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Sejam todos muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu está Alberto Correia, que desfia sempre as suas memórias e algumas curiosidades sobre a região Centro, que ele é especialista como historiador. Hoje falamos de uma lenda que vem do imaginário das Terras do Demo, de Aquilino, é a lenda da Casa da Moura, que nos vai contar Alberto Correia. Bem-vindo, Alberto.
Chamaremos sempre Terras do Demo a essa geografia que integra os territórios dos atuais concelhos beiraltinos de Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva. Terras do Demo, que Aquilino Ribeiro assim a celebrou, a partir dos ditos das mulheres das margens quentes do Douro, que ali vinham vender laranjas e figos, e as achavam ásperas para as suas caminhadas. Chamaram-nas assim os romeiros da Senhora da Lapa antigamente, quando a travessia dos caminhos da serra se fazia a pé ou a cavalo. Houve tempo em que assustavam a gente as penadias estranhas, como esse já falado outeiro da Fonte Santa, as encruzilhadas onde ladrões a poderiam cometer, os enormes lajedos da serra, onde as feiticeiras se reuniam em noites de Sabbath. Lendas de mouras povoam ainda estas terras, princesas esquecidas que ali ficaram encantadas, guardadoras de uma fortuna em ouro, esperando o regresso do príncipe que delas ficara enamorado. No adusto território de Vila Nova de Paiva, nesse altiplano que fica entre Fráguas e Queiriga, onde podem ver-se antigas antas desventradas, encontra-se ainda uma velha casa abandonada, em cujo chão lajeado certa princesa encantada guardara seu tesouro. Chama-lhe a gente Casa da Moura, essa mourinha enamorada que ali ficou ansiosa, na espera do amado, que ali a encontraria numa qualquer madrugada auspiciosa. Soube a gente do lugar que uma mourinha ali guardava o seu tesouro, que entregaria ao namorado que ali aparecesse num qualquer dia de manhã. Rapazes houve que ali foram em segredo, timoratos, ao romper do sol pela manhã. Alguns contaram que, escondidos nas dobras de um rochedo, viram a mourinha num qualquer dia de manhã. Tinha o ar de uma princesa ali postada à sua porta, longos cabelos negros caindo sobre os ombros, um pente d'ouro reluzindo ao bater-lhe o sol da madrugada. Sentiu ao longe brandos passos a princesa. Talvez do amado que chegava. Olhou, viu de relance um rosto que espreitava, mas não era o rosto do príncipe que se esperava. Uma poalha de oiro abriu-se por encanto à porta da morada. Fechou os olhos por instantes o rapaz que espreitava. E quando olhou de novo a porta da velha morada, nada mais viu que a parede iluminada, revérberos do sol tremeluzindo nos cristais de quartzo de uma rocha antiga. E contou à sua maneira, na aldeia, que tinha visto a mourinha a pentear os longos cabelos ao abrir da madrugada.
Que bonita lenda, Alberto, que nos lega aqui com esta lenda da Casa da Moura, mais uma lenda das Terras do Demo. Ainda bem que é uma mourinha de quem fala.
São sempre sedutoras estas lendas. E é pena que não se contem mais vezes.
E temos muitas. Provavelmente, estão guardadas naqueles levantamentos do Vial Mouzinho sobre as lendas. Há livros inteiros sobre lendas das mouras, das mouras encantadoras e encantadas. Portanto, é também uma tradição nossa muito típica. Sim, senhora. Estamos conversados, Alberto. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja, até amanhã.
Até amanhã.