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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Zohran Mamdani é uma inspiração para a esquerda portuguesa?

"If anyone can show a nation betrayed by Donald Trump how to defeat him, it is the city that gave rise to him. And if there is any way to terrify a despot, it is by dismantling the very conditions that allowed him to accumulate power. This is not only how we stop Trump, it's how we stop the next one."

No discurso de vitória, depois das eleições mais concorridas das últimas décadas, que lhe deram mais de 50% dos votos para a Câmara de Nova York, Zohran Mamdani enfrentou o presidente norte-americano ao dizer que este resultado não é uma forma de parar Trump, mas sim de parar o próximo. Sublinhou a ideia de que a cidade que o fez crescer mostrou como se pode derrotar Donald Trump. De resto, essa mesma noite eleitoral foi de vitórias para o Partido Democrata, tanto a nível local como estadual, numa altura em que as taxas de aprovação dos norte-americanos em relação ao presidente estão em queda. Aos 34 anos, Mamdani tornou-se no primeiro presidente da câmara muçulmano em Nova York, tendo feito uma campanha focada no custo de vida. Entre as propostas que seriam financiadas com aumento de impostos sobre os mais ricos, estão transportes gratuitos, supermercados geridos pela câmara para combater a inflação ou investimentos em habitação a preços controlados. Vou conversar com Mariana Lima Cunha, é jornalista da seção de política do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de segunda-feira, 10 de novembro. Bem-vinda, Mariana.

Olá, Luís.

Mariana, a alguns dias passados das eleições em alguns estados norte-americanos, assim como em algumas eleições locais, salta à vista a reação à vitória do democrata Zohran Mamdani para presidente da Câmara de Nova York e com uma votação expressiva, uma reação sobretudo da esquerda portuguesa. Mariana, de que forma é que a esquerda portuguesa se identifica com esta vitória? Por que a considera importante?

Eu diria que a considera importante, havendo posições diferentes na esquerda portuguesa, mas que geralmente, acho que há aqui um fator muito importante, que é o facto de se considerar que há uma viragem à direita dos eleitores, do discurso, da agenda política, dos temas que entram na agenda política, e isto é em Portugal e lá fora também, é reconhecido por muitos atores políticos, à esquerda e não só, faz com que a vitória de Mamdani seja interpretada como uma espécie de luz e de uma esperança possível pra quem quer encontrar um caminho pra que a esquerda dê a volta ao declínio, que na verdade tem atingido vários partidos portugueses. Os mais pequenos, excetuando o LIVRE, já sofrem com isto há alguns anos e o PS, evidentemente, nas últimas eleições ficou bastante traumatizado com o resultado. E, portanto, é como se houvesse aqui uma espécie de luz ao fundo do túnel, que diz que é possível a esquerda virar a página que está a viver e que o caminho não é de um definhamento, ou inevitável ou por alguns anos, como se costuma dizer quando os partidos fazem a cura da oposição. Às vezes é muito difícil ver a página a virar.

Até porque há temas e há promessas que foram deixadas nessa campanha, em Nova York, nomeadamente, que são bastante caras à esquerda portuguesa.

Sim, sem dúvida. Aliás, há temas que a esquerda portuguesa já defendeu ou já tentou implementar em Portugal, quase sempre sem sucesso. Podemos falar do congelamento das rendas, por exemplo, é uma bandeira que o Bloco de Esquerda e PCP já usaram em eleições recentes, os impostos mais altos para os mais ricos. Os autocarros gratuitos, aliás, neste caso, tem-se feito um caminho nesse sentido da gratuidade dos transportes até fora de executivos de esquerda. E, portanto, há uma série de propostas-

Aliás, foi um tema até nas autárquicas que foi muito debatido por vários partidos.

Exatamente, não só exclusivo da esquerda, mas há propostas também que podem ser mais polémicas, como as mercearias geridas pelo Estado que Mamdani propõe. E estas propostas muitas vezes foram consideradas radicais em Portugal. E portanto, é importante também pra esquerda portuguesa vê-las agora possivelmente implementadas, muitas vezes estão prometidas, naquela que será uma das cidades mais importantes do mundo.

