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Este programa tem o apoio da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
Vir estudar ou trabalhar para os Estados Unidos permite coisas que ainda não podemos oferecer em Portugal. E eu acho que o meu caso é um exemplo. Eu consigo aqui dar aulas, fazer investigação, sobretudo clínica e translacional, trabalhar com os meus colegas no laboratório e o mais importante, devia ter começado por aí, ver doentes e tomar conta de doentes, o que eu teria tido muita dificuldade em fazer isso em Portugal.
Olá, sejam bem-vindos ao "Capitães na América", o novo podcast que é uma iniciativa da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em parceria com a Rádio Observador, com o propósito de conhecer melhor os portugueses que vivem e fazem carreira nos Estados Unidos. Hoje conhecemos Filipa Lince, uma médica oncologista no Instituto do Cancro Dana-Farber, em Boston, um dos centros mais prestigiados do mundo, onde dirige o programa de Cancro da Mama Inflamatório, é professora assistente na Harvard Medical School, em Boston, e investiga também o cancro da mama triplo negativo, os cancros associados a mutações genéticas e as novas terapias. Vamos conhecer melhor esta médica e cientista que está desde o ano passado na lista dos melhores médicos de Boston e diz que a sua carreira e experiência de vida são um bom testemunho de como os Estados Unidos continuam a ser uma terra de oportunidades. Olá, Filipa, diretamente de Boston. Bem-vinda ao "Capitães na América".
Olá e muito obrigada pelo convite para fazer parte deste programa hoje. É com enorme alegria que estou aqui.
Só uma curiosidade, Filipa, este teu nome Lince é com I grego. Qual é a origem? Isto é um nome inglês ou é o quê? Sabes?
É bem português. Conta a história que veio de descendência austríaca, mas não sei mais pormenores. Mas é bem português, pais e avós portugueses.
Exatamente. Muito bem, a tua carreira, eu não posso deixar de mencionar o colégio maravilhoso onde tu andaste, o São João de Brito, onde eu também andei, e onde aliás, no ano passado foste premiada no Dia do Antigo Aluno, não foi? Pela carreira.
É verdade.
Exatamente. Um grande colégio dos jesuítas.
Um grande colégio a quem devo muito em termos de formação pessoal e aspiração também para procurar ir mais longe e ser bom no que fazemos e ter orgulho naquilo que fazemos no dia a dia e sempre com uma missão de servir os outros. Muito agradecida a tudo que recebi do colégio.
Ou não fosse o mote do colégio educar para servir. Só aí já diz muito. Tenho que perguntar isto: o apelo da medicina vem de onde, Filipa? Tinhas médicos na família? Era uma coisa que querias ser desde pequenina? O que te levou à Faculdade de Ciências Médicas da Nova?
Bem, a história é fantástica. Eu tenho um avô que era médico, mas médico de clínica geral em Alcácer, aqueles médicos que tratam de tudo. Mas infelizmente eu nunca contactei assim muito com ele. Não posso dizer que cresci no colo dele a ver como é que ele tratava os doentes, mas era a minha imagem de médico na família. Eu, na realidade, queria ser veterinária. E a dada altura desenvolvi alergia aos pelos dos animais. Na altura, não havia os medicamentos que há hoje para tentar reverter algumas dessas alergias, e eu comecei a aperceber-me que aquilo não era uma opção. E foi o meu pai, na altura, que começou a dizer: "Mas se gosta de ajudar ou curar, por que não ser médica?" E eu acho que na altura eu tinha um bocadinho de receio. Tratar de seres humanos parecia-me uma missão bastante maior, mas também mais assustadora do que tratar de animais. Mas o bichinho estava lá de cuidar, tentar curar e tratar da doença e, naturalmente, levou-me à medicina, embora confesso que ainda pensei em advocacia, que pode parecer bastante distinto, mas na minha cabeça estavam ali par a par.
Exato. Então fizeste o internato em pediatria e cirurgia geral, passaste pelo Curry Cabral. Houve depois este outro apelo da oncologia. Concretamente, passaste pelo IPO logo antes de ir para os Estados Unidos, no IPO de Lisboa. De onde é que vem esta especialização que tu foste buscar da oncologia? Tão complicada, tão difícil, não é?
