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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A morte do presidente iraniano abre a porta a uma nova revolução no país? O presidente do Irão, Ebrahim Raisi, e o ministro dos Negócios Estrangeiros do país morreram este domingo. As primeiras informações oficiais falavam de uma paragem forçada do helicóptero onde seguiam na região do Azerbaijão Oriental, mas o regime passou depois a falar num acidente. Foi aberto, entretanto, um inquérito para apurar as causas da queda do aparelho. Ebrahim Raisi tinha 63 anos e tinha sido eleito presidente em 2021. Sob o seu mandato, o regime endureceu as leis da moralidade e enfrentou grandes protestos, aos quais respondeu com uma forte repressão contra o regime depois de Mahsa Amini, uma mulher de 22 anos, ter sido morta sob custódia policial. Recentemente, ordenou o primeiro ataque militar direto contra Israel. Síria, Líbano e Paquistão declararam dias de luto pela morte de Raisi. Em comunicado, o aliado Hamas lamentou a morte do presidente iraniano. Quem poderá suceder a Ebrahim Raisi? E o que significa esta morte na geopolítica mundial? Vou falar com a Cátia Bruno, editora de internacional do Observador. Eu sou a Teresa Abecasis e esta é a história do dia de terça-feira, 21 de maio. Bem-vinda, Cátia.
Olá, Teresa.
Cátia, o que se sabe sobre este acidente que matou o presidente iraniano?
Sabemos que na tarde do passado domingo houve um acidente, quando um helicóptero se despenhou numa zona do Irão perto da fronteira com o Azerbaijão, e a bordo desse helicóptero seguiam o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amirabdollahian. Espero ter conseguido dizer bem.
Não é fácil.
Não. Estas pessoas, obviamente, não eram os únicos a ir a bordo, mas eram as duas figuras de maior relevo dentro da estrutura do Estado do Irão. Apesar de as buscas terem continuado ao longo dessa noite, só no dia seguinte, na segunda-feira, surgiu a confirmação de que tanto o presidente como o ministro tinham, de facto, morrido. A explicação avançada para o acidente está relacionada, sobretudo, com o mau tempo, era uma zona onde estava muito nevoeiro, a visibilidade era muito difícil, mas apesar de tudo, foi aberta oficialmente uma investigação, até porque dentro do Irão, por exemplo, têm circulado já muitas teorias, muita gente que diz: "Isto provavelmente teve mão humana". Há quem aponte o dedo a países estrangeiros, como Israel, que já fez algumas missões em território iraniano, embora não com chefes de Estado, mas sim com outro tipo de cidadãos. E também quem diga: "Bom, pode ter sido um golpe de dentro, de alguém que não gostaria de Raisi". Por enquanto, aquilo que sabemos é que o mau tempo é a primeira suspeita.
E quem era Ebrahim Raisi? Falava-se dele como um possível sucessor para o aiatolá Ali Khamenei, que detém o poder supremo no Irão.
Sim, o aiatolá neste momento tem 85 anos, teve um cancro há cerca de 10 anos, a sua saúde é frágil e, portanto, dentro da própria estrutura do Estado teocrático do Irão, começa a pensar se o próprio aiatolá já começou a pensar em como garantir que o seu sucessor se manterá dentro da linha que o regime considera que é a que respeita os princípios da revolução islâmica. E neste processo, Raisi tinha sido nomeado candidato à presidência, num processo em que o candidato tem que ser escolhido por um grupo, uma assembleia que inclui vários clérigos, e todos os candidatos mais moderados foram afastados. Raisi acabou por ser o último nome que restou e que depois foi candidato à presidência e acabou por ser eleito numas eleições muito pouco participadas. O facto de ele ter sido escolhido para presidente indicou que, tendo em conta a idade que o aiatolá Khamenei tem neste momento, ele poderia ser um dos sucessores para o cargo de líder supremo quando Khamenei morresse. Embora não fosse o único apontado, era claramente o favorito, até porque era uma figura que não questionava propriamente nenhuma das ideias do aiatolá.