E nessa reação, Mariana, podemos encontrar visões diferentes consoante estamos mais no centro-esquerda ou mais no extremo-esquerda?

Sim, há muitas visões diferentes. Eu diria que na generalidade dos casos, há, de fato, a tal alegria e o tal ânimo que nós falávamos pela vitória de Mamdani, por se ver uma figura da esquerda a mobilizar tanta gente e a chamar a atenção do mundo, no fundo. Mas também não falta, sobretudo mais ao centro, eu diria mais na ala central do PS, quem avise que as promessas de Mamdani vão ser, por exemplo, difíceis de pagar, difíceis de executar, dependem muito da taxação de empresas e de pessoas mais ricas.

Aliás, uma das questões é Mamdani propor taxar mais os mais ricos para financiar todas estas propostas.

Exatamente. E, por exemplo, Andrew Cuomo, que era o grande adversário, dizia que então os ricos, a riqueza ia sair de Nova York com medo dessas propostas. E, portanto, havia sempre esse debate sobre a execução das propostas. E, portanto, à esquerda e sobretudo no PS também há quem avise pra isto. E depois, um pouco por toda a esquerda, há sempre um risco, que é lembrar que isto não são realidades que sejam imediatamente transponíveis, até porque é preciso lembrarmos que Nova York não só não é os Estados Unidos, como não é o resto do mundo, é uma cidade particularmente liberal e tem, por exemplo, uma grande taxa de sindicalização. E, portanto, quando Mamdani chega de fato às classes trabalhadoras, não quer dizer que o exemplo dele possa ser exatamente seguido e aplicado aqui.

Já vamos continuar a conversa com Mariana Lima Cunha. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Mariana Lima Cunha. Vamos olhar então, mais em particular, Mariana, para algumas reações, olhando para aqueles que estão mais próximos do nosso PS, como o próprio secretário-geral, ou nomes como Sérgio Sousa Pinto, Francisco Assis, Pedro Nuno Santos. Há a ideia de que a vitória em Nova Iorque pode constituir uma esperança ou também há riscos inerentes àquilo que se pode vir a passar?

Eu diria que o PS será o partido mais dividido na reação à vitória de Mamdani.

Depende das alas.

Depende muito das alas. Nós vimos Pedro Nuno Santos a reagir muito rapidamente a esta vitória. Considerava Mamdani um socialista radical, numa publicação que fez no Instagram. E depois fazia, e isto é engraçado de verificar, porque de facto, quem conhece um bocadinho o pensamento político de Pedro Nuno Santos sabe que o que ele sempre defendeu foi que devia haver uma polarização à esquerda, e no caso, devia ser o PS a liderar uma espécie de bloco das esquerdas que pudesse polarizar o discurso. Ou seja, Pedro Nuno Santos nunca acreditou que a esquerda se devesse orientar pelo centro e que seria aí que faria um combate político à direita. Depois, todos sabemos que a história não acabou bem assim quando ele foi líder, até porque as condições não eram as ideais e havia a tal viragem à direita, isso é evidente. Pedro Nuno Santos até vestiu um fato bastante moderado quando foi líder do PS. O que ele diz agora é que, de facto, o tal socialismo radical, como ele chama de Mamdani, é a esquerda que não se envergonha de ser esquerda e que, pelos vistos, isso dá resultados e dá votos. E portanto, há aqui alguma alegria, nalguns casos até alguma euforia, na ala mais pedronista, que festejou muito estes resultados, mas depois também há algumas cautelas. Sérgio Sousa Pinto, que tu mencionavas, por acaso também elogiou bastante a vitória de Mamdani, chamando-lhe de socialista democrático, ele dizia até: "Como eu ou como Mário Soares".

Não tão radical como Pedro Nuno Santos o pode considerar, eventualmente.