Sim, também é uma história muito engraçada. Eu tinha completado o curso de Medicina e tínhamos feito o exame que dava acesso à especialidade. Eu tinha várias opções e estava indecisa. Eu gostava de muita coisa, portanto, não sabia decidir. E uma tia minha, que era enfermeira no IPO, disse: "Olha, devias passar um dia com o professor Passo Esquelho", oncologista no IPO e tinha feito o seu treino nos Estados Unidos. Mais tarde, seria o meu mentor, mas na altura eu não sabia disso. E fomos passar um dia, eu vi-o a tratar doentes e sentámo-nos ao almoço e eu perguntei-lhe porque é que ele tinha escolhido oncologia. Ele parecia-me brilhante. Eu tinha adorado aquele dia e gostava de perceber o que é que o tinha levado a escolher oncologia. E ele falou-me em três coisas. Se a memória não me trai, eram três razões que o levavam a escolher oncologia. Uma era esta necessidade avide inteira de cuidar e ter em conta o corpo inteiro do doente. Não é só o olho. O coração. O cancro em si pode se manifestar e pode afetar tantos órgãos que tu tens que manter o teu conhecimento em medicina de uma forma vasta e isso a mim atraía-me, porque eu gostava de tudo. Portanto, eu não me queria limitar só a uma área. Esse era um dos fatores. O segundo fator era a investigação e os medicamentos que eu tenho hoje para tratar os meus doentes provavelmente serão diferentes daqui a 10 anos. Portanto, a esperança que vinha aliada com a certeza que novos medicamentos estão a ser desenvolvidos. E depois era uma terceira componente muito humana, que era acompanhar doentes numa fase da sua vida que este diagnóstico muda muita coisa. Embora seja muito difícil, também é uma fase da vida para os pacientes e para a sua família, em que deixam para trás coisas que não importam e muitas vezes focam no que é mais importante. E ser testemunha ou ser parte dessa caminhada é um privilégio e a mim, como ser humano, também me ajuda a crescer. E ele na altura, quando me disse estas três coisas, eu pensei: "É isto mesmo que eu quero fazer para o resto da minha vida". E pronto.
Que bonito este testemunho, Filipa. Primeiro, porque as três razões são extraordinárias e podem resumir a vocação de um médico. Percebi esta coisa tua mais holística, mais do corpo inteiro e, portanto, essa tua atração, que vai de encontro ao que tu sempre gostaste, mesmo se calhar sem saber. E depois muito bonito esta homenagem que faz a um professor, no fundo, um mestre. É muito importante hoje que estamos aqui em Portugal continental a sofrer muito com os professores, como são uma classe tão destratada e tão malquista para tantos setores da sociedade, e que tudo lhes corre tão mal neste momento. É bom ouvir, tenho sempre convidados que falam da maravilha que foram os professores que tiveram e como os inspiraram. E isto foi, de facto, um testemunho muito importante. Também quer dizer que é uma área onde tu estás, com a qual eu vibro muito, porque é uma área extraordinária. Todos os dias há grandes novidades no tratamento dos cancros. O último Prêmio Nobel da Fisiologia, da Medicina, ligado à optogenética, por exemplo, um deles investigador na Universidade de Stanford. É muito curioso, porque é uma área onde todos os dias a gente vê pelos Instagrams e pelos X estas novidades de novos tratamentos, as imunoterapias, o nosso sistema imunitário a lutar com as células específicas do tumor e poupando as outras, levando a quimioterapia a certas células. Tem havido avanços nesta última década impressionantes, não tem?
Tem, sim, e é desafiante para quem trata, porque temos que nos manter a par de todos esses dados. É desafiante também para quem está a desenvolver ensaios clínicos, porque tu tens que fazer um exercício de imaginar o futuro e pensar, porque os ensaios clínicos, desde o momento em que tu os desenhas até teres resultados, demora anos. E tu tens que prever como é que vai ser o futuro do tratamento do cancro da mama, e de quem fala da mama, fala de outros cancros, daqui a cinco ou 10 anos, e os dados que eu vou gerar com este estudo ainda são relevantes ou não. E claro, no meio disso tudo, pensar também qual é o preço destas drogas e qual é o benefício para os doentes e os efeitos secundários, que são diferentes. Não estou a dizer que são piores, mas são diferentes. Portanto, exige uma constante educação, não só do médico e dos doentes, mas toda a equipa que está envolvida no cuidado dos doentes. Desde a enfermeira que recebe as chamadas, se a doente agora liga a dizer que o olho está seco, eu tenho que pensar nisso, tendo em função qual é o medicamento que a doente está a tomar. Portanto, um grande desafio, mas sem dúvida, se eu disser que há vários medicamentos e não são só dois ou três que foram aprovados desde que eu terminei a minha especialidade aqui nos Estados Unidos, e eu terminei a especialidade aqui nos Estados Unidos há 12 anos. Portanto, tem sido, de facto, uma velocidade impressionante.
