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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sei que estava à espera de nos ouvir. Eu sou o João Paulo Secadura, mas ouvir sobretudo o Alberto Correia hoje, que traz mais uma tradição, traz mais uma memória. Vai nos falar hoje da Feira dos Pocarinhos. Vamos lá então saber quando é que isto era, qual é a história desta feira. Vamos a isso.

Tinha o nome de Duarte, mas era mais conhecido pelo apelativo de Bizagra, uma das curiosas personagens reinventadas por Aquilino Ribeiro no seu Malhadinhas. Numa tarde qualquer de um antigo Dia de Reis, estava ele sentado ao soalheiro com os amigos do costume, quando atina em os convidar: "Ó rapazes, tenho lá um vinhinho, um pedaço de um palhetinho, que até fica a rezar nas goelas uma música celestial. Só queria que provásseis." "Se ele é isso", redarguiu Albino, que também não era homem para se fazer rogado. "A operação é boa de fazer." "Então vinde, vinde beber um pocarinho de Molelos", tornou todo franco, abrindo marcha. Em vez do pocarinho de Molelos, de especiosa cor negra, de que fala Aquilino, e de que falou também Botelho Pereira nos seus Diálogos sobre Viseu, escritos em 1630, eu podia ter referido aquele pocarinho de barro vermelho que Grão Vasco, ou um dos seus colaboradores, pintou na doce representação do presépio que fez para a Catedral de Viseu entre os anos de 1501 e 1506. Esse pocarinho onde o lavrador de Belém partilhou o seu vinho novo com José, enquanto Maria e a mulher do lavrador se atarafavam a dar forma de berço à manjedoura do estábulo. Ainda são de uso pela beira fora, pocarinhos semelhantes, hoje mais cuidados na maneira, vidrados, no geral, para não sentir, bebendo, o estranho sabor do barro original que remanesce mesmo depois de levá-los a cozer. Ainda há quem guarde no servil do pocarinho o leite de uma cabra criada ao pé da porta. Ainda há quem o reserve numa adega para encher no São Martinho. Ainda há quem nos ofereça, feita a cresta dos cortiços, num fresco pocarinho, uma sede de hidromel. Ainda há quem vá à feira para comprar um pocarinho. Basta olhar as tendas das louceiras na velha Feira Franca de Viseu.

E assim, com essa busca, pode ser que não se perca esta tradição dos pocarinhos, que também são tão curiosos e que fazem parte do nosso artesanato. Vamos a isso. Por hoje a conversa está feita. Alberto, amanhã vamos falar de mais outra tradição, outro ofício, outra maneira de viver na região Centro, na zona de Viseu. A surpresa vai ser amanhã. Portanto, bem-haja. Até amanhã.

Até amanhã.