Sim, retirando um bocado aquela carga da ideia de que o socialismo é radical e colocando-o no espectro do socialismo democrático e dizendo que, de facto, eu penso que Sérgio Sousa Pinto centrava muito as suas atenções em isto ser uma esperança. Já Francisco Assis acha que sim, que é uma esperança, mas de uma maneira mais desencantada, diz que é uma esperança para quem está desesperado. Ou seja, Francisco Assis será, destes nomes, um dos que mais se colocam na ala menos à esquerda do PS e considera que é muito difícil transpor propostas daquelas para o que é o socialismo europeu e para a tradição do socialismo europeu, e que há sobretudo uma tentativa da esquerda mais à esquerda em Portugal se agarrar um bocadinho à vitória de Mamdani, porque neste momento não tem muitas outras vitórias à esquerda para agarrar como símbolos. E portanto, há aqui um espectro grande de reações no PS, desde quem está mais esperançoso e mais feliz com haver aqui um caminho feliz para o próprio PS, e quem diz: "Bem, temos de ter calma, é uma boa notícia para a esquerda, mas Nova Iorque e Portugal não são a mesma coisa."

Depois, Mariana, temos outros nomes como Catarina Martins, Francisco Louçã, Rui Tavares, podemos dizer que olham para esta vitória com uma alegria mais cautelosa?

Eu diria que sim. Catarina Martins eu acho que festejou imediatamente. Aliás, pegou até nalgumas propostas, como nós dizíamos, que o próprio Bloco já apresentou em Portugal. Para dizer: como veem uma pessoa que defendia creches gratuitas e rendas congeladas ganhou. Ou seja, já não é impossível. E também tivemos Rui Tavares a celebrar. No caso dele, mais acredito também pelas propostas, mas muito pela forma. Ele escreveu um artigo na Folha de São Paulo em que fala da simplicidade da mensagem e de como a esquerda, diz ele próprio, para o seu nicho, que são os intelectuais de esquerda, na expressão de Rui Tavares, dizendo que com a mania de problematizarem tudo e de acharem que tudo é muito complexo e que não se pode ceder, por exemplo, à linguagem mais populista ou mais simplista, se perde a mensagem também. E que às vezes é preciso simplesmente ler a sala, ver o momento político e perceber que se calhar é preciso combater mensagens simples com outras mensagens simples, não que se percam os princípios, mas tentar fazer esse caminho.

Olhar também para a forma e não só para o conteúdo.

Exatamente. Ele viu essa eficácia em Mamdani. Portanto, acho que há aqui, nalguns destes nomes, uma esperança de que a maneira como Mamdani se posicionou possa trazer algumas pistas. E deixa-me só recorrer também ao exemplo do Miguel Tiago, do PCP, que falou conosco em nome próprio, não pelo partido, mas como comunista e pessoa de esquerda interessada também nestas eleições, e que dizia que talvez a grande vantagem a retirar daqui seja a ligação que ele conseguiu fazer à classe trabalhadora, que é uma crítica que há muita gente que tem feito à esquerda, que se concentrou ultimamente mais em causas identitárias e por aí fora. E, portanto, ele dizia que o PCP tem tentado fazer um bocadinho um caminho, nem sempre bem-sucedido, mas de se focar naquilo que são as necessidades das pessoas muito concretas, do custo de vida, dos transportes que não funcionam, do tempo que se perde.

Do dia a dia das pessoas.

Exatamente. Paulo Rangel falou-nos muitas vezes da bilha de gás. De que transporta a bilha de gás às costas e que percebe as pessoas comuns. E portanto, Miguel Tiago também dava um bocadinho esse exemplo a dizer: é por aí que é preciso ir e é preciso, na visão dele, não entrar nos temas que a direita quer impor. Ou seja, a bandeira da imigração, por exemplo, não aceitar, no fundo, os pressupostos da conversa que uma maioria de direita agora Quer ter neste momento e, portanto, há aqui também um espectro de opiniões interessante.

Mariana, há quem acredite também que Mamdani poderá defraudar as expectativas, no sentido daquilo que dizias há pouco, de que são propostas, são ideias que ele levou para a campanha, mas que podem ser de alguma forma de difícil execução. Também há quem tenha essas dúvidas em relação àquilo que poderá ser, na prática, aquilo que Mamdani poderá fazer.

