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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Secadura. Em Viseu, Alberto Correia vai nos falar da poética da aldeia hoje. O registo no masculino. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.
Quando a noite se soltava sobre os campos e os homens regressavam de sachola ao ombro, a lua cheia, em seu tempo, acompanhava de longe os passos vagarosos dos homens da lavoura. E era então que eles contavam aos filhos pequenos a história trágica do homem cobiçoso que trabalhara ao domingo, não guardando o dia do Senhor, e que eternamente fora colocado, para exemplo, no círculo de fogo quando era lua cheia. Contavam esta história e as outras histórias que tinham aprendido dos avós. Era também nessa hora, sobre o verão, que os ralos, os grilos e as cigarras enchiam de cantos o anoitecer. Era ainda a hora de uma coruja piar na fenda de um outeiro, do canto triste da noitibó, das estrelinhas de pastor a cair lá por longe na montanha, do sino a badalar as trindades costumadas. Mas a poética da aldeia vinha já da infância, dos jogos do peão, da barra e da bilharda, dos corpos nus a banhar-se nos ribeiros, dos trenós construídos com ramos de giesta a escorregar pelos outeiros, do jogo de bola, da ida às sortes e da fita vermelha de apurado para as correias de soldado, do registo do santo no chapéu ao regressar da romaria, do guião ou do andor arvorado em procissão, do namorico ao pé da fonte. Poética do jogo de cartas na taberna, a bisca ou burro, chicalhão, do casamento na igreja, da boda feita com vitelo gordo, da casa herdada dos avós, dos chãos comprados, da vinha plantada esbagoando uvas no lagar, da pipa aberta ao vir do São Martinho, do porco comprado para a seiva na feira quinzenal. Poética de um filho já prestes a nascer. Poética dos campos semeados, do trigo a crescer, das abelhas volejando sobre a flor das cerejeiras, dos romances cantados por ceifeiros, do grão estendido sobre a eira, dos alqueires transportados ao moinho, do pão a fintar no agasalho da maceira, do cheiro bom do pão partido em pequeninos, a mulher e os filhos sentados à lareira, as badaladas de um sino convidando a rezar. Poética de um antigo viver patriarcal.
De fato, é uma poética sentida no campo e na província, que se calhar hoje já faz muitas saudades, Alberto. São memórias que ficam sempre e que nos prendem também às nossas raízes.
Sim, as pessoas mais velhas que as viveram como crianças e olharam os adultos também deste tempo lembram com uma saudade saudável, que tem que ser assim, porque os tempos se transfiguraram. Mas é bom que as memórias fiquem recordadas em termos de escrita ou registadas de outra maneira, como é o filme ou a gravação, etc.
Exatamente. Como é o caso destas suas crónicas, que eu gosto tanto também por causa disso. Deixam-nos um registo, deixam-nos uma memória, que assim também não se perde e que podemos sempre ouvir e ouvir quando quisermos. Os podcasts têm esta vantagem hoje em dia. Muito bem. Muito obrigado, Alberto. Marcamos encontro amanhã. Bem-haja.
Até amanhã.