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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Sacadura e, como sempre, Alberto Correia, em Viseu, historiador e investigador da história e das tradições da região Centro, vai nos hoje trazer mais uma memória. Uma memória muito curiosa, que é muito típica: o barbeiro da aldeia. Vamos então falar do barbeiro da aldeia, essa figura que faz parte de todas as nossas aldeias. Alberto Correia, bem-vindo. Vamos a isso.

Quase já pertença à poética de um gostoso imaginário, a figura romântica do barbeiro da aldeia, sangrador de ofício alguma vez, chamado em apertos para lancetar leiçensios, deitar sanguessugas que se embriagassem com o sangue envenenado de cristão ou extrair uma puquena dor queixal, que não deixasse roer as castanhas piladas nas demoras do inverno. Basta lembrar o velho barbeiro de Lamosa, que vagueava pelas aquirinianas terras do demo, vai já a lonjura de um século, saquitelo com os instrumentos do ofício aqui e além pousado, respondido à chamada, num descuidoso remanso sobre um qualquer balcão de botequim. Basta lembrar também o alegre figurado dos bonecreiros de Estremoz, de Gaia ou de Barcelos. Menos imaginal, vem a figura desse outro barbeiro da aldeia, de mais breve distância, representação igualmente poética, construída agora quase tão só pelos retratos que ficaram de familiar evocação. Vinham nas tardes de sábado os lavradores. Vinham também no domingo de manhã, antes que o sino da torre desse as habituais três badaladas que marcavam os passos do abade a caminho do altar. Sentavam-se no banco corrido do aposento rasteiro, aberto para a rua, e esperavam que chegasse a sua vez. As horas tinham a duração dos dias da antiga criação do mundo. Nas conversas, perpassava o dia a dia em repertório, tal e qual como as mulheres no lavadeiro. Cortava-se o cabelo quando o rei fazia anos, nesse antigo modo de dizer, quando as repas não cabiam já dentro do chapéu. O fazer da barba tinha a vez de oito em oito dias, que isso ficara tabelado no contrato costumeiro, assinado de cruz entre dois copos na taberna, é honra da palavra, bastando por chancela. Às vezes, uma mãe trazia um cachopo pela mão e pedia ao barbeiro para cortar à escovinha o cabelo do rapaz. Pagava-se ao barbeiro, pelo foro de um ano, um modesto alqueire de pão.

Muito bem, recuperamos assim a figura do barbeiro de aldeia, uma figura tão típica e tão característica. Alberto, conhece aldeias onde ainda haja esta figura?

Exatamente não conheço, mas presumo que numa ou outra ainda persista.

Exato. Ainda alguém com este ofício, que as pessoas chamam pra ir a casa uns dos outros, pra fazer este seu mister. Acho que muito bem, acho que provavelmente existe ainda. Muito bem, Alberto Correia, estamos conversados hoje sobre esta figura que era tão típica nas aldeias, o barbeiro da aldeia, sangrador por vezes, como sangrador de ofício, por vezes, como nos contou. E marcamos encontro amanhã. Bem-haja, até amanhã.