Sim, esse receio existe em vários campos. Eu vou voltar a citar o Miguel Tiago para dizer que ele tem um receio que é expectável, comum na esquerda mais à esquerda, que é dizer que não sabe se acredita que ele quando chegar não vai executar uma política um pouco mais à direita ou fazer algumas cedências, fazer cedências a interesses económicos, etc. Uma coisa é fazer campanha, outra é ter depois de conciliar uma série de interesses importantes, no caso, em Nova Iorque. Há também um outro socialista, o Alexandre Simões, que falou conosco sobre este tópico, que tem muito menos fé em Mamdani do que muitas das pessoas que falámos aqui hoje, não por demérito dele, mas por dizer que ele vai chocar com a realidade agora quando assumir no executivo, quando perceber que, neste caso, Alexandre Simões acha que ao populismo de direita não se deve responder com populismo de esquerda e não é a favor daquela polarização de que já falámos como resposta à polarização do outro lado. Acredita que Mamdani, no fundo, vai ter uma desilusão e vai ser uma desilusão se tentar executar as propostas tal como as vendeu na campanha, porque são propostas de grande monta, às vezes em termos financeiros, que dependem também da autorização de outros níveis de governação e portanto, calma com os entusiasmos é a mensagem dele.

Assim sendo, Mariana, podemos considerar que Zoran Mamdani é uma inspiração para a esquerda portuguesa ou pode servir de inspiração?

Eu acho que sim, nalguns pontos. Como nós falamos aqui, não será copiada a papel químico, porque são contextos muito diferentes. Acho que há alguns pontos em que toda a gente concorda. No sentido da comunicação, há toda uma parte de comunicação nas redes sociais, de marketing. Ele próprio é uma figura considerada muito carismática, mas tem obviamente toda uma equipa à volta. A maneira como fez a sua comunicação. Tivemos também Marta Temido, por exemplo, a elogiar a autenticidade da comunicação, a maneira como ele passa bastante genuíno a falar com as pessoas. Essa parte que é a comunicação pura política poderá evidentemente ser estudada e ser analisada. E não é só no discurso dele, é por exemplo nas iniciativas de ir bater a milhões de portas e falar cara a cara com as pessoas para tentar chegar ao máximo número de pessoas possível. O ponto da comunicação e do marketing eu acho que é um ponto que é elogiado transversalmente na esquerda. Depois, há muito quem acredite que ele volta a alguns princípios importantes para a esquerda, de que a esquerda se pode ter desviado, que se pode ter desviado para outros nichos, para outras bandeiras muito específicas, e ele recorda que é possível, desde que se convença. Eu acho que o grande mote da campanha de Mamdani era dizer basicamente que há uma oligarquia que está a impedir pessoas normais, pessoas comuns, de viverem bem. E de viverem bem no sentido de terem uma vida com menos dificuldades. E acho que para a esquerda é uma esperança ver que este discurso pode colar sem que o eleitorado acredite que é um radical, um comunista radical que o está a proferir. Naquele caso funcionou. Agora, como nós dizemos, Nova Iorque é um caso especial e portanto as lições a serem retiradas acho que são retiradas com alguma cautela.

Obrigado, Mariana.

Obrigada, Luís.

Mariana Lima Cunha é jornalista da secção de política do Observador. Nesta história do dia deixo ainda três coisas que vão marcar esta segunda-feira. Começa a conferência anual sobre o clima. A COP 30 decorre em Belém do Pará, no Brasil, até 21 de novembro. É o principal espaço de negociação e decisão sobre o clima no mundo. Reúne representantes de diversos países, diplomatas, especialistas e ativistas. Ao longo de toda esta semana, o Ministério da Agricultura promove a Semana do Mar 2025, antecipando a celebração do Dia Nacional do Mar. O objetivo é promover a identidade marítima de Portugal junto da sociedade e destacar o mar como recurso estratégico que importa conservar, potenciar e defender. E o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, inicia uma visita de dois dias a Angola. Vai participar na celebração dos 50 anos de independência do país. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição. A música do genérico é do João Ribeiro. O som que ouvimos no início do programa foi retirado do YouTube. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.