É impressionante e, como tu dizes, o estar a par de tudo que vai acontecendo e vai se vendo deve ser muito emocionante também. Agora, tu estás em 2008 do IPO e decides ir para os Estados Unidos. Tu já estás aí há 18 anos. As vantagens, o que te motivou, no fundo, a ir, Filipa? Por que os Estados Unidos? E acho que não eras para fazer lá, talvez, um estágio. Afinal, ficaste até agora, 18 anos. Conta-me.
Sim, eu nunca pensei em ter vida de imigrante, nunca pensei que passados 18 anos estaria nos Estados Unidos com filhos, com dupla nacionalidade e a usar todo o tempo que tenho livre de férias a Portugal. Eu tinha, e tenho, uma grande amiga que estava a fazer o treino dela em neurologia pediátrica em Pittsburgh, a Joana Osório, e ela estava a gostar imenso da experiência. Éramos muito amigas e minha colega do curso de medicina. Isso aliado ao meu mentor na altura, o professor Passos Coelho, com quem tinha tido aquele dia na clínica, que tinha feito o treino dele nos Estados Unidos. Havia ali o bichinho de experimentar também como é que era fazer o treino nos Estados Unidos. Mas a minha experiência até então dos Estados Unidos era ter ido à Disney World. Portanto, eu sabia muito pouco ou nada, ou de assistir algumas séries na televisão. Portanto, eu vinha só para experimentar, para ver qual era a diferença do treino entre cá e em Portugal. Na altura, o meu diretor de serviço, um grande visionário, eu pedi-lhe só para interromper o internato, porque eu estava a fazer internato no IPO de Oncologia, pedi-lhe para interromper apenas durante um ano e ele disse: "O que eu puder ajudar". Diz: "Mas eu já sei que tu não voltas, por que queres interromper?" E eu, de facto, não percebia o que é que ele dizia. E eu: "Não, claro que vou voltar, sim". E pronto. Acho que até deixei de dizer isso há um ou dois anos, mas claro que a verdade- Sim. Mas sim, portanto, vim na altura, claramente. Acho que mais tarde e com o tempo, percebi como é que as oportunidades nos Estados Unidos, de facto, vinham ao encontro a uma sede que eu tinha em relação à minha carreira. Mas quando fui para os Estados Unidos, isso não era tão claro para mim. Queria experimentar uma forma diferente de treino, que era talvez menos teórico, mais prático. E sabia de casos que pessoas que tinham lá estado, que eu admirava e que tinham gostado muito das suas experiências, mas foi sobretudo isso que me guiou na altura.
Tu, no fundo, também ias para continuar a tua formação, não é? Era o que tu gostavas. Tu achas que ir viver para os Estados Unidos ainda é uma espécie de sonho português, Filipa?
Talvez não, não sei. Eu acho que talvez nalgumas áreas. Eu acho que há áreas em que vir estudar ou trabalhar para os Estados Unidos permite-te coisas que ainda não podemos oferecer em Portugal. E, por exemplo, eu acho que o meu caso é um exemplo. Eu consigo aqui dar aulas, fazer investigação, sobretudo clínica e translacional, trabalhar com os meus colegas no laboratório e, o mais importante, devia ter começado por aí, ver doentes e tomar conta de doentes, o que eu teria tido muita dificuldade em fazer isso em Portugal, mas claro que vem com o custo de estar longe da família e do nosso país. Portanto, eu acho que nalgumas áreas, sem dúvida, oferece oportunidades que de outra forma seria difícil, mas eu acho que tem que ser sempre um bocadinho pôr os pesos na balança no que fica para trás e se compensa ao fim do dia.
Tu tiveste, Filipa, de concorrer a bolsas para vir?
Não.
Estou a pensar nisto em conta da questão dos vistos, de licenças, de conseguir morar cá, tudo isso. Candidataste a uma universidade ou a um hospital e portanto, assim é que foi?
