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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e Jorge Adolfo Marques é que nos vai falar hoje de modernidades na cidade de Viseu. Hoje vamos falar de modernidades no sentido da fotografia e da fonografia. Vamos lá, Jorge, estamos a falar de quê?
É verdade, João. Temos falado de modernidades em Viseu. Claro, modernidades com 100 anos.
Sim, claro.
Mas modernidades com 100 anos, cujos princípios se aplicam também aos nossos dias, às vivências que nós temos hoje, sobretudo ligadas ao turismo. Falamos aqui das coretas, falamos aqui do filme.
Do filme de Viseu.
Falamos aqui do turismo, falamos aqui dos hotéis. E o capitão Almeida Moreira, que era o tal primeiro marketeer.
Exatamente, da cidade.
Como eu referi no primeiro programa sobre esta temática. E, como é óbvio, o capitão Almeida Moreira também era um homem que a fotografia era muito importante para ele, mas eu gostava aqui de puxar um bocadinho o filme atrás e tentar falar um pouco sobre duas grandes modernidades, dois grandes aspectos técnicos e tecnológicos daquele final do século XIX e pelo século XX adentro, que é o da fotografia e também da fonografia. Bom, no que diz respeito à fotografia, pois nós temos dados de que em Viseu, a primeira vez que temos a prática da fotografia. Nós hoje tiramos fotografias com o telemóvel, milhões de fotografias por dia. Mas essas primeiras fotografias, pelo menos em 1 de setembro de 1865, portanto, já foi há muito tempo. Quando o jornal "O Viriato" diz que os produtos químicos, químicos com CH, químicos.
Sim.
Produtos químicos próprios para esta arte, se podiam comprar na farmácia de Antônio Pais Figueiredo, à Praça da Cidade. Importa dizer que a Praça da Cidade é a atual Praça de Dom Duarte. A Praça de Dom Duarte era a praça central da cidade. Nós já uma vez falamos aqui nisso. A Praça Dom Duarte, que passou a chamar-se Praça Dom Duarte nos anos 50, era anteriormente a Praça de Camões, porque em vez de ter lá a estátua de Dom Duarte, tinha a estátua de Luís de Camões, e que antes de ter a estátua de Luís de Camões, era a Praça da Cidade. Não era a praça atribuída a ninguém, era a Praça da Cidade. Pois era aí que se vendiam os tais produtos químicos.
O revelador, o fixador e tal.
Claro, e que se destinavam para fotógrafos profissionais que vinham à cidade tirar fotografias, quer dizer, tirar retratos às pessoas. Tirar essencialmente retratos às pessoas. Em 1866, por exemplo, um fotógrafo francês, monsieur Beltran, ficou instalado numa casa particular na Rua dos Loureiros, que é no centro histórico, onde permaneceu até fevereiro do ano seguinte e foi o primeiro fotógrafo profissional de que há notícia a ter exercido a atividade na cidade. Portanto, esse monsieur Beltran. E ele faz publicidade no jornal "O Viriato". Olha, levava 800 reis por cada fotografia. Custava 800 reis, meia dúzia, 1800 a dúzia. E portanto era um fotógrafo que cobrava um bocadinho caro.
Era caro.
Para as bolsas mais endinheiradas.
Da altura, exato.
Claro. Para as bolsas mais endinheiradas, a dúzia de fotografias coloridas manualmente, nós hoje temos o Photoshop. Custavam 4500 reis. Portanto, atenção, não era barato. Em 1867, no ano seguinte, passaram por cá Miguel Nazi e Eduardo Branco Álvares, e sabemos que este último ficou na cidade durante o mês de setembro, instalado numa casa na Ribeira. Portanto, eram fotógrafos itinerantes.
Sim.
Isto é interessante. Eram fotógrafos itinerantes que vinham a Viseu, fotografavam, estavam cá uma semana.
Temporada e depois, exatamente.
Depois temos outros dois fotógrafos, um tal Jacques Wunderly, que se instalou também na Rua do Arco, que é uma rua ali do centro histórico, e o Roberto Figueiredo, também no mês de outubro. Eles ficavam sempre instalados assim no centro histórico. A cidade era o centro histórico.
Sim.
