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"Ideias Feitas". "Ideias Feitas" na Rádio Observador com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

E hoje queres falar de um novo partido? Há por aí um novo partido? É isso?

Sim, senhor. É indecente não estar a par do advento do Vamos. Eu não vou agora recuar aos debates do século XIX entre anarquistas, marxistas, sociais-democratas e comunistas, mas desde que Lênin declarou o esquerdismo a doença infantil do comunismo, que a esquerda anda dividida. Pelo menos desde aí. E felizmente a esquerda tem sempre uma solução para se unir, que é criar novos partidos e é por isso que então surgiu este Vamos, que foi apresentado ontem, salvo erro. É um novo partido de esquerda que pretende unir a esquerda. Pelo menos esse é o objetivo assumido da líder do partido Vamos, uma senhora chamada Paula Marques. Também convém esclarecer que a senhora dona Paula Marques não é bem a líder do partido, é ela própria que diz que ali não há chefes. E nos partidos de esquerda, nós sabemos, e quanto mais à esquerda, mais isso se verifica, nunca há chefes, há apenas camaradas que dão o rosto e se sacrificam pelo coletivo, caso um dia haja alguma hipótese de um dos membros do coletivo ser eleito para qualquer coisa que permita auferir um salário. Temos o exemplo bastante conhecido do doutor Rui Tavares, que também não é o chefe do Livre, mas é ele que normalmente compromete a sua vida pessoal e profissional para estar na Assembleia da República. E é ele que fica bastante chateado sempre que aquela estratégia de fingir que os cargos remunerados estão ao alcance de todos os militantes corre mal e depois aparece um candidato que não é ele ou alguém escolhido por ele. Mas em geral, ele tem sido escolhido ou passou a ser escolhido invariavelmente. E voltando ao Vamos, do que li, esta senhora dona Paula Marques, que nunca tinha ouvido falar dela, sinceramente, foi vereadora da Câmara de Lisboa durante 12 anos, eleita como independente nas listas do Partido Socialista. E a impressão com que um leigo mal-intencionado pode ficar é que depois do PS perder a Câmara e depois de o PS não ter chamado esta independente para outras funções, que seriam, imagino, certamente merecidas, a senhora dona Paula Marques resolveu inventar o partido Vamos e tentar criar o próprio emprego. É sempre saudável e é de saudar. Mas não é assim. Acho que não foi isso que aconteceu exatamente, porque embora por enquanto seja ela a única a falar em nome do partido e ninguém conheça sequer outro elemento do Vamos, a senhora dona Paula Marques diz preferir que as atenções não fiquem centradas nela e assume manter-se em pé de igualdade com os outros membros do partido. Portanto, uma história repetida e recorrente. A novidade do Vamos, o que não é repetido nem recorrente, diz a senhora dona Paula Marques, é o partido pretender responder aos anseios das pessoas, sem repetir as fórmulas que até agora foram aplicadas. Estou a citá-la. A primeira parte do método é de louvar. Acho eu que até hoje, em Portugal e no mundo inteiro, nunca tinha havido um partido que pretendesse responder aos anseios das pessoas e só por essa iniciativa pioneira, o Vamos merece o nosso respeito. Quanto à segunda parte do método, a não repetir as fórmulas que até agora foram aplicadas, convém ver que fórmulas inovadoras o Vamos propõe. E muito resumidamente, fiz aqui uma pequeníssima lista. O Vamos defende uma construção coletiva a partir das bases, isto é uma meia dúzia de propostas do partido, quer o controle por parte do Estado de setores estratégicos da economia, como a energia, a água, os transportes, as comunicações, os bancos e os seguros, acho que não sobra mais nenhum. Quer a criação de um serviço nacional de emprego onde o Estado seja o último garante de trabalho remunerado e socialmente útil para todos os desempregados, estou a citar as propostas. Quer a regulação do mercado de habitação, a mobilização de fogos devolutos e a criação de um serviço nacional de habitação, quer uma semana de trabalho de 32 horas rumo à semana de quatro dias, quer alimentação e energia a custos controlados com a criação de uma rede de restaurantes e mercearias públicos, quer, naturalmente, a suspensão das relações com o Estado de Israel, e o que o Vamos não quer é cumprir a meta dos 5% de investimento em defesa imposta pela NATO. E para terminar, vamos lá a umas conclusões. Afinal, as medidas do Vamos não são tão inovadoras quanto isso. Mais pormenor, menos pormenor, são a receita do sucesso obtido desde sempre por todos os países comunistas, de Cuba à Coreia do Norte, passando evidentemente pela União Soviética, os países do Pacto de Varsóvia e por aí fora. Se quisermos um equivalente nacional, o Vamos propõe um regresso ao PREC, mas sem que haja depois um 25 de Novembro para atrapalhar o progresso. No fundo, o Vamos nasceu para, junto com o Livre, o PCP e não sei se ainda sobra alguma coisa do Bloco de Esquerda, ajudar a mostrar que o estado em que isto está, e que de fato não é nada famoso, pareça quase decente por comparação. A designação completa do partido devia ser Vamos Dar Cabo Disto uma Vez por Todas e vontade para isso não falta à senhora dona Paula Marques. O que lhe falta, pelo menos por enquanto, são votos, e sem votos o Vamos não parece que vá longe.

E amanhã há mais, Alberto.

Esperemos que sim.

Até amanhã, Alberto.

Até amanhã, Ricardo. Um abraço.

O "Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. "Pop Up", o programa de cultura popular da Rádio Observador, magazine para todas as telefonias. Esta semana, os astros, que bonito, brilham mais uma vez. Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Mexer Mendes. Alinhamento cósmico às quintas-feiras, depois das 14h, na Rádio Observador e sempre em podcast.

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