Sim, ótima questão. Como eu fiz todo o curso de medicina em Portugal, eu concorri para vir fazer e consegui equivalência. Eu formei-me na Universidade Nova e eu consegui equivalência ao curso. Penso que qualquer curso em Portugal não teria dificuldade nisso. Portanto, eu concorri para ir fazer o treino, continuar. Quer dizer, tive que começar o treino do início, fazer medicina interna e depois hematologia e oncologia. Portanto, andei um pouco para trás nesse sentido. E não tens que concorrer a bolsas, tens é que concorrer a uma vaga na especialidade que queres e nos hospitais. O concurso é um bocadinho diferente do de Portugal, no sentido em que tu escolhes aqui nos Estados Unidos, mas eles também te escolhem. Portanto, eles fazem o ranking deles, eu faço o meu ranking e depois tem a ver com essa escolha ou a preferência mútua. Exatamente. E depois, quando tens a tua vaga, há um salário associado a essa vaga. Portanto, eu não tive que concorrer a uma bolsa portuguesa ou internacional para pagar o meu treino aqui, porque isso vinha com o trabalho que eu fazia.
O visto e coisas assim foi tudo fácil arranjares. Para ires para onde estás agora, já terias que ter um convite direto deles. Isso era fácil?
Sim, há uns vistos especiais para quem vem fazer este treino de medicina e o tempo que podes ficar no país está associado à duração da tua especialidade. Depois, o que é um bocadinho mais desafiante é e depois. Se voltas para o país de origem, e eu trabalhei com pessoas de todos os países do mundo, praticamente, não tem problema, porque o visto cobre a tua estadia. Se queres depois continuar a exercer medicina nos Estados Unidos, há algumas opções. Aí é um bocadinho mais complexo, depende também do que fazes e para onde vais trabalhar.
Qual foi o teu primeiro choque de realidade, Filipa, quando chegaste aí a primeira vez? Conhecias já alguém? Ainda não tinhas casado ainda, pois não?
Não.
Pronto, mas conhecias alguém?
Não, tinha namorado em Portugal.
Qual foi a tua primeira surpresa?
Olha, conhecia ou tinha acabado de conhecer uma antiga aluna também do professor Passos Coelho, que era a doutora Raquel Nunes, de quem ficamos muito amigas, e que muito simpaticamente me abriu a casa e me ajudou nos primeiros tempos em Washington. Portanto, a minha surpresa foi a grande generosidade dela, que mal me conhecia. Tínhamos um professor e mentor em comum. E depois eu acho que houve imensas histórias muito divertidas, hoje quando penso nelas, só para veres o grau de pouca preparação com que eu vim para os Estados Unidos. Eu cheguei cá, comecei como observadora e eu estava habituada, quando eu estava no Curry, isto já há 18 anos, que nós trabalhávamos de segunda a sexta e depois ao fim de semana, só trabalhavas se estavas de urgência interna ou se estavas a cobrir o serviço de urgência. E aqui era sexta-feira.
Sexta banco.
Exatamente. E aqui estava no hospital, em Washington, DC, por onde comecei, e alguém diz Era uma sexta à tarde e diz: "Então até amanhã, vens estás 7 da manhã". E eu ingenuamente digo: "Coitada, ela trabalha no sábado às 7 da manhã?" E esta chefe dos residentes olha pra mim e diz: "Ela e tu nos próximos três anos da tua vida".
Meu Deus!
E eu pensei: "Olha, ninguém me disse que eu ia trabalhar aos fins de semana". Portanto, todo este choque de o Natal, passagem de ano, nada disso é garantido. Tens um dia de folga por semana. Como eu vinha um bocadinho sem attachments, não tinha família, não conhecia ninguém, era-me um bocadinho indiferente se trabalhava ao sábado ou domingo, mas foi um bocadinho o choque cultural. E a outra, que tivemos a oportunidade de falar isso, é que eu vinha de Lisboa, se calhar de um meio em que todos éramos muito parecidos uns com os outros, e eu chego aqui e conheço pessoas de todas as culturas diferentes e tinha imensa vontade de falar com eles e saber mais de que país vinham e qual foi a história, se foram eles que chegaram aos Estados Unidos, os pais. E então lembro-me de encontrar esta rapariga, que era uma das chefes dos internos, que tinha feições claramente asiáticas, e eu disse: "Olá, eu sou Filipa, venho de Portugal. E tu vens de onde?" E ela: "Eu sou americana, nasci na América e sou americana". E eu olho pra ela a dizer-
Com muito orgulho.
Fiquei a pensar: "Está bem, és americana, mas de onde são os teus pais?"
Quais as origens da tua família? Exato.
Exatamente. Eu não perguntei mais, porque percebi logo que aquilo era um assunto sensível, mas aprendi rapidamente que há um enorme orgulho em ser-se americano. Há um enorme orgulho na história das famílias.
A presença da bandeira por todo lado também é um sinal disso.
Exatamente. Na história que cada família tem, como é que chegou aos Estados Unidos. E eu acho que aprendi a ser mais cuidadosa nas minhas perguntas e expressões de interesse. Exatamente.
