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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. No final de 1981, Ani telefona para a casa dos pais, na Rua de Moçambique. Quer convidar a mãe para ir passar umas férias com ela. Diz-lhe que falou com o Zé Manel, namorado e ministro do Interior, e que já está tudo combinado para que a Armanda fique 15 dias em Havana. Está a apontar para fevereiro ou março do ano seguinte. Só precisa de saber em que datas é que a mãe prefere ir. Como habitualmente, Armanda Palhota anota tudo no diário. Não fica propriamente entusiasmada com o convite, mas a Ani não vai deixar cair a ideia. No dia 20 de dezembro de 1981, envia-lhe um postal onde detalha todos os planos por escrito. O postal tem uma fotografia do Hotel Sierra Maestra, em Miramar, o bairro das embaixadas em Havana. Na imagem é possível ver as varandas e as janelas dos quartos, as duas piscinas e uma série de turistas a mergulhar ou apanhar banhos de sol. Explica Ani: "Já falei no meu trabalho e posso pagar-te a viagem de ida e volta. O José Manuel empresta-me ou oferece-te o dinheiro para a tua viagem. Como 15 dias é mais barato, falei em 15 dias. Ele está disposto a emprestar mais, se tu quiseres ficar cá mais tempo. O tempo que quiseres. Vou pedir férias. Agora depende de ti. Ou a fins de fevereiro ou a fins de março." Ani sabe que a mãe tem pânico de viajar sozinha. Num dos cantos do postal oferece-se até para ir buscá-la a Madrid. A única vez que a Armanda Palhota visitou a filha em Cuba foi no final de 1966 e apenas para a convencer a voltar para Portugal. Desde então, a mãe de Ani nunca mais ponderou sequer a hipótese de entrar num avião para Havana. Entretanto, deu-se o 25 de Abril, o marido foi preso e Ani passou várias temporadas em Lisboa. A convivência entre elas nunca tinha sido boa e ao longo desses períodos até piorou. Não havia motivo nenhum para a Armanda querer viajar para Cuba, nem para Ani a convidar para ir lá. Mas desde então passaram vários anos. As coisas mudaram. Ani está preocupada com a mãe, que está completamente sozinha em Lisboa. Apesar das circunstâncias, Armanda desconfia. Escreve no diário que nada daquilo lhe parece normal. Vai ter com a própria filha, mas apesar disso, assume que não se sente nada segura. "O Zé Manel empresta o dinheiro para as viagens e estada de 15 dias. Tratam de todos os papéis para a minha ida até Madrid ter com ela e depois até Cuba. Meu Deus, tenho medo." A este primeiro desabafo, segue-se outro. Armanda Palhota escreve: "Gente daquela ideologia é que matou o meu marido." Dois anos antes de Ani convidar Armanda para ir a Cuba, em julho de 1979, Fernando Silva Pais abandonou o Forte de Caxias. Já tinha sido dispensado de assistir ao próprio julgamento por razões de saúde. Agora, pelos mesmos motivos, foi-lhe finalmente concedida a liberdade provisória. O ex-diretor da PIDE está cada vez mais doente e frágil, mas isso não o isenta do cumprimento de algumas regras. É libertado mediante seis condições. Vai ter de se apresentar todos os meses no Quartel-General da Região Militar de Lisboa e mensalmente também vai ter de apresentar um relatório clínico. Tem de estar disponível para ir a tribunal sempre que for chamado, não pode sair do país, não pode dar entrevistas e não pode ter qualquer atividade política. Depois de cinco anos na prisão, está finalmente de regresso à Rua de Moçambique. Mas ao fim de poucos dias, o pai de Ani vai começar a sentir que foi libertado de uma cadeia para entrar noutra. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franky Chaves. Episódio seis: Cheguei tarde, que horror! Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites. Kia, movement that inspires. 14 anos antes, dezembro de 1963. Passam cinco anos desde que Humberto Delgado se candidatou às eleições presidenciais contra Américo Tomás e o general continua a ser um problema pra Salazar, mesmo estando exilado no Brasil desde 1959.
Um governo sem poder, um governo mentiroso, um governo que não perde um grande testemunho.