Ebrahim Raisi era presidente do Irão desde 2021. Durante o seu mandato, o país enfrentou uma das maiores revoltas populares desde a revolução de 1979. Como é que era o presidente Raisi?
Um presidente conservador, dentro da linha Dentro da linha da revolução islâmica, ainda mais conservador do que outros. Foi um presidente que ordenou que os grandes protestos que se viveram depois da morte da jovem que se recusou a usar o lenço islâmico.
A Mahsa Amini.
Mahsa Amini, exatamente. Eclodiram esses protestos, duraram durante meses e com Raisi, o que aconteceu foi uma repressão muito dura sobre esses manifestantes, uma tentativa de esmagar por completo essas manifestações e acabou por consegui-lo. E ainda hoje, embora não haja manifestações, o regime tem levado a cabo muitas execuções de pessoas que fizeram parte desses protestos. O número de execuções com a presidência de Raisi aumentou muito e o Irão já era um país onde havia algumas execuções por ano, agora já foram mais de 500 no último ano. Portanto, era um presidente de linha dura, digamos. Mas era também um presidente que muitos diziam não ter grande carisma, não era uma figura que conseguisse inspirar pelos seus discursos. Era, sobretudo, visto como o braço do aiatolá no terreno. Era o braço direito que aplicava a política que o aiatolá Khamenei desejava, e que aplicava sem questionar e sem levantar grandes ondas.
Falaste de alguns movimentos de revolta que surgiram durante o seu mandato. A morte de Raisi pode trazer instabilidade para o Irão?
Sem dúvida. O Irão já está a viver um momento de instabilidade, porque não só tivemos os protestos, como o país vive uma crise econômica muito profunda. A inflação tem estado acima dos 40% há bastantes meses e, portanto, há muito descontentamento com a situação econômica. Há também um alheamento da maior parte das pessoas da própria situação política desde que os protestos foram reprimidos. A maior parte das pessoas retirou-se, a sociedade civil desapareceu. A prova disso é que tivemos ainda há pouco tempo eleições para o Parlamento iraniano e a participação eleitoral foi baixíssima. E o Irão, o regime dos aiatolás gosta de mostrar boas participações eleitorais e geralmente tem-nas, isto é verdade. Há bastante participação eleitoral normalmente no Irão e não tem sido o caso agora, o que é um sintoma de talvez receio, talvez medo, talvez descontentamento, certamente descontentamento. Com a morte de um presidente, tudo isso abre sempre a porta a um possível regresso de protestos. E, portanto, o regime certamente tem receio que ao assistir-se a um vácuo, a população reaja. Por outro lado, temos a questão internacional. O Irão está numa situação de confronto mais declarado com Israel do que alguma vez esteve. A primeira vez que houve um ataque direto a partir de território iraniano para Israel. Embora essa situação tenha acalmado um pouco, ela continua a existir. A guerra em Gaza prossegue, o Hamas é apoiado pelo regime iraniano, o Hezbollah também, e portanto qualquer alteração no regime do Irão pode ter repercussões muito profundas em todo o Médio Oriente. E a partir do momento em que há uma teocracia onde há um líder eleito dentro de uma estrutura que tem muitas condicionantes para que haja essa eleição, morre, de repente, numa altura em que também o aiatolá já tem 85 anos, há aqui um conjunto de fatores que torna a situação muito instável, como dizias.
Já voltamos à conversa com Cátia Bruno, editora de internacional d'O Observador. Na segunda parte, olhamos para a influência política do Irão no Médio Oriente e também na geopolítica internacional e também para o sucessor de Raisi. Regressamos à conversa com Cátia Bruno, editora de internacional d'O Observador. Cátia, nas reações à morte de Ebrahim Raisi, há algumas que se destacam. A Síria, o Líbano, o Paquistão decretaram dias de luto. O Hamas emitiu um comunicado onde lamentava a morte de Raisi. Qual é que é o papel do Irão nesta política regional?
