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Olá, sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu está Alberto Correia, que é um historiador e um investigador que nos traz muitas histórias sobre arqueologia, etnografia, história e museologia. Hoje, concretamente, é um pouquinho de etnografia que falamos. Estas olarias de Resende. Vamos falar de barro negro. Olá, Alberto, vamos à história.
Importantes na história foram as olarias de Resende para as populações locais e não só. Todos sabemos que o aparecimento de algumas das tradicionais indústrias que designamos de artesanato tiveram origem no longínquo Neolítico, e tal aconteceu com os artefactos de uso doméstico feitos a partir da argila ou do barro. O concelho de Resende, que hoje integra os antigos concelhos de Barrou e São Martinho de Mouros, foi historicamente um centro produtor de olaria de cor negra, que está documentada já no século XIV e que o foral manuelino de São Martinho de Mouros refere no século XVI. Mas é a partir do século XVII e XVIII que as notícias são mais abundantes. Interessante uma notícia que um tal frei Teodoro de Melo dá em 1733, referindo que por todas aquelas encostas de São Martinho de Mouros, quase todos os moradores são oleiros, sendo as obras de um barro tosco, referindo, no entanto, o gosto que as peças do barro dão à água de beber e ao agradável cheiro que exalam. Informação semelhante que se encontra na obra de um escritor de Viseu, Botelho Pereira, que na sua obra "Diálogos Morais e Políticos" de 1635, louva, por idênticas razões, a qualidade dos púcaros de Molões. O fabrico da louça exige, por princípio, a existência de jazidas de barro relativamente próximas, exige o seu arranque, o seu transporte e o manuseamento em engenho próprio. Os oleiros careciam desse instrumento principal para modelar a louça. Aqui, uma roda baixa, que era movida com a mão, um pequeno leque de instrumentos e um forno, aqui designado suenga, que era uma larga cova a céu aberto, onde se acastelava a louça fabricada e já seca, onde ao seu redor se colocava a lenha, que depois se acendia e deixava arder, vigiada pelo oleiro. E quando este, olhando a cor do barro, achasse que estava cozida, protegia a louça com fetos e recobria-a com terra para que ela sugasse, no geral ao longo de uma noite, o negro do fumo que se gerava e ficasse negra. A olaria era um trabalho, aqui, um trabalho solitário de homem. A mulher, coadjuvante, e os filhos pequenos apenas prestavam ajuda lateral no transporte para a suenga e no retirar da louça. Esta louça tinha essencialmente fins domésticos. Era muito utilizada na cozinha, na mesa, na guarda de alimentos confecionados, no transporte de líquidos e na armazenagem, por exemplo, da azeitona em calda de água e sal e na armazenagem do azeite. E assim temos um leque de panelas de ir ao lume, cântaros, púcaras avantajadas e pucarinhos, pratos, tigelas, alguidares, cafeteiras, assadores de castanha com os característicos orifícios, bilhas, canecas e talhas de maior armazenagem. E a venda de louça podia acontecer à porta das feiras da vila, em feiras e romarias dos concelhos vizinhos de Lamego e Cinfães, ou nesses mais distantes lugarejos de Tarouca, Armamar, Maminda da Beira, Fernancelhe, Vila Nova de Paiva, etc. O oleiro transportava a louça resguardada em animais de carga e podia demorar uma semana a vender a carga ou trocá-la por produtos caseiros, castanhas, batatas, feijão ou fumeiro. No último quartel do século XX, quando o fogão se impõe e o metal ganha terreno à faiança, a louça de barro deixa de vender-se, e é então que alguns oleiros começam a produzir o incipiente figurado que ganhou prestígio junto de alguns colecionadores. Situação, todavia, de curta duração. Em 2005, falecia em Frazamões, na freguesia de São Pedro de Poules, no concelho de Resende, Joaquim Ribeiro Alvelos, o último oleiro. Hoje, o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, o Museu de Olaria de Barcelos, o Museu Municipal de Resende e o Museu Municipal de Castro Daire guardam, sobretudo, este património mais recentemente produzido. E ali se pode conhecer, em todos estes museus, esta louça deste território.
Confesso que fiquei com muita pena ao ouvir isto, esta morte do último oleiro, Alberto, este Joaquim Ribeiro Alvelos. O Alberto chegou a conhecê-lo ou não?
Sim, passei muitos dias com ele, porque eu me preocupei durante muitos anos com o estudo das olarias e conheci este oleiro fantástico, que inclusivamente o doutor Joaquim Pais de Brito, enquanto diretor do Museu Nacional de Etnologia em Belém, levou a Lisboa. Aliás, fui eu quem o levou para ali ficar durante oito dias a produzir louça, que depois ali se cozeu. Isto foi a ocasião de um convite feito por Andorra a ele próprio para ir a Andorra durante cerca de 10 dias cozer uma fornada de louça. Na altura, ele não podia ir porque a esposa estava doente, mas foi um aprendiz e eu próprio o acompanhei. Estive aqueles dias em Andorra durante todo esse trabalho da cozedura do barro, no quadro de uma reunião de vários investigadores.
Deve ter sido um privilégio tê-lo conhecido, mas tenho pena, ao mesmo tempo, que tenha desaparecido este artista, estes artesãos que merecem ser lembrados, como o Alberto faz muito bem. Alberto, marcamos encontro amanhã. Bem haja.