Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, seja bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu chamo-me João Paulo Sacadura e aqui estou apenas a acolher o Jorge Adolfo Marques, historiador e arqueólogo, especialista em história, arqueologia, património e educação, que hoje, nesta sua terceira crônica, vem nos falar da romanização e desta quinta, Quinta da Tabuadela, ali no Conselho de Satão. Vamos fazer então um recuar no tempo com o Jorge e voltar ao primeiro milênio antes de Cristo. Jorge, vamos a isso. Bem-vindo.

Obrigado. Pois, vamos aqui começar no primeiro milênio antes de Cristo e fazer aqui uma espécie de um retrato do que era a geografia humana nestes territórios de Viseu e até um pouco mais a norte. Era um território ocupado por vários povos e grupos étnicos menores, que se encontravam distribuídos pela península. Interessa-nos, em particular, o território compreendido entre os rios Tejo e Douro, na medida em que, desde finais da Idade do Bronze, este espaço era habitado por um conjunto de povos de origem indo-europeia, pré-céltica, que no seu conjunto eram designados de lusitanos. Entre 147 antes de Cristo e 139, esses povos foram chefiados por uma personalidade que todos conhecem, Viriato, o herói que acabaria por ser morto à traição pelos seus companheiros.

Jorge, o Viriato era mesmo uma figura histórica, não é um mito?

Não é um mito.

Postado novo.

Não, não é um mito. É verdade, à volta dessa figura, desse chefe lusitano, claro que foram construídos vários mitos, mas foi uma figura que existiu e que é descrita, aliás, pelos seus inimigos, pelos romanos e também por gregos. Depois da morte dele e durante vários séculos que eles escreveram sobre Viriato, que liderou os lusitanos.

E, de facto, uma coisa, desculpa, é uma fonte credível, porque se fossem os inimigos a falar dele, podiam pintá-lo de maneiras muito laudatórias, não é?

Ainda bem que utilizas a expressão pintar. E foi isso que aconteceu ao longo dos séculos. A cor utilizada na sua pintura, digamos, no seu retrato, foi variando. E foi variando até de acordo com o contexto histórico de quem escrevia sobre ele. Isto é muito curioso. Isto é transversal a todos os grandes heróis ao longo da história. Viriato diz-nos mais, porque está muito associado à cidade de Viseu.

Sim, à cava de Viriato e tudo, àquela tradição.

Havemos de falar sobre isso num outro programa. Mas é uma figura histórica. Existiu. Continuando, em 25 a.C, antes de Cristo, Augusto, o imperador Augusto, aliás, o primeiro imperador, conquista os últimos redutos da resistência à ocupação romana no norte da península Ibérica. A partir de então, ele encetou, foi um grande imperador, ele encetou uma profunda reforma político-administrativa que incluiu a criação da província da Lusitânia. Repare-se, os lusitanos existiam, mas não existia uma província romana. Ela só vai existir precisamente a partir de Augusto. Ele fundou a capital dessa província, que aliás, é uma cidade que nós também conhecemos hoje, que é Emérita Augusta, hoje Mérida, na nossa vizinha Espanha. Ele urbanizou povoados que eram ocupados por esses tais lusitanos, fundou cidades, delimitou os territórios das civitates. As civitates eram territórios político-administrativos dos vários povos que constituíam os lusitanos. Portanto, os lusitanos não eram um povo, eram um conjunto de povos e que até os romanos, por uma facilidade de os nomear, deram-lhe esse nome, lusitanos. E onde é que eles viviam? Viviam precisamente neste grande território que vem desde o Douro até ao Tejo, entra ali um bocadinho pelo Alentejo e alarga-se também ao território espanhol, à Extremadura espanhola. Augusto promoveu a construção de uma rede viária extraordinária, que ainda hoje há muitos vestígios dela.

Estas estradas romanas que às vezes tinham aqueles marcos miliários, não eram?

Os marcos miliários. Miliários porque tinham a milha, portanto a milha, por isso é que é marco miliário. Marcavam quantas milhas tinham sido percorridas a partir da cidade onde começava a contagem. É curioso, nós hoje temos as placas a dizer, aparece a localidade e quantos quilômetros ficam, a distância até essa localidade. Os romanos faziam um bocadinho ao contrário. Começavam a contar a partir da localidade e, portanto, já se sabia que quando um romano cruzava uma milha, tinha lá as milhas até à localidade.

De origem, sim.

Augusto promoveu, portanto, essa construção, e fez uma profunda reforma que conduziu à aculturação desses povos indígenas, tendo como princípio essa reordenação territorial, mas ele respeitou muito As unidades étnicas pré-romanas. Muitos desses povos estão numa ponte, que é a Ponte de Alcântara, estão lá nomeados. A Ponte de Alcântara sobre o rio Tejo.

Mas já em Espanha, não é? Já em Espanha depois da fronteira.

Exatamente, já em território espanhol.

Muito bonita.

Exatamente, uma ponte extraordinária que agora tem como cenário de fundo uma grande barragem que está ali colocada a montante dessa ponte. E esses povos que estão lá nomeados foram os que contribuíram pra construção da própria ponte. Essa estrada que passava lá, era uma estrada que ligava Mérida, a capital da Lusitânia, a Bracara Augusta.

Que é a atual Braga.