No dia 3 de dezembro, Silva Pais envia uma carta ao presidente do Conselho. "Temos de dar, sem demora, uma pancada forte em elementos das juntas patrióticas e outros, que se preparavam com a vinda quase certa do Delgado à Europa pra provocar agitação, com prováveis assaltos em vários pontos sensíveis." Meses depois, está em curso a Operação Outono. O inspetor António Rosa Casaco é chamado ao gabinete do diretor da PIDE. Vai ser responsável pela operação e vai ter uma brigada de três homens e todo o tempo de que precisar. O plano é complexo e implica conquistar a confiança do general sem medo. Na tarde de 12 de fevereiro de 1965, praticamente um ano depois, a brigada está finalmente pronta pra avançar. São dois os carros que saem de Lisboa. Num Opel verde e bege estão Casimiro Monteiro e Agostinho Tienza. Ernesto Lopes Ramos e António Rosa Casaco partem num Renault Caravelle. Há documentos falsos pros agentes e pros carros. Num dos porta-bagagens, há um garrafão, um saco com cal, uma picareta e uma pá. Antes de entrarem em Espanha, mudam as matrículas. A brigada da PIDE está prestes a encontrar-se com Humberto Delgado, mas o general acha que vai ter uma reunião política com opositores ao regime de Salazar. O encontro foi marcado por uma pessoa em quem Delgado confia. Um homem que vive em Itália e que se tem feito passar por um exilado próximo da oposição. Na verdade, é uma armadilha. A pessoa que Humberto Delgado conhece como Oliveira chama-se Mário de Carvalho e foi recrutado pela PIDE. Apesar de avisado dos riscos que corria pelas pessoas mais próximas, Humberto Delgado entra em Espanha na véspera do encontro com um passaporte falso da Argélia. Está desarmado, na companhia da secretária, Ara Jari Campos, que trabalha com ele desde os anos do exílio no Brasil. No dia seguinte, ambos vão entrar num carro, mas em vez de serem levados a uma reunião clandestina, vão ser conduzidos a uma emboscada. O carro para à beira da estrada em Olivença, no local combinado com o resto da brigada da PIDE. É o agente Casimiro Monteiro quem se dirige ao general. Levanta um revólver de fabrico francês com silenciador e dispara. A secretária tenta ajudá-lo, mas também morre no local. Colocados na mala de um dos carros, os corpos são abandonados a sul de Villanueva del Fresno, a 30 km dali. São regados com ácido sulfúrico e cal viva, e tapados com ramos de árvores e pedras. As roupas e documentos são queimados noutro local. Informado de que o general Humberto Delgado foi morto em Espanha, Silva Pais toma uma decisão: ninguém pode dizer uma palavra sobre o que aconteceu em Olivença e as provas têm de ser imediatamente destruídas.
Encontrados em Espanha três cadáveres, um deles apresentando certos elementos de identificação que teriam levado a concluir tratar-se do senhor Humberto Delgado, desaparecido.
Dois meses depois, quando os corpos são encontrados A notícia que chega à redação da RTP vem com uma nota: assunto a não tratar. Até que um dos homens mais próximos do general no exílio acusa o Partido Comunista de ser responsável pelo assassinato e o regime aproveita. Essa passa a ser a versão oficial. Os opositores de Salazar não se entendem e Delgado foi vítima disso. Com o 25 de abril, a versão oficial do Estado Novo cai por terra e a Judiciária abre um processo para investigar as circunstâncias da morte de Humberto Delgado. No dia 11 de outubro de 1977, a acusação é finalmente conhecida e o ex-diretor da PIDE é acusado de 17 crimes, entre eles, a autoria moral do homicídio de Humberto Delgado e Arajarir Campos. Nos interrogatórios da polícia, Silva Pais garantiu sempre que o objetivo da PIDE nunca foi matar o general, mas sim raptá-lo. Reconheceu também que sem a autorização de Salazar, a missão nunca teria ido avante, mas garantiu que o presidente do Conselho pediu muito cuidado. O historiador Duncan Simpson, especialista na PIDE/DGS, considera que uma operação deste gênero dificilmente poderia ter sido posta em prática sem o conhecimento do próprio Salazar.
