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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a história das histórias e eu sou o João Paulo Sacadura. Alberto Correia é que nos traz sempre estas memórias e estas crónicas tão boas e um grande escritor que ele gosta tanto e que também é ali das terras do Demo, Aquilino. Hoje vamos falar de Maria Loia e de Celidónia, duas poéticas invenções do escritor Aquilino Ribeiro. Vamos a isso. Olá, Alberto.
Nesse saboroso romance de infância, "Os Cinco Reis de Gente", cuja primeira edição aparece em 1948, Aquilino Ribeiro, Amadeu no romance, desce ao limbo da sua infância e a evoca com ternura, relembra saudoso o ambiente familiar, os primeiros passos na escola e essa iniciática sociabilidade com o rapazinho da aldeia, a Lomba de Baixo, o carregal de Sernancelhe, onde nasceu, e dessa aldeia nos traz essa suave ternura que partilha com a Maria Loia, a atrevida garota que morava nas vizinhanças da casa dos seus pais. Maria Loia, a Loíta travessa, ainda lhe levará de presente uma rolinha nova quando ele já estudava no Colégio da Lapa, quando os horizontes de um mundo novo se lhe mostravam e onde a Maria Loia deixaria de ter lugar. Isso se conta no livro de memórias dessas vivências, o pequeno romance publicado em 1948, uma luz ao longe, num horizonte distante que a Maria Loia não conheceria. Celidónia vem depois, jeito de fada. Conta-se no romance "A Via Sinuosa", editado em 1918. Libório, Aquilino outra vez, vem então jeito de fauno. Andam ambos pela mesma idade, essa aqui de adolescentes, quando no peito de ambos cantam os pássaros despertos na madrugada. Moravam ambos, Libório e Celidónia, no casaria de um velho convento de onde os frades de São Francisco há muito se haviam retirado. Libório morava com os pais na ala nobre, que se ia esboroando a largos passos, abandonada de seus donos. Celidónia, com os pais e um irmão que era mais velho, viviam por esmola em antigos aposentos de criados. Eram os dois, nesse tempo adolescentes, que esse é o tempo em que desabrocha no peito a primavera. Libório tinha aulas que lhe dava o padre mestre, que gostava de sentar-se com ele à beira de uma fonte que ficava no terreiro. Celidónia regava as hortas de manhã, varria a casa e fazia a demais lida com a mãe. Parecia já uma mulher, mas nesse tempo ela mal saía ainda de menina. Ao vir da tarde, mais libertos, corriam soltos pela cerca, brincavam às escondidas no jardim, onde os buchos se mantinham em carreiras, cortavam ramos de mimosas que cresciam, já selvagens, à beira do pinhal. Em abril, colhiam rosas e atiravam um ao outro as suas pétalas às mãos cheias. No tempo da cereja, subiam ambos às cerejeiras e colhiam as amoras dos silvados que trepavam pelos muros, já meio esboroados, da quinta dos velhos frades. Às vezes, já cansados, vinham beber água ao chafariz que ficava ao pé da igreja e os dois, ainda envergonhados, ficavam-se a olhar, ao jeito de narciso, as faces um do outro nas águas límpidas do tanque. Celidónia era decerto linda de morrer, mesmo com o vestido roto, os cabelos soltos sobre a fronte, o olhar manso nessas horas em que os pássaros vêm cantar no arvoredo e no coração das raparigas. Celidónia nunca fora à escola e não sabia ler. Libório fora logo de pequeno para as mestras. E um dia aconteceu que disse à rapariga que sempre ia estudar para doutor. E nesse momento estremeceu por um instante, lá no peito, o coração de Celidónia.
E a grande vantagem de ouvir, Alberto, é que depois apetece logo ir ler, ir voltar à literatura e ir ler estes livros outra vez, estes romances e esta ficção. O próprio Alberto que tem-
Ao menos que valha isso.
Exatamente. É tão importante isso e é bom esse impulso que nos faz de querer logo buscar mais Aquilino e mais livros e mais histórias e mais ficção, mais lendas. É muito bom. Quero lhe agradecer por isso. Alberto, então, nós estamos conversados por hoje. Marcamos encontro. Até amanhã.
Até amanhã.