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Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e, como sempre, Alberto Correia, em Viseu, traz-nos sempre alguma recordação, algum monumento, alguma memória, alguma tradição que importa ressalvar, lembrar e fazer presente. É o caso do Solar do Vinho do Dão. Como é que isto está ligado a este Paço Episcopal, a casa dos bispos em Viseu, que deu num solar do vinho? Vamos lá então saber tudo. Alberto, bem-vindo.
"Todavia, de quanto se pode concluir a partir da beleza da região e do aspeto do lugar, ousaria afirmar eu, nada de mais perfeito e de mais acabado pode ser formado pela própria natureza." Isto escrevia o poeta António de Cavedo, sobrinho do bispo Dom Gonçalo Pinheiro, que ali passa a caminho da Lapa, em meados do século XVI, quando, após a saída de Viseu de Dom Miguel da Silva, o casario, a mata e os jardins por ele mandados plantar haviam sofrido já largo abandono. A história do Paço Episcopal do Fontelo, hoje designado Solar do Vinho do Dão, porquanto confiado à gestão da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, tem seu começo no longínquo tempo de 1122, quando uma benemérita mãe de família, com sua irmã e filhos, doam ao prior e à Sé uma herdade no sítio já designado Fontelo. Restituída a Sé aos seus bispos, são estes quem paulatinamente irá edificar o complexo onde, por um tempo, só ex-paços demoraram. Atenção maior lhe dá Dom Miguel da Silva, o futuro cardeal, humanista de gema, que patrocinou a grande obra de Grão Vasco, que vemos no museu. Outros bispos ampliam o edificado, onde os bispos viveram em permanência desde 1810, mercê das invasões francesas. Foi ocupado o paço junto à Sé até 1910, período em que o bispo foi exilado após a Constituição da República. Serviu transitoriamente de casa de reclusão militar e desse tempo se recorda do espaço a prisão de Aquilino Ribeiro e a sua arriscada fuga em 1928, que ele narrou mais tarde na revista Eva, do Natal de 1961. Desde 1926, na posse do município, com jardins e mata, recuperados com mestria e inaugurado em 2004, o Paço do Fontelo é hoje instância cultural de privilégio dentre o amplo corpo de edifícios históricos da cidade. E, como tal, merecedor de visita, sempre acarinhada pela instituição ocupante, particularmente quando ali realizam atividades públicas. Já os seus outros espaços, o curioso jardim que evoca os tempos áureos e o grande bispo, seu delineador, esse que também foi o edificador do notável claustro da Catedral. A mata, com a sua diversidade vegetal, a poética que em tempo de primavera ou estio se solta da estrela dos caminhos, do rumorjar da folhagem, do voo do passaredo, das águas correndo, da miniatura da Capela de São Jerônimo, com sua fonte, e esses outros padrões ali implantados: a loba esculpida, a glorieta evocando São Pedro e sempre a imensa paz de uma natureza nossa irmã. A atual ministra da Cultura, em recente visita a Viseu e ao lugar que conhece bem, afirmou que, considerando a política e as preocupações do governo em matéria de proteção e valorização do patrimônio cultural imóvel, deve ser adequadamente reconhecido o interesse cultural e artístico do Fontelo, através da sua classificação como monumento nacional. Vale a pena, a quem vier a Viseu, mesmo já conhecendo o lugar, vale a pena o retorno a este precioso recanto meio esquecido da cidade.
A ver se isso agora muda. Alberto, agora fazendo minhas também as palavras da Lila Rodrigues, a ministra que defende, de fato. É uma cruzada que temos que todos abraçar, esta passagem do Paço do Fontelo a monumento nacional, e assim conseguir alargar as visitas a toda a gente, porque é um espaço muito importante e bonito, que vale a pena conhecer e vale a pena valorizar. Muito obrigado por nos trazer essa memória e essa cruzada também. Muito obrigado, Alberto. Ficamos muito contentes de saber deste movimento que existe e agradeço-lhe muito esta sua evocação. Bem-haja.
Então, até para a semana.