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Olá e sejam bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadora e conto consigo aí desse lado para ouvir Alberto Correia. Ele, em Viseu, continua esta semana a desfiar-nos os termos das refeições tradicionais nas Terras do Demo. E hoje falamos de merenda, das merendas nas terras beirãs e como Aquilino nos menciona e nos fala. Mas Alberto, merenda pode ser várias coisas, certo? Bem-vindo.

A merenda adquire diversos significados nas Terras do Demo. O mais comum é o que designa a refeição que na meia tarde, equivalendo ao almoço da manhã, se serve à gente da lavoura, nesse peculiar período dos grandes trabalhos, que têm começo ao chegar da primavera e se encerram com a vinda do outono, com simbólicas datas cumpridas na obediência a uma antiga tradição que estabelece o calendário da merenda entre os dias 25 de março, festa da Anunciação a Nossa Senhora no calendário cristão, e 16 de setembro, dia de Santa Eufêmia, com importante romaria na região. Penedono, por exemplo. Em cesto ou cesta aviada, a dona da casa, sobre toalha de linho estendida na relva ou na eira, pode ainda servir sobras do jantar com o pão, os nacos de carne cozida, associando presunto, a chouriça, o bacalhau, a sardinha frita, as azeitonas, o queijo de produção caseira e o vinho. Merenda significa também o alimento mais ligeiro, por princípio, que se leva em bolsa, alforje ou cavás para viagem, romaria ou feira, ganhando tanta vez a designação de farnel, acontecendo, nesse caso, que a degustação dos manjares possa acontecer em diferente hora do dia. A Lapa, a Senhora da Lapa de longe, como muitas vezes era designada, traduzia a importância da romaria que arrastava romeiros de grande distância, que vinham a pé e a cavalo, alforjes ou bolsas de quadrados carregadas de mimos cuidadosamente preparados, que, ao final da procissão ou em diferentes horas do dia, se partilhavam quantas vezes irmamente com vizinhos que bancavam no pinhal. Evoca a saída ali de Glorinhas, essa terna figura do romance de Aquilino, "As Terras do Demo", convencida pela blandice enganosa da Teresa Zabana, jeito apurado de alcoviteira, que tal convencionara com o fidalgo Mioma, que por Glorinha sentia uma extremada paixão. "Ouve, hei de cozer o pão, faço uma bolinha com carne para a nossa merenda." "Não faça, eu arranjo farnel. Ainda aí há salpicão", responde Glorinhas. Foram à festa, cumpriram o voto, entraram no abandonado colégio dos jesuítas, voltearam entre a gente. Finalmente, dá-se o almejado encontro com Inácio Mioma. Horas depois, Glorinhas tinha esquecido o Joaquim Javardo, que por ela morria de serôdia paixão. Teresa Zabana aparece com o seu jeito matreiro. "Ai, minha gente, estou com um taró." "Vamos para uma fogueira", propôs Mioma. Sentaram-se ao lume, junto do vendeiro do odre, e puxando elas dos farnéis, todos os três comeram e beberam como família. Que isso se passava também com o Malhadinhas ao tempo das suas romarias de rapaz. Diz ele: "Ia-se à Senhora da Lapa, à Senhora da Penha de Voga, de Cruz, estandarte e borracha a tira colo, no borral, o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro, as trutas do Paiva." E evocando o escritor peripécias da sua própria odisseia, "Dizeu vai, Dizeu vem", lembra. Em Supões, como nos breviários dos frades, com os passos rituais "Hic bibitur, hic pitatur", tomava-se o seu codora, sorte de viático para a escalada. Sempre havia quem trouxesse farnel, os clássicos bolinhos de bacalhau ou trutas de escabeche em merendeiros de folha. Atente-se na recomendação feita ao criado pelo fidalgo do Carregal, que dele se despede em Viseu aquando da sua viagem para Lisboa, ao tempo das carroças puxadas a cavalo, em que, entre outras recomendações, não deixa esquecer a da merenda para a viagem de regresso. Dali a 10 dias, salvo contra ordem, estivesse em Viseu à chegada da diligência, com as duas cavalgaduras e merenda aviada. Mais pobre, certamente, o farnel das pobres visionárias que no livro do Menino Deus se aprontam para ir a Belém, à beira do Tejo, onde fortuna sonham achar Mãe e filha arranjaram o farnel, concertaram-se com o recoveiro e meteram-se à jornada. Curioso exemplo é o farnel que as mães dos estudantezinhos da Lapa mandavam aos filhos para os compensar dos jejuns do colégio. Como este outro exemplo, o da viagem que padre Ambrósio e Libório Barradas fazem a Barelas para requerer, junto do tio deste, o afamado Fome Negra, a necessária ajuda para complemento de estudos. Partindo de São Francisco, duas horas de andada, chegam a Aris, desmontam da égua e da burrinha e padre Ambrósio recomenda ao vendeiro: "Traga-nos vinho em vasilha que se veja". E sacando o farnel do alforje para cima do madeiro, convidou-me a trancar. E a sua destra, naquela amplitude amena com que abençoava, pairou sobre o campão de gostoso recheio, os bolinhos de bacalhau e outros manjares que traíam as excelências dos invólucros engordurados. Trouxe o taverneiro o vinho numa infusa de molelos. Meu mestre encheu os copos e ao alto contemplou a transparência. "Boa cara tem. Vejamos as obras." E libando primeiro levemente, tombou o copo de boa gana. Ao já falado farnel que, em cuidados merendeiros, se preparara para o fidalgo do Carregal, que se deslocava a Lisboa, quase faz sombra o apurado e emblemático farnel que dona Providência, a mana do parco de Chão Bom das Beias, prepara com as demais viajeiras para o passeio de três dias que Diamantino das Dores lhes propicia ao Bom Jesus. Diz ele: "Dona Providência, em recompensa, confecionou um farnel delicioso, condicente com o seu nome de batismo e a comprovada finura do palato eclesiástico. Bolinhos de bacalhau, batizados a verde salsa, para o que desfiou o fiel amigo com a santa minúcia com que desfiava o rosário, filhós, segundo a fórmula secreta das freiras de Freixinho, que tinham dedo inspirado, e uma bula de trigamilho recheada de saldos de presunto e rodelas de chouriço para o pospasto. Águeda concorreu com um cabrito assado na francela, tão gordo que não se lhe enxergavam os rins. E Helena, com um galo assado no espeto, que era o Jesus das Francas, tenro nos anos, embora estilado nas carnes. Rabo de porco cozido, que passa por petisco de primeira, e lombo exumado da caçoila do pinga, que prometia um regalo de sapidez". Outros exemplos se poderiam colher na farta literatura beirã de Aquilino.

Muito curiosas e que grande levantamento que tentado fazer, Alberto, para saber de todas estas obras do Aquilino e com estes nomes, de facto, tão estranhos. Eu confesso também, e estas ementas que tem trazido, mas de facto também confesso que morri muito com os nomes das personagens extraordinárias do Aquilino, desde a Glorinhas ao Inácio Mioma, ao Joaquim Javardo, o Fome Negra, a dona Providência. É uma imaginação extraordinária, não só na descrição das refeições.

É, são. Duas notáveis figuras deste livro Beirão.

Muito bem conseguido e muito trabalho tem tido, Alberto. Ainda bem. Nós colocamo-nos com isso. Esperamos ver tudo isso depois numa obra a curto prazo. Uma obra sua. Muito bem. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja. Obrigado.

Até amanhã.