Uma operação tão sensível, potencialmente tão importante nas suas consequências, não imagino, quer o Silva Pais, quer o Barbieri Cardoso, que era o subdiretor da PIDE na altura, não acredito que fossem organizar uma tal operação sem que o Salazar tivesse aprovado esta operação.
Só no dia 9 de outubro de 1978, quatro anos depois da prisão do ex-diretor da PIDE, é que o julgamento começa no Segundo Tribunal Militar Territorial de Lisboa. Silva Pais nega ter participado como autor moral ou como cúmplice nos dois homicídios. Repete que o objetivo da missão era apenas atrair Humberto Delgado para o território português. Há duas sessões semanais, mas passados 15 dias, o estado de saúde físico e psíquico de Silva Pais piora visivelmente e uma junta médica recomenda que seja dispensado das presenças em tribunal. Em julho do ano seguinte, o julgamento ainda dura e a saúde do ex-diretor da PIDE continua a degradar-se. É nessa altura que, por um dever de humanidade, Silva Pais vê finalmente ser lhe concedida a liberdade provisória. Uma semana depois de o marido sair da prisão, Armanda escreve à Ani para lhe dar a notícia. Registra no diário que o mais certo é que a carta dela chegue tarde demais. Vasco Lourenço está de partida pra Havana. De certeza que vai ser ele a contar a novidade à filha. É o que acontece. O telefone toca na casa dos Silva Pais no dia 25 de julho. São 11h da manhã. Ani está eufórica com a notícia. Os dias em casa com que Fernando e Armanda tanto sonharam nos últimos anos tornam-se rapidamente um pesadelo. São episódios atrás de episódios apontados nos diários. Silva Pais nunca foi homem de estar em casa, escreve a mulher. Mas isto é outra coisa. O marido está com atitudes que a preocupam. Passa os dias sem fazer nada. A rotina de ler e escrever que tinha na prisão desaparece. Tanto está apático e sem reação e passa o tempo a alinhar comprimidos, como se mostra irritadiço. E começa a virar-se contra Armanda. Um dia, a mulher chega a escrever que ele lhe deu um coice. Às vezes recebem visitas. Silva Pais aproveita para se queixar. Diz que está mais magro por causa das preocupações domésticas e que saiu de uma prisão pra outra. Armanda fica estupefacta. Escreve no diário que está estourada, que o marido nem sequer faz nada em casa e que começa a ter medo de enlouquecer por estar ali fechada com ele. O verão está a ser difícil pra Silva Pais. O calor não ajuda. Tem a tensão a subir e dores no peito. O médico sugere que vá de urgência ao hospital. Já não volta pra casa nesse dia. Quando Armanda o visita, comunicam-lhe que o marido teve um pequeno enfarte. Silva Pais está com mau aspecto, pálido e cheio de olheiras. Emagreceu muito, 4kg num mês. Está a pesar apenas 55. No fim de agosto, depois de mais de duas semanas internado, recebe alta do hospital, e uma ordem: tem de ficar de cama durante os próximos três meses. Dias depois, Armanda apanha um susto. Está na cozinha a ler uma carta quando o sente chegar. Silva Pais diz que está a sentir-se mal. Cai desjoelhos. A mulher corre pra ligar ao médico e, antes de chegar ao telefone, ouve um grande estrondo. O marido está estendido no chão. Desta vez acaba por não ser hospitalizado, mas mantém o mau humor. Reclama com tudo, principalmente com a disposição da casa. Não consegue andar sem tropeçar nos móveis. E volta a fazer comparações com a prisão. Quando no dia 7 de outubro de 1979, fala ao telefone com a filha, o ex-diretor da PIDE não contém o choro. Queixa-se de que está doente, não tem apetite, mal come e anda sempre cansado. No último dia de 1980, são 10h da manhã, quando alguém toca insistentemente a campainha da casa dos Silva Pais. É a Ani. Acaba de chegar a Lisboa de surpresa. Armanda escreve no diário que vem muito boa, mais nova, e desabafa: "Agora que estamos aqui os três, à espera de um novo ano, que seja melhor do que este, que foi tão infeliz". No início de janeiro de 1981, a família reúne-se pra celebrar o aniversário do filho de Madalena Nita Palhota, sobrinha dos Silva Pais.