Filipa Lins, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Filipa Lins, uma médica oncologista no Instituto do Cancro Dana-Farber, em Boston, um dos centros mais prestigiados do mundo. Ela já foi há 18 anos para os Estados Unidos e neste "Capitães na América" é a nossa convidada de hoje. Estamos a falar deste teu trabalho. Tu foste também, e és professora. Primeiro passaste, como agora contaste, neste hospital MedStar Washington Hospital Center, não foi? E também na Georgetown University Hospital, os dois em Washington DC. Professora, tu foste também na Universidade de Georgetown, na School of Medicine, e ainda és muito mentora e muito orientadora de vários mestrandos, com certeza, e doutorandos destes cursos. É de facto um trabalho tão intenso como nós temos ideia que é? Como nós imaginamos? Nos Estados Unidos, há esta cultura de trabalhar muitas horas, estar sempre disponível e haver uma grande competição. Na tua área?
Que engraçado. Sim e não. Fizeste várias perguntas, vou tentar responder elas. Eu conheci o conceito, de facto, do que isto significa, sobretudo em Harvard. Em Georgetown também, mas sobretudo em Harvard, o que significa fazer mentoring. Eu tinha um chefe quando vim pra Harvard, que claramente a agenda dele de manhã à noite era encontrar-se com pessoas a quem ele servia como mentor. E podiam ser alunos, podia ser junior faculty, portanto, pessoas mais novas que se juntaram, podia ser às vezes enfermeiras ou membros da equipa de ensaios clínicos. E ele dizia: "O mais importante que nós fazemos é dar o nosso tempo aos outros e ajudá-los a crescer. E é como tu cresces, é pela forma que eles crescem também". Portanto, eu cheguei a um sítio onde encontrei a excelência do mentoring, no sentido que dás o teu tempo, dás as tuas ideias e depois de teres, eu não estou a dizer que faças isso quando acabaste o teu treino, mas a partir do momento em que chegas a um determinado patamar, de facto, o teu sucesso é o sucesso das pessoas que tu estás a treinar. Por isso, nesse sentido, aqui, por exemplo, uma parte muito importante do currículo quando vais pra promoção, é dizer todas as pessoas que tu estás a servir como mentor e o que é que elas conseguiram. Portanto, não é só o que tu conseguiste, é eu estou a servir de mentora à pessoa A, B e C, e tens que ser muito específica, porque eles vão perguntar às pessoas, de facto, se elas me identificam como mentora, e depois dizem muito bem quais os papers que elas escreveram, quais foram os trabalhos que elas conseguiram a seguir, em que projetos é que as ajudaste. Quando estás a falar da competição, sabes que é muito engraçado. Por um lado, não é fácil. Nós temos um Nobel, ainda na nossa faculty, que recebeu o prêmio, penso que em 2021, e às vezes eu ando de elevador com ele. Portanto, sentir a competição ou sentir-se pequenino, é fácil. No entanto, também há esta cultura, também muito em Harvard, que é o sucesso de cada um de nós É o sucesso da instituição e o sucesso da instituição é também o nosso sucesso. Ou seja, há muito uma cultura de promover. Se tu és um de nós, então vamos te ajudar a crescer, vamos todos crescer, porque a instituição ganha com isso. Portanto, é engraçado que sim, a competição é enorme. Tu ganhas uma bolsa, olhas pro lado e a do lado ganhou três bolsas, portanto, tens que saber viver com isso. Mas não é uma competição de: "Espera aí, pra eu ganhar deixa-me abaixar o outro". Não funciona assim.
Pisar os outros pra chegar onde mais alto. Muito bem. Há alguma coisa que os americanos façam tão bem, e fazem tão bem, que tu quando voltas a Portugal ficas a pensar: "Filipe, não estou a falar de meios monetários, mas por que nós não fazíamos isto assim?" Lembrando agora dos métodos de trabalho ou não só. Alguma coisa que te surja assim. Isto era tão simples em Portugal fazerem isto e resultava tanto.
Há algumas coisas. Claro que é uma cultura um bocadinho diferente, mas, por exemplo, muita da investigação que eu faço, eu recebo funding de bolsas do governo e bolsas federais, mas também muito é filantropia.
Privados.
