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Olá e sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura. Em Viseu, Jorge Adolfo Marques estreia-se assim nesta História das Histórias. Ele é professor, historiador, arqueólogo, é doutorado em Ciências de Comunicação, especialista em História e Arqueologia. Ele dá aulas e está muito habituado a esta divulgação da história também nos media. É isso, Jorge, por isso que te dou as boas-vindas, desde já. E é bom começarmos por esta entrada, esta estreia, por um monumento megalítico, por uma orca, a Orca de Forles, em Sátão. O nome de orca é muito curioso, que nós temos, é o que a gente chama também os dólmens ou as antas, é a mesma coisa. Vamos a isso.
Exatamente. Pois, as orcas não são só aqueles cetáceos que andam no mar.
Sim.
São também esses belos monumentos megalíticos, da nossa pré-história, da pré-história europeia. Esses monumentos megalíticos, porque são construídos com pedras de grandes dimensões, por isso é que é mega, e são em pedra, portanto o lithos, que vem lá do grego antigo, e que há muito aqui pela região de Viseu, por toda Portugal. Toda a costa atlântica é muito rica, costa atlântica portuguesa, espanhola, francesa, da Inglaterra, da Irlanda, até à Escandinávia, é o território predominante destes monumentos que nós aqui também chamamos de orca, pra além de anta ou dólmen. Eles são construídos entre finais do quinto milênio e inícios do quarto milênio antes de Cristo. Eram populações neolíticas que os construíam, que habitavam esta região aqui de Viseu e começaram a construir estas estruturas de cariz funerário e religioso. Os dólmens, também conhecidos como orcas. Este termo orca é muito específico aqui da Beira Alta.
Ok.
São monumentos que foram construídos e reutilizados até ao segundo milênio antes de Cristo. Foi um longo período em que a arquitetura megalítica, os rituais e a própria sociedade que os construía e utilizava, passaram por vários processos de evolução e de reorganização, mais ou menos complexos, que não é aqui o momento para os explorar. Desta forma, não podemos falar de uma cultura megalítica enquanto fenômeno homogêneo, fechado, mas sim de um conjunto de práticas de índole sociocultural, com aspectos e características que se revelam heterogêneos ao longo do tempo. Portanto, não é um fenômeno, é um tipo de monumento que ocorre durante um longo período e que pertenceu a várias sociedades. Os primeiros túmulos megalíticos são mal conhecidos ainda na região de Viseu, mas em todo caso teriam uma câmara simples, fechada e coberta com uma mamoa. Eu aproveito pra explicar que a mamoa é a terra que cobria essa estrutura em pedra, no fundo, que está no cerne do monumento. O monumento é tudo. Mas hoje, nós quando olhamos na paisagem, costumamos ver apenas essa estrutura em pedra, muito característica, até aparece em muitos livros de turismo.
Aquelas pedras em pé, e depois com uma mesa em cima e um corredor à entrada, não era?
Exatamente.
Mas na origem tudo isso era tapado por terra. Ficava um monte, uma espécie de monte.
Ficava um monte, um montículo.
Um montículo, exato.
Um montículo de terra que o cobria. Só que com os séculos, com os milênios que passaram, as chuvas, os animais a fazerem tocas, os caçadores de tesouros.
A erosão.
E mais recentemente, os arqueólogos, foram retirando essa terra para, no caso mais recente, para explorar como é que era construído aquele monumento em específico. Mas o que nós víamos era precisamente esse monte. Se recuássemos até lá às origens, quando ele foi construído, o que se via na paisagem era um montículo, e esse montículo é tal designado de mamoa, por ter uma configuração do peito, enfim, de uma senhora, mas efetivamente era esse o aspecto na paisagem, esse aspecto monumentalizado. Progressivamente, devem ter coexistido com esses primeiros monumentos, outros que já possuíam uma câmara aberta, com um espaço tumular interior, demarcado do exterior. Quer dizer, portanto, há uma evolução na própria arquitetura destes monumentos. Os mais complexos e de maiores dimensões foram construídos no chamado período do Neolítico Final, entre finais do quarto milênio antes de Cristo e o terceiro milênio antes de Cristo. Portanto, há ali um período no Neolítico Final. Isto é importante para as pessoas perceberem que estas construções já correspondem a populações Que produziam alimentos. Não eram só caçadores e recolectores.