E eles foram lá almoçar. A Ani estava cá por acaso, na altura, porque ela foi lá a casa a esse almoço. Ele já tinha estado internado há algum tempo. Depois tinha saído do hospital e estava já velhote, já estava muito em baixo.
No dia 23 de janeiro, o ex-diretor da PIDE é internado novamente. São dias difíceis. Durante as visitas, a mulher encontra-o muito abatido e com a fala ainda mais cansada. Transpira muito e está a receber oxigênio. É diagnosticado com uma broncopneumonia e o som que faz ao respirar traz a Armanda recordações terríveis. Visita-o pela última vez ao final da tarde de 26 de janeiro de 1981. No dia seguinte, logo pela manhã, o telefone toca no apartamento da Rua de Moçambique. É do hospital. Fernando Silva Pais morreu à 1h da manhã com um enfarte no miocárdio. Ani ainda está em Portugal. É ela quem organiza o funeral do pai na Basílica da Estrela. No enterro, por ter sido major do Exército, Silva Pais tem direito a honras militares e são disparadas quatro salvas de tiros. A urna, coberta pela bandeira nacional, é depositada num jazigo do Cemitério do Alto de São João. 8 de julho de 1982. A sentença pelo homicídio de Humberto Delgado é finalmente conhecida. Passam mais de 17 anos dos assassinatos do general e da secretária Ara Jadir Campos. O próprio Silva Pais morreu há um ano e meio, e a maior parte dos que agora são condenados fugiram há muito tempo do país. Foram julgados à revelia e, por isso, nunca hão de passar um único dia na cadeia. Casimir Monteiro é considerado o autor material do duplo homicídio e condenado a mais de 19 anos de prisão. Rosa Casaco, o inspetor responsável pela brigada especial da PIDE que executou a Operação Outono, recebe uma pena de oito anos por crimes de falsificação e furto de documentos. Ernesto Lopes Ramos e Agostinho Tienza são ambos condenados a 14 meses de cadeia por uso de identidade falsa. Tienza é o único que está em Portugal, mas o tempo que passou em prisão preventiva é suficiente para que a sentença seja dada como cumprida. Fernando Silva Pais, que passou cinco anos na cadeia depois do 25 de abril, foi ilibado da autoria moral do homicídio. Segundo o tribunal, o ex-diretor da PIDE esteve apenas envolvido numa tentativa de raptar Humberto Delgado para o trazer para Portugal. Ao longo dos últimos anos, Ani tem começado a ter sinais de que algo não está bem. Primeiro repara que está mais magra, depois tem muita tosse. "Pareço a Dama das Camélias", chega a desabafar numa carta enviada a Maria Virgínia, a mulher do embaixador José Fernandes Fafe, que agora está colocada no México. A personagem do romance oitocentista de Alexandre Dumas filho, sofria de tuberculose, daí estar constantemente a tossir. Mas Ani há de ser diagnosticada com outra doença. Em setembro de 1988, Armanda sabe por uma amiga de Ani que a filha foi internada no hospital quando chegou de uma viagem de trabalho à Coreia do Norte. Vai ter de ser operada de urgência a um nódulo na mama. Ani tem cancro e começa a fazer sessões de radioterapia. Rui Ferreira sabe da novidade durante um jantar em casa de Ani.
Ela me chama lá à casa e a certa altura diz-me: "Olha, tenho uma notícia que te dar. Eu estou doente e não vou andar aqui por muito tempo". Eu fiquei cilindrado, comecei a chorar. Ela foi à cozinha, trouxe-me um copo de rum e disse: "Porta-te como um homenzinho", porque a partir desse dia decidimos que eu telefonava todos os dias, acho que por volta de meio-dia.
Em Lisboa, Armanda percebe que a situação é grave quando recebe uma chamada do embaixador português em Cuba. Carlos Neira disponibiliza-se para ajudá-la a visitar a filha em Havana. No final de janeiro de 1989, a mãe de Ani volta a viajar no Lusitânia Expresso para Madrid, onde vai apanhar o avião para Cuba. Passa a noite inteira no comboio e está tão preocupada que pela primeira vez na vida, dorme com maquiagem. Quando finalmente chega a Havana, percebe que a filha não está tão mal como temia. Nos últimos meses, desde a operação, Ani tentou retomar a vida normal. Voltou ao trabalho e até já fez várias viagens para o estrangeiro.