Sim. São privados que têm interesse naquilo que eu faço ou no que o grupo está a fazer, ou, por exemplo, uma doente ou a mulher de alguém que sofreu com esta doença e gostavam e vêm falar comigo. Há muito esta comunicação entre doentes e o médico e a equipe de investigação. Há pessoas que têm muito dinheiro pra investir, mas há pessoas que têm pouco, mas dizem: "Olha, eu tenho este bocadinho, mas eu gostava imenso que este dinheiro seja usado pra ajudar as pessoas que participam nos ensaios clínicos, porque eu acho que se pede muito às pessoas e acho que se elas vêm de longe, a gente devia ajudá-las". Ou, por exemplo, houve outra doente que me disse assim: "Olha, eu acho que vocês quando se trata de câncer inflamatório da mama, vocês fazem um excelente trabalho a comunicar aos doentes e aos seus familiares do que a doença se trata, mas eu acho que vocês deviam fazer um trabalho melhor em comunicar sobre esta doença com outros profissionais de saúde. Portanto, o que vocês precisam para fazermos isso?" Há esta comunicação muito grande e comunicação aberta entre os privados pequenos e grandes e as equipes de investigação, que claro, que ajuda. Equipes de investigação e médicas em geral, que ajuda a nossa missão, mas também me ajuda a sentir muito ligada ao doente e aos grupos que estão a financiar a nossa investigação. Isso uma coisa. E depois, eu acho que este mentoring system, em que tu és recompensado pelo sucesso dos teus mentorados ou estudantes, eu acho que isto é maravilhoso. E gostava que conseguíssemos e tivéssemos capacidade. Claro, é assim, isto requer tempo. Eu uso menos tempo pra fazer outras coisas, porque tudo isto requer tempo, rever as coisas dos meus alunos e passar meia hora só a encontrar-me com eles e dizer: "Então, como é que eu te posso ajudar? Que perguntas é que tens hoje pra mim?" Eu acho que isto cria um ambiente muito bom e muito produtivo no fim.
O câncer da mama, de fato, estima-se que em 2050, uma em cada três mulheres tenha câncer da mama, o mais comum na mulher. Eu acho que não há ninguém que não conheça pelo menos uma pessoa que tenha esse tipo de câncer. Todos os dias, aqui em Portugal, 24 mulheres recebem um diagnóstico de câncer da mama, mata cerca de 1600 pessoas por ano. E por acaso, coincidentemente, estamos no Outubro Rosa.
É verdade.
A Organização Mundial de Saúde é o mês de sensibilização. Foi coincidência, mas estamos no mês de sensibilização pro câncer da mama. Dia 30, aliás, é o Dia Nacional da sua Prevenção. Eu percebi com uma convidada que tive aqui uma vez, Emília Vieira, que há mais de 70 tipos de câncer de mama, há muitos. Concretamente, o câncer inflamatório da mama é a tua investigação, está mais focada aí. E também no triplo negativo, que creio que é o mais agressivo. E estes cancros associados a mutações genéticas, certo? Como os genes BRCA. O teu inflamatório, concretamente, é um tipo muito raro e agressivo, em que as células cancerígenas bloqueiam os vasos linfáticos e fazem aparecer a pele vermelha, a mama fica com aquela pele de laranja, é a ideia que eu tenho. Dois a 3% dos casos. Como é que tu consegues angariar fundos, Filipa? Porque eu sei que é uma das partes do teu trabalho, falaste nisso agora, angariar fundos pra isto, mas concretamente para um câncer que afeta não muita gente. Portanto, convencer privados e organismos estatais, agências que investem em investigação, pra importância de investir numa doença que afeta um número relativamente pequeno de pessoas. Como é que é possível fazer isto? Isto é complicado pra ti?
Ótimas questões, porque de fato, tanto o câncer inflamatório da mama como os cancros associados às alterações genéticas no BRCA1 e 2, sofrem um bocadinho desse mesmo mal, no sentido de serem caros e haver menos oportunidades. Interessante, no segundo caso, o BRCA1 e 2 é um bocadinho mais fácil, só porque como há uma componente genética, muitas vezes as doentes afetadas ou alguém que tem uma alteração genética, mesmo que ainda não tenha tido câncer, tem a sensação que eu estou a ajudar os meus familiares Portanto, há um commitment maior, porque tu sabes que a próxima pessoa a ser diagnosticada pode ser a tua filha, a tua prima. Então aí há essa componente de querer muito ajudar, baseado também nesses laços familiares. Em relação ao câncer inflamatório da mama, por um lado, tem havido uma maior atenção, eu diria nos últimos cinco anos, talvez, pelo menos nos Estados Unidos, para esta necessidade de investir também nas doenças raras, porque as doenças raras, e o câncer inflamatório da mama preenche critérios para tal. É uma doença rara, mas como é mais agressiva, é responsável por mais mortes do que o que tu esperarías de outra forma. E tem comportamentos e reage aos tratamentos, não necessariamente da mesma forma que estavas à espera para outros. Também há, porque é difícil de diagnosticar, porque muitas vezes as pessoas pensam que têm uma infecção e andam em antibióticos até alguém fazer o diagnóstico. Muitas vezes os doentes têm esta sensação de não confiar ou têm a sensação que a comunidade médica lhes falhou.