O Irão exerce aquilo a que o próprio aiatolá Khamenei chamava a exportação da revolução islâmica, ou seja, a ideia de que foi instalado um regime islâmico no Irão e que esse deve ser, na visão do aiatolá Khamenei, devia ser o sistema que a maior parte dos países no Médio Oriente também deviam seguir. E, portanto, na sua lógica, também de certa forma influenciada por um espírito da época, a revolução foi em 79, criou-se esta ideia da exportação da revolução. Ou seja, o Irão tem de promover as ideias de repúblicas islâmicas noutros locais. Ora, isso deixou de ter uma conotação tão ideológica, digamos assim, e passou a ter uma aplicação muito concreta em termos geopolíticos. O Irão, e nomeadamente as Forças Quds, que são uma parte do exército iraniano, dão treino, fornecem armamento e coordenam-se com várias milícias que existem em diferentes países do Médio Oriente. Curiosamente, alguns deles, aqueles que tu Referiste na tua pergunta que decretaram dias de luto nacional e isso não é por acaso. Temos o Hezbollah no Líbano, temos o Hamas em Gaza, temos também milícias na Síria e no Iraque. E todos esses grupos contam com um apoio, mesmo que não seja aberto e declarado, mas um apoio que todos sabem que existe do Irão, e funcionam como uma espécie de representantes do Irão nos conflitos em que o Irão não quer entrar diretamente, mas tem interesse a defender. Juntamos a isso também os Houthis no Iémen. E todos estes grupos têm acabado por se envolver mais desde que começou a guerra em Gaza. Enquanto o Irão se mantinha mais na sombra, todos estes grupos acabaram por agir por ele, digamos assim. Tivemos os Houthis no Mar Vermelho a sequestrar navios, temos o Hezbollah a atacar Israel pelo norte, temos, obviamente, o Hamas. E o papel do Irão é muito maior, que já não seria apenas um dos maiores países da região.
Há bocado referiste até que foi durante o mandato de Raisi que foi também levado a cabo o primeiro ataque sobre território israelita. Isso também foi significativo.
Podemos estar perante um período de transformação até da própria lógica que até aqui existia. As últimas eleições no Parlamento e para o Conselho dos Guardiões acabaram por ver a entrada de muitos membros novos, mas muitos membros radicais, e quando digo radicais é num sentido ainda mais conservador em termos islâmicos e muito anti-Israel e anti-Estados Unidos, o pequeno Satã e o grande Satã, são essas as expressões usadas. Há também como que uma pressão sobre as próprias lideranças, sobre o Aiatolá e também sobre o presidente, que agora já não é presidente, para que respondam de uma forma mais contundente à situação em Gaza e podemos estar a assistir a essa transformação, agora complicada aqui com uma morte.
E a nível internacional, o Irão apoiou a Rússia na guerra com a Ucrânia e tem também relações muito próximas com a China.
Sim, o Irão orienta a sua política externa, sobretudo, numa lógica de considerar os Estados Unidos o seu principal inimigo, e Israel é como se fosse o representante dos Estados Unidos e de uma forma de vida ocidental no Médio Oriente e que choca com a ideia de conseguir a revolução islâmica na região. Tendo em conta estes objetivos mais latos, o Irão tem feito uma série de alianças estratégicas com aqueles que vê como sendo os inimigos do Ocidente e numa lógica de o inimigo do meu inimigo, meu amigo é.
Tem o inimigo em comum, que é os Estados Unidos.
Daí o apoio à Rússia e o apoio do Irão à Rússia nos últimos tempos tem sido muito importante para a Rússia. O fornecimento de drones tem garantido à Rússia uma capacidade de manter um nível de ataque na Ucrânia que talvez sem esses drones não tivesse capacidade de produzir armamento suficiente para manter esse nível de intensidade na guerra, e mantém relações próximas com a China por também precisar de procurar fontes alternativas económicas para poder sobreviver. Não nos podemos esquecer que o Irão está isolado por causa das sanções norte-americanas. Está, por exemplo, desligado do sistema Swift, no sistema bancário, tem muitas restrições a importações de imensos materiais e a relação com a China é quase uma necessidade de sobrevivência.
O Irão é um país com programa nuclear. O antecessor de Raisi, Hassan Rouhani, tinha negociado um acordo nesta área com os Estados Unidos, mas Raisi reforçou o programa. O que é que se sabe, neste momento, sobre o programa nuclear do Irão?