Ela ainda trabalhou uns meses e depois fazia as traduções em casa.
Compra uma cabeleira postiça e usa um sutiã acolchoado para esconder as marcas da doença. E a 14 de fevereiro, recebe em casa o ramo de flores que o namorado Zé Manel lhe envia para assinalar o Dia dos Namorados. Quando Armanda regressa a Lisboa, em março de 1989, tudo indica que a filha está melhor. Em maio, Ani viaja em trabalho para o Zimbábue e em junho tem mais um serviço, mas na Holanda. Depois, a 1 de agosto, chega a Lisboa um telegrama que muda tudo. Ani conta à mãe que piorou. Anda a soro e a ser tratada com ultrassons e vai ter de passar dois ou três meses numa casa de repouso. O prognóstico é mau e vai piorar ainda mais. Em novembro, a amiga Júlia Calzadilla, também tradutora para o regime cubano, liga à Armanda. Ani está muito mal. A mãe deve ir para Cuba o mais rapidamente possível. Os voos estão cheios. Apesar de estar a ser ajudada pelas autoridades portuguesas e cubanas, Armanda só consegue viagem para Havana daí a uma semana. Dois ou três dias depois, alguém toca a campainha de madrugada. Armanda tem de estar pronta para sair de casa dentro de uma hora. É uma ótima notícia. Conseguiram uma viagem para Cuba. Dentro de algumas horas vai poder estar com a filha. Mas contra todas as expectativas, a mãe de Ani recusa A filha está doente e a precisar dela, mas Armanda exige alguma ordem. Não sabia que era para partir naquele dia. Ninguém a avisou. Por isso não tem tempo para se preparar. É impossível.
Para a minha tia, que era uma pessoa extremamente organizada, mas que tinha que ser tudo feito com muita antecedência, ter que embarcar, ser avisada que a filha está doente e 10 dias depois chegar a Cuba, devo lhe dizer que é um feito inédito. Para nós, se calhar não era. A minha tia tinha que programar com 10 dias de antecedência ou 15 dias, ou um mês, porque tinha que ter a roupa, o cabelo, as unhas, tudo direitinho, deixar tudo programado em casa. Essa história é verdadeira. Acho que foi alguém da embaixada de Cuba que queria que ela embarcasse dois dias antes e ela disse que não, porque ela tinha que deixar tudo organizado, tinha a minha senhora que ia lá de vez em quando. As pessoas são como são.
Só no dia previamente combinado, 9 de dezembro, é que Armanda Palhota voa finalmente para Cuba. É a amiga da filha, Júlia Calzadilla, que a vai buscar ao aeroporto e a leva ao hospital. Conta-lhe que a Ani tem uma coisa horrível na coluna devido à operação. Mal consegue dormir, tem muitas dores, grita e diz que quer ir para casa. Armanda anota no diário: o que vale à filha são os amigos tradutores que fazem turnos para a acompanhar nos tratamentos matinais e nunca a deixam sozinha. Nesta altura, José Paulo Fafe já não está a viver em Havana, mas chega a levar-lhe medicamentos do México para Cuba.
A minha mãe, uma vez eu estava no México com eles e eu continuava a ir muito a Cuba, e pediu-me para levar uns remédios a ela. Não sabia que ela estava doente, mas sentia já muito deitada abaixo, fisicamente deitada abaixo, depois percebi. E estive com ela em casa dela, foi a última vez que eu entrei em casa dela.
1989 foi um ano particularmente difícil, com a doença de Ani e a prisão de Zé Manel. Mas finalmente está a chegar ao fim. Armanda assina um termo de responsabilidade para que a filha possa sair do hospital e festejar o Réveillon em casa. No diário, escreve que a Ani se mostra melhor quando tem visitas e que piora quando ficam as duas sozinhas. Nem a doença faz com que mãe e filha se deem bem. Rui Ferreira recorda-se dessa fase.