Recollectores. Exato.
Nós aprendemos isso nas aulas de história, que havia os caçadores, recolectores, portanto caçavam, iam caçar animais, iam recolher frutos. Aqui eles já produziam alimentos nesse período chamado Neolítico Final. Todos eles apresentam uma câmara poligonal, portanto, a configuração apesar da arredondada, é poligonal e tem um corredor geralmente muito longo. Era isso que falavas há pouco. E encontravam-se então cobertos também com essa terra e pedras que designamos de mamoa. Eles estavam muito destacados na paisagem. Isto é importante também. Isto é, o coberto vegetal que nós temos hoje não é exatamente o mesmo que existia na altura. Nós hoje percorremos o nosso território e encontramos muitos eucaliptos, muito pinheiro. A paisagem, o coberto vegetal era diferente e, portanto, esses monumentos tumulares ficavam muito destacados na paisagem.
Não sabia. Eu achava que eram postos a terra por cima pra disfarçar, exatamente, sei lá, pra não ser assaltado. Mas não, a ideia era mesmo dar nas vistas pras pessoas saberem onde é que estavam.
Era aquilo que eu disse há pouco. Monumentalizá-los. Isto é, era um monumento que se via a grande distância. E por quê? Aqui é um aspecto importante. Por quê? Porque eles serviam de ponto de referência de demarcação de território pras populações que os construíam. Era uma espécie de marco territorial.
Ok, não sabia.
Temos que ter em conta que apesar de serem agricultores já, mas não deixaram de ser caçadores e recolectores que exploravam o território. Portanto, não eram propriamente já só nômades, mas tinham um sedentarismo itinerante. Isto é, montavam o seu acampamento, as suas cabanas numa determinada zona, numa determinada época do ano, produziam os alimentos, mas era muito importante a caça e portanto, depois deslocavam pra outro sítio esses lugares, esses habitats. E portanto, aquele monumento era uma referência na paisagem.
É muito curioso, não fazia ideia. E estas Orcas, estas Antas, normalmente depois têm aquela câmara onde eles eram enterrados com uma série de sinais, de símbolos, de presentes pra vida futura, pra vida depois da morte, imagino eu, como os egípcios faziam.
Exatamente. Portanto, ao serem sepultados, eram acompanhados de objetos do cotidiano deles.
As cerâmicas.
Como, por exemplo, pontas de seta.
As armas.
O que aparece muito quando os arqueólogos escavam estes sítios? Aparecem as pontas das setas. Por quê? A ponta é geralmente em sílex.
Que é uma pedra.
Em sílex ou em quartzito, portanto, em rocha, digamos, em pedra.
Sim.
E isso não apodrece. Enquanto que a parte de madeira.
Pronto, isso desapareceu.
Desfaz-se.
Em milhares de anos.
O que é que sobra? Sobram essas pontas de seta e outros objetos como lâminas, facas, punhais, tudo em pedra.
Machados.
Machados, exatamente. Machados neolíticos, machados em pedra polida. Exatamente, que costumam ser também associados a essa fase do Neolítico. Raramente aparecem ossos, porque se desfazem com o tempo. E, portanto, o que nós encontramos é muitos desses objetos que faziam parte do cotidiano daquele indivíduo ou daqueles indivíduos, porque podiam ser túmulos coletivos, geralmente eram coletivos. Comparando até com os nossos dias, eram um pouco como os mausoléus nos nossos cemitérios.
Exatamente, ou necrópole.
Daquela família, estão lá os vários familiares. Próximo de um dólmen ou anta ou orca, geralmente, e destes de grandes dimensões, o que é que acontece? Há precisamente isso que acabaste de dizer, a necrópole. Isto é, quando há outros túmulos do mesmo tipo.
Exatamente.
Isso é que constitui uma necrópole.
Jorge, muitas vezes estas paredes, digamos assim, destas câmaras, também tinham pinturas, certo?
Exatamente. Isso é muito importante porque aquilo é um espaço sagrado. Não é apenas um lugar de enterramento, é também um lugar de culto. Os arqueólogos têm encontrado no exterior desses dólmenes, sobretudo os de grandes dimensões, vestígios de fogueiras no chamado átrio. Na entrada desse corredor que dá acesso à câmara, são encontrados vestígios de cinzas, estruturas pétreas.
Isso quer dizer que houve ali rituais.
