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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu, João Paulo Sacadura, estou aqui a acolher Alberto Correia, ele está em Viseu, este historiador e investigador que tanto sabe sobre as tradições desta região centro. Hoje vamos falar de uma profissão que também está muito em desuso: o latoeiro. Vamos falar da tenda do latoeiro e das memórias do nosso autor. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

Quando subo ou desço as escadinhas da Sé, nesse bairro antigo onde pontua em Viseu a Catedral, quando subo ou desço a Rua de Augusto Hilário, aquela que antes se chamava Rua Nova, quando atravesso esse evocativo chão do Largo de São Teotónio e reparo nas oficinas de latoeiro que ali permanecem, se é caso de a porta estar aberta, se é caso de ouvir o martelo ou o tilintar da folha de Flandre sobre a banca, dou comigo a evocar esse medievo tempo que, quase sem se dar conta, chegou até nós, ora parecendo que chegou ao fim do caminho. E lá vem a memória dos mosteirais antigos, gente dos ofícios da postimosa serventia, gente do povo com seus regimentos formados, erguendo bandeira tantas vezes, de lugar marcado na solene procissão do Corpus Christi e representantes eleitos com voto nas sessões do Senado Municipal. Tempo de memória, tão só, que agora já se não arma ou é raro ver armar tenda de latoeiro na feira das terças-feiras. Já ninguém compra cântaros de ir à fonte, já não se usam medidas de almudo ou de quartilho, nem funis para tunéis, nem baldes de leanda para a engorda dos porcos, nem alcatruzes de nora. Já ninguém se alumia com luzes de candeia presa a velador. Os lavradores e os pastores já não utilizam lampiões, nem os romeiros. As lavadeiras já não descem à ribeira com as celhas carregadas com a roupa de lavar. Já ninguém precisa de regador no arrabalde, nem de armadilhas de toupeira, que já ninguém ali planta hortas, nem cultiva pés de milho. Rocas para colher maçãs nas macieiras ainda há quem compre, e assadores de lata para assar castanhas, tarros de ordenha e assinchos para queijo vendem-se também para a serra, onde ainda há velhas pastoras. Almotolias de azeite também se vendem, quanto mais não seja para decorar armário ou prateleira. Mas nas suas tendas, os latoeiros dizem que estão quase de portas a fechar, que vem aí um mundo novo.

E assim vão desaparecendo estas tendas de latoeiros que fazem tanta falta e que hoje, se calhar, como diz o Alberto, só mesmo nas feiras é que ainda se pode de vez em quando ver a armar a tenda do latoeiro e a laborar à nossa frente. Mas que de facto são tradições que, quanto mais não seja pelas crónicas, não vão ficar esquecidas. Muito obrigado, Alberto. E amanhã há mais. Obrigado, até amanhã.

Até amanhã.