Sim.
Quando começam o tratamento e sentem que estão com uma equipa que toma conta deles, há uma enorme vontade de payback, de dar de volta e fazer: "O que é que eu posso fazer para que outras mulheres não passem pela mesma coisa?" E há muito este sentido de dar de volta. Mas é isso e não só, é também uma maior atenção que tem havido, tanto dos grupos privados, como também do ponto de vista do governo, em investir em doenças raras e não só as doenças mais comuns que afetam o maior número de doentes.
Já agora, estamos a falar deste gênero de cancros. Uma das grandes apostas da investigação diz que é combinar diferentes tratamentos. Estes antibody-drug conjugates, por exemplo, que se fala muito, dirigidos ao tumor, que transportam quimioterapia diretamente às células tumorais, combinado com imunoterapia. Nos teus estudos sobre o câncer de mama inflamatório, estão a tentar-se novas combinações terapêuticas. O que é que já sabemos e que perguntas é que continuam sem resposta? Tu vês que nos próximos anos pode haver grandes breakthroughs, grandes descobertas, grandes avanços?
Eu acho que sim. Eu acho que vamos continuar a ver avanços. Tu falaste muito bem dos antibody-drug conjugates com ou sem imunoterapia, que já estão de uma forma geral aprovados para doentes com doença metastática e eu acho que os próximos passos é vermos como é que podemos utilizar esses medicamentos antes da pessoa desenvolver doença metastática, portanto, tentar diminuir o número de doentes que alguma vez venham a desenvolver doença metastática.
Isso é espalhado, não é? Que o cancro se espalha, é isso?
Exatamente. Doença metastática é quando se espalhou para além da mama e dos nódulos linfáticos na região. Portanto, no futuro, acho que vamos começar a ver esses medicamentos a serem usados antes. Nesses antibody-drug conjugates, vamos ver as novas gerações que tentam combinar mais do que um agente dentro da mesma droga. Como é que podes ter antibodies que atacam mais do que um antígeno, portanto, mais do que um alvo ao mesmo tempo. Portanto, eu continuo a sentir-me muito motivada pelo tipo de investigação que se está a desenvolver. Acho que vamos continuar a ver progressos nos próximos anos, sem dúvida.
Deste programa que tu diriges já desde 2021, este Inflammatory Breast Cancer Program, na DFCI, já seguiram mais de 900 doentes. É muito, o que é muito bom. Filipa, para falar também da dimensão dos apoios, estás envolvida em vários projetos ao mesmo tempo, com bolsas e fundos que vão até 2020, 2030 e 2031. É impressionante. Consegues, além disso, acompanhar doentes no Brigham, no Women's Hospital. Tu diz sempre: "Cuidar dos doentes e oferecer as melhores terapias são sempre a minha prioridade". Consegues conciliar isto tudo com a investigação, com as aulas? Não deve ser fácil. Tu tens vida? Além dos hospitais.
Tenho. Tenho três filhos, marido e sim, muito envolvida na vida deles, mas se calhar até demais, diriam eles. Mas sabes que é uma coisa engraçada. Eu cheguei aqui em 2020 e disseram: "Pronto, olha, é assim o seu horário, isto são as suas responsabilidades e depois tem aqui o seu pager e os doentes podem ligar-lhe a qualquer hora do dia". E eu pensava-
Dão o teu número aos doentes, sempre, é?
Sim.
Ataca dois gomos, não é?
Sim, mudaram um bocadinho e agora ao fim de semana temos um serviço, temos médicos que cobrem. Mas isto para te dizer, eu acho que isto é o maior exemplo que os teus doentes tu segues de uma forma única, porque eles podem me ligar a meio da noite ou a qualquer hora. Estás a ver? Tanto é acesso direto aos meus doentes a qualquer hora. Uma das coisas que eu gosto de estar aqui é esta possibilidade de fazer um bocadinho de tudo, porque eu sinto que cada uma alimenta a outra. Eu sou melhor médica porque faço investigação, porque trabalho de perto com os colegas de laboratório e porque tenho a oportunidade de comunicar o que faço com frequência. E também sou melhor investigadora porque sou médica e eu tomo conta dos meus doentes desta forma.