Exatamente.
Rituais do tipo religioso, imagino. De enterramento.
Rituais religiosos.
Sepultamento.
Exatamente, que ocorriam em determinadas alturas ou em determinados momentos de enterramento de alguém. Os esteios, vou agora usar este termo, que são as pedras ao alto, verticais. Esses esteios, em muitos casos, como o extraordinário dólmen de Antelas, em Oliveira de Frades, têm motivos pintados, mas podem ser também gravuras.
São o quê? Geométricos ou são antropomórficos ou são pessoas, animais?
Antropomórficos.
Tem de tudo.
Há de tudo. Geralmente são geométricos. Predominam, eu diria que aqui na Beira Alta, o grupo dolménico da Beira Alta tem muitas pinturas. Tem cenas de caça, antropomorfos, zoomorfos, portanto, representação de animais ou representação de seres humanos, de uma forma muito pouco naturalista, mas que se percebe que é um ser humano ou um animal, ou geralmente figuras geométricas. O dólmen de Antelas é extraordinário, até costuma-se dizer que é a catedral do megalitismo beirão, porque tem pinturas não só na câmara, mas provavelmente também tinha no corredor. Isto é importante também para as pessoas perceberem. As pinturas e gravuras são encontradas do lado de dentro do monumento. No acesso à câmara e na câmara. No exterior, repare-se, a chuva, os animais, a humidade, tudo isso degradava muito rapidamente as pinturas.
Vai destruindo as pinturas.
Exatamente. No interior, em muitos casos, porque a parte da cobertura desapareceu, essa tal terra que cobria, o que acontece? Muitas pinturas estão muito degradadas, quase que não se veem. Mas é possível, como por exemplo, no tal dólmen Orca de Forles, no concelho de Sátão, que foi escavada recentemente e que neste momento tem um pequenino centro interpretativo numa antiga escola primária dessa aldeia. Eu convido todas as pessoas a visitá-la, porque está muito interessante, com o espólio que saiu das escavações.
Desta orca de Forles.
Dessa orca de Forles. É um pequenino monumento, é um monumento típico aqui do megalitismo beirão, que tem esse pequeno centro de interpretação na aldeia de Forles e que pode ser visitado. Aliás, aqui na região há vários locais que eu citaria, como por exemplo, o Museu Arqueológico do Alto Paiva, em Vila Nova de Paiva, que tem muitos materiais, nomeadamente um monumento que foi escavado e que foi levado para lá, pedra a pedra, em Vila Nova de Paiva. É um sítio admirável a ser visitado, mas também o Museu Municipal Manuel Soares da Albergaria, em Carregal do Sal, ou o Museu Terra de Besteiros, em Tondela.
O próprio Polo Arqueológico de Viseu, na Casa do Mirador.
Exatamente. O Polo Arqueológico de Viseu tem uma característica. O Polo Arqueológico de Viseu, doutor Almeida Henriques, o nosso falecido presidente de câmara. Esse polo arqueológico tem um aspecto importante que eu gostava de referir, que é: tem o espólio recolhido pelo doutor José Coelho, que foi assim uma espécie de, eu diria, Indiana Jones da arqueologia visense e portuguesa, porque ele não tinha propriamente uma formação científica como hoje existe, mas à época, estamos a falar do início do século XX até meados do século, sensivelmente, ele fez o estudo, a escavação de alguns monumentos e a identificação de vários monumentos aqui do concelho de Viseu, nomeadamente um muito importante, que é o Mamaltar de Vale de Faixas, que fica aqui mesmo a três, quatro quilómetros do centro da cidade de Viseu. E que foi de facto um homem que lutou muito pelo património e a preservação do património arqueológico da região, e a família doou esse espólio à Câmara Municipal e que musealizou na Casa do Mirador, que só por si vale a pena ser visitada.
Jorge, estou a pensar que se calhar isso merecia um dia uma crônica em si, uma história das histórias, falar desse homem e da Casa do Mirador. Porque não? Fica aqui esta ideia. Para já, hoje ficámos a saber muito sobre não só esta orca do Forles, de Sátão, que vieste falar, mas também muito sobre estas construções megalíticas. Foi muito importante perceber isso, saber isso. Jorge Adolfo Marques, bem-hajas. Nós marcamos encontro amanhã para mais uma conversa. Muito obrigado. Até amanhã.