E por onde é que passava?

A atual Braga.

A atual Braga, também fundada pelo imperador Augusto. E essa estrada passava por uma cidade que vai também ser fundada por Augusto, no período de Augusto, que é Visaio, a cidade de Viseu.

Ok, pronto, passava.

A cidade de Viseu, até há alguns anos não se conhecia o nome dela. Hoje sabemos que era Visaio. No território de Visaio, havia uma localidade, um sítio, um pontinho no mapa, que era a Quinta da Tabuadela. Essa tal quinta que eu referi no início, tu referiste também, que nós sabemos que era um sítio habitado pelos romanos, porque foi lá encontrada uma inscrição, infelizmente também mutilada, cortada. Mas essa inscrição é uma inscrição funerária, dedicada pra sinalizar uma sepultura de alguém que ali faleceu e que tinha 25 anos de idade. Eu falo aqui na Quinta da Tabuadela, porque a Quinta da Tabuadela era uma vila romana. Uma vila é uma grande quinta. É uma quinta de grandes dimensões, mais comuns até, sobretudo no sul de Portugal, no atual sul de Portugal, onde há os chamados Montes Alentejanos. Muitos desses montes deram continuidade a vilas romanas.

Jorge, e vila então neste sentido é, vila romana era esta quinta, digamos assim.

É uma quinta.

Uma espécie de finca, mas que tinha várias construções. Tinha termas, tinha a casa do senhor, tinha cavalariças, o que fosse.

Exatamente. E hoje não está nada à vista, mas está lá debaixo de terra. Por quê? Porque quando se fazem trabalhos agrícolas, e hoje aquela quinta é uma grande quinta produtora de vinho, um vinho de grande qualidade, mas quando lavram os terrenos, quando abrem buracos para fazer uma plantação de qualquer coisa, aparecem cerâmicas romanas.

Pronto, ok.

E nós estamos na presença aí de um pontinho no mapa do Império Romano, na província da Lusitânia, na Quítitas de Visaio, e que foi um sítio fundado onde estiveram colonos romanos, provavelmente, e que ajudaram a romanizar esse território. Um território que era ocupado já por povos mais antigos, porque nós temos o conhecimento, também por uma outra inscrição que foi encontrada não muito longe dessa, dedicada a uma divindade pré-romana, um tal Banda Bidoeco. Banda é uma divindade pré-romana, o que quer dizer que os romanos não acabaram com as divindades.

Com as religiões dos locais que eles ocupavam. Isto era uma divindade que fazia parte deste panteão galaico-lusitano, como tu chamas.

Exatamente. Fazia parte desse panteão galaico-lusitano, que é romanizado. E quem é esse povo que fez essa homenagem a essa sua divindade? Eram os Bidoeco. Por quê? A banda Bidoeco, a banda dos Bidoeco. Não é uma banda de música, em si, mas é o nome da divindade. E que é muito comum no território lusitano. Isto é um caso muito interessante e que é multiplicado em muitos outros sítios por outras divindades também pré-romanas, mas que foram romanizadas.

Estou me a lembrar, Jorge, por exemplo, naquele santuário de Boa Nova, ao pé de Terena, também há uma capelinha, uma fortaleza românica, que tem lá uma pedra a dizer ao deus Endovélico. Provavelmente era outro gênero de deus pré-romano.

Exatamente.

E que foi aproveitada no aparelho da nova igreja. Essa pedra.

Exatamente. É uma igreja muito bonita, de fato, parece uma igreja fortaleza.

Exatamente.

Onde foram reaproveitadas essas inscrições romanas muito anteriores à própria igreja que lá está.

Sim.

Mas que revelam populações pré-romanas.

Que já lá existiam.

Que já lá existiam quando chegaram os romanos. O processo da romanização é um processo da aculturação.

Sim.

Mas que respeitaram essas suas tradições.

Os deuses locais, as tradições locais.

Locais, antigas.

Muito curioso. Portanto, havia esta inscrição a dizer: "A banda Bidoeco". Só há isto, Bidoeco, só há este nome?

Infelizmente, esta inscrição está partida, porque isto aguça-nos o apetite.

Claro.

Mas há uma coisa muito interessante, é que também esta inscrição permitiu identificar não o deus Banda, porque é um deus muito conhecido em muitos outros locais do norte de Portugal, mas permitiu identificar uma nova identidade populacional, um novo pequeno povo que vivia ali naquele sítio, que eram os Bidoeco. Lá está, esses Bidoeco são do tempo dos lusitanos.

São coevos.

São lusitanos, mas têm um nome. Eles não são aqui referidos como Lusitani, são referidos como Bidoeco. Isto é, como nós hoje dizemos, os vizinhenses, os lisboetas.

Exatamente.

Os algarvios.

Os leirenses. Exato.

O que nós somos todos? Somos portugueses.

Claro. Então também eram os lusitanos.

Lusitanos.

Está bem, já percebi.

Mas depois tinham as identidades.

Muito bem.

Enfim, microidentidades.

Muito bem. Ficamos com esta ideia, com mais esta dica, mais esta pérola extraordinária desta romanização, concretamente da Quinta da Tabuadela, ali na zona de Satão. Muito bem, estamos então conversados por hoje. Jorge Adolfo, marcamos encontro amanhã. Bem-haja, até amanhã.