A meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais já foi falhada, conclui o relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado esta quarta-feira.

O relatório do PNUMA sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) — lançado, como em anos anteriores, pouco antes da conferência da ONU sobre o clima, cuja 31ª edição (COP31) vai realizar-se na Turquia, de 9 a 20 de novembro — adianta que o mundo deve agora minimizar a magnitude da ultrapassagem e tentar regressar ao limite de 1,5ºC até final do século.

“A hipótese de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, sem ultrapassagens ou com ultrapassagens limitadas, já passou. A tarefa agora é minimizar a duração e a magnitude da ultrapassagem e regressar aos 1,5°C até ao final do século”, refere o relatório da agência da ONU.

Em 2015 na COP21 os países do mundo alcançaram o Acordo de Paris, em que se comprometeram a impedir que as temperaturas mundiais subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

No relatório divulgado esta quarta-feira é analisado um cenário de ultrapassagem dos 1,5ºC “o mais baixo possível”, em que o pico do aquecimento esteja limitado a 1,7ºC ou 1,8ºC. Para este cenário as emissões globais de GEE teriam de ser reduzidas em 18% até 2030, em 45% até 2035 e em 69% até 2040 (em relação aos níveis de 2025) juntamente com a remoção em larga escala de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

“Cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C [em relação aos valores médios da era pré-industrial] aumentam os impactos e os riscos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que assolaram muitas nações este ano”, disse Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, a propósito do relatório anual da agência da ONU sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

O PNUMA enfatiza no documento que são precisos “cortes urgentes e rigorosos” nas emissões de GEE, não para impedir que se ultrapassem os 1,5ºC mas para minimizar danos, com um pico de aquecimento em meados do século e um regresso a 1,5ºC até 2100. Mas o relatório adverte que este cenário tem apenas 50% de hipóteses de ser real.

A ONU refere também que a implementação completa das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), as promessas de cada país para reduzir as respetivas emissões, apenas reduziria as emissões entre 5% e 8% até 2030 e entre 11% e 15% até 2035, em relação aos níveis de 2025.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou numa mensagem sobre o relatório que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível — e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.

Cada fração de aquecimento global aumenta impactos e riscos

Segundo o PNUMA, se os cenários políticos atuais projetam que algumas emissões estabilizarão até 2030, nenhum deles mostra reduções a ocorrer no ritmo e na escala necessários para minimizar a magnitude e a duração da ultrapassagem de 1,5°C.

No relatório “Emissions Gap Report 2026” são traçados vários cenários, metas e estimativas, desde o aumento da energia renovável à redução do uso do carvão, petróleo e gás no fornecimento total de energia ou da redução das emissões de metano.

Mas o documento adverte que para um cenário menos mau acima dos 1,5ºC são necessários cortes rigorosos e urgentes nas emissões e a remoção de dióxido de carbono numa escala cada vez maior, algo como 320 gigatoneladas, o equivalente a oito anos de emissões deste século.

O relatório conclui que com cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C aumentarão os riscos climáticos como alterações irreversíveis nas calotas polares, no carbono do ‘permafrost’ (solo permanentemente congelado), ou na circulação oceânica, com graves implicações para a saúde e prosperidade humanas.

Também numa perspetiva otimista o relatório do PNUMA assinala que existem hoje oportunidades como nunca antes para acelerar a ação, recordando que desde o Acordo de Paris a energia renovável cresceu exponencialmente, o fornecimento total de energia proveniente do carvão e do petróleo cresceu mais lentamente do que o projetado, e as políticas climáticas reduziram as emissões em muitos locais.