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Olá e sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura. Em Viseu temos Alberto Correia, que continua com as suas memórias e os seus estudos a falar das tradições e da história da região Centro. Hoje falamos de uma coisa deliciosa: da Festa das Sopas em Sernancelhe. O reencontro com o tempo de memória. Vamos a isso. Olá, Alberto, bem-vindo.

Não era fácil a vida na aldeia há uns anos atrás, na minha aldeia, a Sarzeda, concelho de Sernancelhe, extremo norte da Beira Alta. A vida assentava na terra, que nem a todos pertencia. Lavradores, conjuntos de bois e terras vastas com pousadas de pão, centeio. Havia alguns. Rendeiros que ao fim dos anos bons conseguiam recolher fruto bastante, havia muitos. E havia aqueles, homens e mulheres, que apenas alugavam os braços para o trabalho a quem os requeria, tantas vezes buscando trabalho nas terras de Alenteiro. Azeitona ou vindima. Os pastores guardavam rebanhos que não lhes pertenciam. E havia os artesãos, o ferreiro, o carpinteiro, a costureira, a tecedeira, o barbeiro, o ferredouro, o forneiro, que uns e outros tinham também de lavrar terras se não quisessem passar fome. E havia as tabernas, a mercearia, a loja dos panos. E havia um ditado antigo que rezava assim: "Do cerejo ao castanho, bem me avenho. Do castanho ao cerejo, isso é que me avejo." Com isto se querendo dizer que o ciclo do inverno era penoso, sem rogas para o trabalho, sem a abastança dos frutos no campo, ao contrário da época da primavera e verão, em que havia certas jornadas de trabalho, jantar abonado e a jorna paga ao findar de semana. As festas dos santos, de Santa Luzia, do Natal, da Páscoa, eram dias por natureza abençoados. Os domingos também. Magustos nas eiras e abadas de castanhas, filhós, janeiras e reis, afolares de padrinhos, banda filarmónica na festa de Santa Luzia. Aos domingos, a concertina e o bailarico no adro. Sobre a mesa quotidiana ou de festa, os produtos da terra e a invenção nobre das mulheres, o seu milagre de multiplicar o pão, o caldo, sobretudo. Qualquer um. As berzas de couve ripada e farinha, o caldinho de ovo, às vezes só de unto e água aferventada. Esse caldo, a nossa sopa de hoje, dita de aldeia, caldo do lavrador antigo, frutos da horta essencialmente, tempero da salgadeira abonada, azeite e o pouco mais que se comprava na mercearia acostumada ou na feira. Esse manjar divinal, essa sopa de aldeia que nós lembramos e hoje trazemos em festa, singular património cultural e material que testifica a nobreza das nossas raízes, suportadas em brasões marcados tão-só com os símbolos do trabalho. E o Festival de Sopas em Sernancelhe, a acontecer de 13 a 15 de fevereiro, lembrando tudo isto.

Uma boa memória também, e de como a vida nem sempre era fácil naqueles tempos. Ainda bem que falou nisso também, Alberto. Há que chamar as coisas pelos nomes. E na vida também havia muita necessidade. Quanto mais na província, sentia-se muito. Mas é sempre bom lembrar que também havia as festas e os santos e esta maravilhosa Festa das Sopas, o Festival das Sopas em Sernancelhe. Muito bem, então ficamos agendados para conversar.

Tempos com a sua graça, o seu mistério, as suas memórias, a saudade de muitos.

Exatamente. Os tempos que passaram, mas que deixam boa memória. Às vezes, o que depois nos lembramos não são as partes mais difíceis, mas é o que fica na nossa memória. É muito bom viver disso também. Sim, senhora. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã.