do PISA devem servir como um alerta, mas também como um estímulo à ação. Num contexto nacional que exige novas respostas, os indicadores do Norte e as condições reunidas no Porto mostram que existe uma base sólida sobre a qual construir uma ambição maior.

O Porto tem a oportunidade de transformar estas condições numa estratégia educativa própria, orientada não apenas para responder aos problemas, mas para criar sistematicamente as condições que favorecem o sucesso. Uma estratégia que coloque no mesmo plano a qualidade das aprendizagens, a segurança e o bem-estar, a valorização dos profissionais, a equidade dos percursos e a coesão das comunidades educativas.