E, portanto, na década de 70, abriu uma loja de fotografia na cidade, a Fotografia Popular, no arrabalde, na Ribeira. No mesmo ano, Viseu assistiu à abertura do grande salão de recreio histórico e instrutivo na Rua Formosa, onde se podia ver uma "magnífica coleção de vistas para estereoscópio" Algumas delas de costumes grotescos e outras com as "principais cenas das melhores óperas", mediante o pagamento de 60 reis por entrada. Portanto, pagava-se para ir ver fotografias estereoscópicas. As pessoas, hoje em dia, se calhar, já não se lembram tanto, mas há uns aparelhinhos onde metíamos um cartão com a fotografia que parecia que estava em 3D. Ora é isto mesmo, só que pagavam para ir ver. As fotografias estereoscópicas tiveram muito sucesso por todo o mundo, sobretudo depois da célebre exposição Universal de Londres, de 1851. Lá está. Exposição Universal de Londres, onde se apresentaram as grandes modernidades, nomeadamente a fotografia estereoscópica. A fotografia estereoscópica chega a Viseu também, como um espetáculo visual. Isto é engraçado, porque as pessoas vão ali. A Rua Formosa é aquela rua que sai em frente à câmara por ali fora, e as pessoas pagavam para ver fotografias de óperas, fotografias grotescas de paisagens exóticas, sobretudo do mundo árabe ou do mundo africano ou da selva. E pagavam para ver isso, porque não havia os meios tecnológicos que nós temos, o acesso que nós temos hoje.
Era uma espécie de National Geographic.
Exatamente.
Viajavam pelo mundo através dessas fotografias.
Aliás, João, tu disseste agora uma coisa interessante, porque esses exploradores, esses homens do National Geographic, esses Indiana Jones e esses homens que atravessam a África, esses homens que atravessam a América a explorar, porque faziam para tentar conhecer o que havia de importante, cartografar as riquezas, as populações, etc. Esses homens tiram essas fotografias. Muitos deles. E são coisas exóticas. Um aspecto muito interessante é que em 1885, Francisco Payno Peres, um espanhol, instalou-se na fotografia visense, no Rossio del Rei Dom Fernando. Importa dizer que o Rossio del Rei Dom Fernando é o atual Rossio, é a atual Praça da República. Quando veio a República, deixou de se chamar Rossio el Rei Dom Fernando, o Príncipe Consorte, e passou a Praça da República. E é aí que este grande fotógrafo, Francisco Payno Peres, se vai instalar. E ele vai criar um gabinete fotográfico, à semelhança do que ia acontecendo por todo o país. É curioso, porque ele também vai em peregrinação, em trabalho. Tira fotografias a outras partes do país, nomeadamente, ele vai estar em Portalegre em 1887. E há fotografias dele, tiradas por ele, em Portalegre. Portanto, também com aquela política de itinerância. Em 86, ele é muito apreciado em Viseu, os jornais falam muito dele, o trabalho dele é extraordinário. Dele e do filho, Bento Peres, ele era Francisco Payno Peres, o filho Bento Peres, era muito apreciado, nos jornais aparecem muitos elogios ao trabalho dele. E nomeadamente, ele vai numa viagem de comboio até uma determinada altura, até à zona de Tomboela, e depois vai ao Caramulo. Também tira as fotografias. Ele tira, por exemplo, fotografias à grande ponte metálica em Mostairinho, que é aqui uma grande ponte metálica nessa linha, a poucos quilómetros da cidade de Viseu, que ainda lá existe, é atravessada atualmente por bicicletas e por pessoas a correr e a caminhar, no percurso da ecopista. E ele tira fotografias, e as pessoas também ficam maravilhadas com essas fotografias. É muito interessante. E ao longo desses anos, temos aí então o Payno Peres a fotografar. Eu tenho fotografias de antepassados meus, familiares meus, tiradas pelo Payno Peres no final do século XIX. E essa tecnologia, essa modernidade, também está presente na fonografia, no som. É muito engraçado que o som-
Também houve registos antigos que ficaram.
O som reproduzido, que é uma novidade, chega a Viseu. Depois vamos ter os gramofones, mas o fonógrafo chega a Viseu no final de 800, como uma mercadoria também. E o fonógrafo é uma das maiores invenções, mais admiráveis do século.
Sim.
E ele chega a Viseu em 1894, provavelmente trazido por Shelton e John Morris, que são dois americanos que andavam a divulgar pelo país o fonógrafo, e com um caráter também comercial. Por 200 reis, o público visense pode escutar todas as noites, "numa casa situada na Rua Direita, gravações de algumas músicas e canções populares da época, entre as quais se encontrava, possivelmente, o Fado do Hilário", o famoso fadista visense, que tinha nascido e morrido numa casa na Rua Nova, ali a poucos metros de distância do sítio onde se reproduz este Fado do Hilário.
Modernidades. Portanto, quer com fotografia, quer com fonografia, ficamos aqui, de facto, com um painel de invenções que foram as maravilhas desta altura dos finais de 800 e princípios de 900. É muito curioso o arranque da fotografia e da fonografia em Viseu. Muito bem, Jorge, nós temos conversado por esta semana, resta-nos marcar encontros para a semana, onde não sei se vais continuar em Viseu, se vamos dar aí mais voltas contigo, que sabe sempre bem.
Vamos apanhar o comboio e vamos sair.
Vamos sair. Pronto, está prometido. Um grande abraço para ti e até breve. Muito obrigado. Um abraço.