Não sabemos os detalhes, mas sabemos que ele existe e que está a ser melhorado. É muito interessante porque o acordo que suspendia o programa nuclear iraniano e que Rouhani tinha assinado com a administração de Barack Obama e com a administração de vários países europeus, pôs um travão nesta produção de programa nuclear e com a decisão de Donald Trump de sair do acordo, o Irão ficou numa posição um pouco incerta sobre se conseguiria levar para frente esse programa ou se teria interesse em levar para frente esse programa sem os Estados Unidos estarem nele. E com a chegada ao poder de Raisi, isso acabou, porque Raisi é um presidente muito mais radical do que o Rouhani. Rouhani é considerado um moderado dentro da lógica do regime teocrático de Teerão. E como radical, disse: "Se os Estados Unidos saíram, nós não temos nenhuma razão para continuar nisto". E não só rasgou o acordo, como reiniciou o programa nuclear. É difícil sabermos em que ponto está, porque obviamente não há inspeções do estrangeiro que vejam no terreno em que ponto está o desenvolvimento de armamento nuclear, mas sabemos que ele está a avançar, pelo menos os serviços de informação de vários países notam isso. Os próprios iranianos já mostraram, por vezes, algumas das suas fábricas, alguma da sua tecnologia, através dos media. E vemos como, por exemplo, a retaliação recente de Israel ao ataque iraniano foi precisamente não sobre uma estrutura militar, mas sim sobre um local que estaria a ser usado para desenvolvimento desse programa nuclear.
Quem é que poderá vir a ser o sucessor de Raisi?
Neste momento temos um presidente interino e teremos eleições no prazo de 50 dias. Não é certo qual será o nome que virá a concorrer a eleições, mas começam a surgir aqui algumas hipóteses que ganham uma particular relevância por ser não apenas uma escolha para presidente, mas muito provavelmente por ser também indiretamente uma escolha para suceder ao próprio aiatolá Khamenei como líder supremo, porque como ele tem 85 anos e é certo que nos próximos anos, na próxima década, década e meia, duas décadas, esta questão da sucessão irá colocar-se. Portanto, quem for o presidente na altura, muito provavelmente pode vir a ser chamado, pelo menos era esse o plano que estava em marcha para acontecer com Raisi, para ser chamado para o cargo de líder supremo. E aí temos um segundo nome que surgia muitas vezes em alternativa a Raisi e que ganha agora aqui um outro fôlego, que é Mohsen Khamenei.
Que é o filho do atual aiatolá.
É um dos filhos, é o segundo filho e que já há muito se fala dele poder alimentar este desejo de vir a tornar-se líder supremo do Irão. Ele tem algumas qualificações para isso, no sentido de que é um clérigo xiita, mas curiosamente até há pouco tempo não tinha o título de aiatolá, o que seria obrigatório para ser líder supremo. Parece que isso pode ter mudado entretanto. Mas ele também tem as ligações certas, no sentido em que é muito próximo da Guarda Revolucionária, portanto, é um tipo de linha dura que irá seguir a mesma lógica que o regime tem neste momento, mas tem, ao mesmo tempo, um problema e que pode ser o calcanhar daqueles que faz com que tudo isto mude, que é o facto de ser filho do próprio aiatolá. E isto é muito importante porque o regime teocrático do Irão sempre se quis afirmar como um regime islâmico que o poder assentava no poder teocrático e não num poder monárquico ou dinástico. E quando temos aqui o filho do atual aiatolá a surgir como possível sucessor, podemos estar a assistir a uma transformação do próprio regime iraniano. E se isso será aceito ou não pelos restantes clérigos, se será aceito ou não pela população iraniana, que já provou no passado que sai à rua em peso se estiver descontente, tudo isto deixa o Irão numa situação imprevisível e instável, cujo resultado final nós não conseguimos antever.
Obrigada, Cátia.
Obrigada eu.
Cátia Bruno é jornalista e editora de internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou a Teresa de Cassis. Até amanhã.