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Olá e sejam muito bem-vindos. Espero que estejam preparados para mais uma história das histórias pela boca de Alberto Correia. Eu sou o João Paulo Sacadura e hoje vou, com muita curiosidade, ouvir falar o Alberto de uma casa que, por acaso, conheço, esta casa dos antigos dos Albuquerques desde a Idade Média, a Casa da Ínsua, hoje transformada numa unidade hoteleira. Vamos falar sobre esta casa tão bonita, "Para Além da Flor de Lótus", chama-se esta crônica. Bem-vindo, Alberto.
Beira Alta, a deslado de Viseu, sobre o vasto promontório elevado entre o Dão e o Mondego, a Casa da Ínsua constituiu-se como aureolada página da história de Portugal, essa, a genuína, construída por nobres e vilões entre os dramáticos transes da guerra, as aventurosas passagens do mar, a laboriosa conquista de uma terra que depois se desdobrou em pão e vinho, essa sublime metáfora do alimento. Vem-nos de longe a sua história. Da Idade Média, chega à memória dos patriarcas, a raiz dos primeiros Albuquerques, que ali encontrou terra fecunda, onde o chão se alarga e o sangue se multiplica em gerações, azul, decantado de líria maciepas de uma casta que o tempo apura. Luís de Albuquerque Melo Pereira e Cáceres, que viveu de 1739 a 1797, entronca nesta matriz, sexto senhor de uma casa já poderosa de rendas e títulos de avós e de pais, e será ele quem dela se tornará expoente de honra maior, herdada do sangue, das suas prestações como soldado, da exemplaridade de serviço que lhe foi cometido enquanto governador da província de Mato Grosso e Cuiabá, espinhosa missão que exerceu ao longo de 19 anos, o amor de uma pátria subjacendo a um árduo trabalho de medição de fronteiras da colônia, de apaziguamento dos índios que respeita, de intensivo povoamento onde promove a educação e ativa a justiça, onde deixa, romântico e saudoso, uma geografia de nomes levados da pátria natal, de águas de abertura das povoações que funda, Coimbra ou Lamego, dos rios que batiza, Mondego ou Vouga, das serras que por lá correm, Estrela ou Bussaco. Lembra, em cartas, a família e a pátria onde regressa cumulado de honras acrescentadas no permanente serviço de assento em Lisboa. De longe, ainda traçará as linhas mestras da arquitetura do solar, cujo desenho seu irmão confia ao arquiteto portuense José Francisco de Paiva, que respeita a arqueologia do casario antigo ao final do 800, cerca de 1780, levantando a graciosa fachada com esse longilíneo perfil coroado pelos torreões dos extremos, que evocam, com suas ameias trepanadas pela flor-de-lis, a poética Idade Média dos avós. Janelões airosos, abertos sobre as amplas atmosferas de nascente e sul, debruçam-se sobre a ampla reserva d'água de um tanque onde navegam peixes vermelhos e onde cresce abundante a raiz da flor de lótus, nobre e espiritual, como a essência desta casa, compensando a sua abundância a fugaz duração da sua curta primavera. Depois, são os jardins, mais tardios que a casa, obras-primas para requintado apreço. Mais longe, o parque arborizado, como se jardim fosse, quatro caminhos e os portões ornados das entradas desenhados por Ricardo Albigarria, o competente arquiteto que desenhou a fonte do pátio intimista onde, à sombra de plátanos, se abre a entrada nobre da morada e onde pousa, no extremo, a capela familiar da Senhora da Conceição, onde o relógio, com curioso carrilhão, anuncia que é seu dever chamar a gente para a oração, o trabalho e o ócio. A casa, lá por dentro, é maravilha. Vultoso átrio que evoca a etnografia da colônia de que Luís Albuquerque foi capitão e os salões de graciosas lareiras e a sala dos retratos, a riqueza da ornamentação inclusa nos espaços ou oferecida como singular, os caixotões dos tetos, a memória da espaçosa cozinha e esse imaginário de poder que por toda ela se desdobra. E depois a quinta, extensão sem fim, a abundância de frutos, de vinho, de pão, lagares antigos, cavalariças e celeiros. Uma imensa história. E a casa, o renovo dela, hotel de charme, inteira a memória dela para além da flor de lótus.
Uma belíssima homenagem, uma belíssima quinta e casa, hoje hotel de charme, Casa da Ínsua, realmente carrega toda esta história. E é, de facto, sobretudo aquela sala dos solenes retratos, como nos chamou, um vestígio maravilhoso de uma família muito importante e que soube tratar deste seu patrimônio tão bonito e tão bem. Muito bem, Alberto.
Um belo hotel de charme da empresa Visabeiras.
Eu, por acaso, não conheço ainda transformado em hotel. Sei que depois tiveram que fazer uns anexos, que não estragam a fisionomia do solar e tudo, que são por trás, mas que é muito bonito. E de facto, lembro daquilo ainda ocupado pela família e era uma casa extraordinária, com uma grande história e espero que isso seja respeitado e tudo indica que sim. Ainda bem. Muito bem, Alberto. E trouxe-lhe vida, que também é importante estas coisas serem animadas, o ser abandonado ou ficar tudo em águas de bacalhau, entre pantanas, em partilhas, às vezes é que dá cabo deste nosso patrimônio e assim é uma coisa que está ocupada e que está bem gerida. Isso é muito importante para salvaguardar o nosso patrimônio. Fica então a recomendação desta visita à Casa da Ínsua. Muito bem, marcamos encontro então amanhã, Alberto. Bem-haja. Até amanhã.
Até amanhã.