Ela sempre teve uma noção clara da doença que tinha. Os cubanos não lhe ocultaram. Ela tinha na porta da casa de banho para fora, para o quarto, um espelho do corpo inteiro. Ela deve ter visto, olhado para o espelho e visto aquela imagem deteriorar-se. Isso teve um impacto. Ela estava muito em baixo.
No dia 27 de março de 1990, depois de quase quatro meses junto de Ani, Armanda regressa a Portugal. Regista no diário que a filha fica à porta de casa, triste a vê-la partir. Em junho, Ani escreve a dizer que a mãe lhe faz imensa falta e que quer regressar a Portugal em agosto ou setembro, se tudo correr bem. Ani liga para Lisboa e pede à mãe que a vá esperar a Madri no dia 23 de junho. Está tudo preparado. Vai voltar a casa. Mas essa viagem nunca vai chegar a acontecer. Os médicos de Ani proíbem-na de viajar. Dias depois, Armanda recebe um novo telefonema da Embaixada de Portugal em Cuba. É urgente que viaje para Havana. A filha está a piorar a cada hora que passa. A mãe de Ani queixa-se de que tem pouco dinheiro e quer levar uma pessoa amiga. Recorda que as últimas viagens foram pagas pelos cubanos e o embaixador português descansa. O procedimento será o mesmo. Não tem que se preocupar com nada. São três horas da madrugada de 8 de julho e Armanda já está levantada. Sai de casa às 6h30. Adelino Tinoco, ex-inspetor da PIDE, um dos poucos que nunca abandonaram a família Silva Pais, acompanha-a. Membros da representação cubana em Lisboa levam-nos até ao Aeroporto da Portela. Armanda costuma fazer a primeira parte da viagem até Madrid de comboio. Desta vez não há tempo a perder. Ani está muito mal, por isso vai de avião. Mas na capital espanhola, Armanda e Adelino Tinoco são impedidos de embarcar. Como o voo faz escala no Canadá e não têm visto, nessa noite vão ter de ficar a dormir em Madrid. Só no dia seguinte é que conseguem seguir viagem. E quando chegam ao aeroporto de Havana, com 24 horas de atraso, não têm ninguém à espera para os receber. Batem à porta de casa de Ani, mas também não está ninguém. É uma vizinha quem diz a Armanda que a filha está internada há três dias no Hospital Hermanos Ameijeiras. Não é longe, fica a pouco mais de 10 km dali, no bairro San Lázaro. Menos de uma hora depois, Armanda está finalmente à cabeceira da cama da filha. Mas quando se aproxima, Ani não reage. Está inconsciente. Armanda vai visitá-la todos os dias. Por vezes, Ani entreabre os olhos, mas é incapaz de articular qualquer palavra. Está fortemente sedada, a receber morfina. Os amigos continuam a fazer turnos, não a deixam ficar sozinha no hospital. Há sempre alguém com a Ani, até durante a noite. É justamente a amiga que estava a fazer companhia à filha na madrugada do dia 13 de julho de 1990, que liga para Armanda. Faltam poucos minutos para as 3:00. Ani Silva Pais acaba de morrer. Tinha apenas 54 anos. Pouco depois de saber que estava doente, Ani tinha feito um testamento. Ao último namorado, José Manuel Abrantes Fernandes, deixou todos os retratos dela. Mas nesta altura, Zé Manuel já está na prisão. Foi condenado a 20 anos de cadeia por envolvimento no caso Ochoa. Nunca há de receber as fotografias de Ani. E dentro de seis meses, também ele estará morto, depois de ter um ataque cardíaco na prisão. Armanda vai regressar a Lisboa sem o corpo da filha. Ani escolheu não apenas viver em Cuba, mas também ser enterrada em Cuba. Vai ficar na ilha para sempre. Em 2001, aos 89 anos, Armanda Palhota há de morrer em casa, sozinha. Aquilo que sentiu naquela tarde de julho de 1990, quando finalmente conseguiu ver a filha depois de uma última e atribulada viagem até Havana, ficou para sempre conservado num dos muitos diários que escreveu. "Já não era a minha filha quando a vi. Carinha mirrada, cabelo liso, boca fininha. Nunca sequer abriu os olhos quando eu repetia: sou a mamã. Cheguei tarde. Que horror!" "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chaves. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Prainha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt.