Se calhar és melhor professora, porque passas a tua experiência do dia a dia com os doentes. Não é?
Sim.
Todas as atividades se ajudam e se apoiam umas às outras. De facto, é curioso.
Sim, não é só teoria.
Sim, incrível. De que é que tens mais saudades de Portugal, porque estás longe tantos meses por ano? O que é que tu tens mais saudades? Da comida, dos cafés, depois do almoço, da conversa à mesa, da família, do quê?
De tudo, eu acho que é um bocado esta saudade do ser português e da cultura e como nós nos relacionamos uns com os outros. É difícil de encontrar igual no resto do mundo. Só para te dar um exemplo, os meus filhos falam português perfeitamente, passam o verão todo em Portugal e fazem campos de férias em Portugal. No que depender de mim, vão ser tão portugueses como americanos.
Tiveste que adaptar muito?
Não, diz, desculpa.
Esta questão da alimentação, por exemplo, do dia a dia, como é que é um dia a dia típico teu? E houve coisas muito difíceis que tiveste que adaptar ou não? Foi tudo mais ou menos natural?
Não, há coisas que tu não te queres adaptar e tens que lutar um bocadinho aqui em casa. Tu não te queres adaptar que eles comam pizza, hot dogs e hambúrgueres na escola a todas as refeições, ou que as festas de anos sejam pizzas às 15h ou 16h. Portanto, isso exige um bocadinho de esforço em casa. Dizer: "Pronto, tudo bem que o resto do mundo faça, mas nós não". Ou, por exemplo, eles são perfeitamente bilíngues, mas é muito esforço nosso, inclusive é de nove anos, que é mais resistente, de falar comigo em inglês em casa e eu dizer: "Não percebo nada do que tu dizes". Ou quando não estão a falar português, só veem bonecos em português. É um esforço grande de pai e mãe, mas eu acho que muito passa também cá por casa, o que lhes dizemos que é importante. E não é só isso, eles adoram estar em Portugal, portanto também conseguir manter esta ligação com a família e com as raízes em Portugal. E depois um dia, quando eles crescerem, eles escolhem onde querem passar o resto da vida, também onde é que vão ter oportunidades ou onde é que se sentem em casa. Mas é uma luta diária.
Filipa, estamos quase a terminar. O que é que Portugal tem que os americanos podiam aprender conosco, que não nos fazia mal nenhum?
Imensa coisa. Sabes que eu quando vim para cá, adorei o treino aqui, mas eu senti que eu tinha aprendido em Portugal uma maior capacidade de, como se diz em português, me desengasgar. Sem ter todas as condições e tudo o que está disponível em Portugal. Mas conseguir, se as coisas não correm como estavas à espera, como é que consegues dar a volta e fazer o mesmo com menos. Acho que isso é fascinante em Portugal. E depois também, uma coisa que eu também aprendi muito em Portugal, que foi esta vontade de seguir os meus sonhos, e isto vem de Portugal e da formação que eu tive e tudo o que recebi quando estava em Portugal. Eu lembro-me que quando disse ao professor Passos Coelho que ia para os Estados Unidos, ele disse assim: "Está bem, então vais lá para os Estados Unidos". Na altura, eu disse-lhe que ia um ano. E ele: "Então e para onde é que vais?" Eu: "Se é para deixar a minha casa e a minha família, eu vou para Harvard". E ele riu-se e disse: "Sabes que não é assim tão fácil". Demorou um bocadinho, mas cá cheguei. Mas isto para dizer que eu acho que nós temos esta capacidade de nos virar, procurar soluções, chegar onde queremos, que no resto do mundo nem sempre tu encontras isso. E por isso é que os portugueses também, quando se aventuram lá fora, geralmente safamo-nos bem, porque conseguimos ir atrás dos nossos sonhos e daquilo que nós queremos e que nos faz feliz, em última análise.
Não pode ser uma maneira mais bonita de acabar esta conversa. Muito bem, Filipa Lins, quero agradecer muito a tua disponibilidade, em nome também da FLAD, a Fundação Luz Americana para o Desenvolvimento, e da Rádio Observador. Bem-hajas pelo teu tempo e continuação de uma carreira auspiciosa como tem sido e vai continuar a ser, com certeza. Muito obrigado, Filipa. Até sempre.
Obrigada e muito obrigada por me terem convidado. Foi uma enorme alegria.
Obrigado.