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Olá e sejam todos bem-vindos. Esta é a História das Histórias e, como sempre, eu, João Paulo Secadura, estou com Alberto Correia, em Viseu, que hoje nos vai falar da neve. A neve solta sobre o chão é algo que vai também evocar memórias do Alberto na sua beira serrana. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

"Está a chover e a nevar e a raposa no curral, a fazer uma camisinha para amanhã se casar." Versos de uma lengalenga infantil. Em anos antigos de que só tem memória quem já dobrou a meia-idade, as neves soltavam-se por toda a beira serrana e o manto branco que às vezes se desdobrava noite fora, tão de mansinho, surpresa era vê-lo de manhã estendido sobre o chão de uma terra-mãe assim vestida, manto de arminho ao jeito de rainha. Os rebanhos permaneciam ansiosos nas cortes mal agasalhadas. Os homens abriam caminho à enxada para lojas e palhais e para as fontes do adro do terreiro da capela. As mulheres mantinham o fogo aceso nas lareiras, de onde se desprendiam fuminhos azulados, e aproveitavam as horas demoradas a remendar as roupas da família ou a fiar o linho do amanho de verão. Essavam-se castanhas e maçãs inverniças ao borralho, ouviam-se as histórias das avós ou da madrinha, ouvia-se o gato ronronar perto da cinza e o piar dos passaritos na procura das migalhas soltas da toalha no balcão. Os lobos famintos deixavam as marcas dos seus passos na orla do pinhal, onde os cães os farejavam, evitando o assalto das feras aos currais. Quando as neves derretiam, ouvia-se ao longe a zoada das águas nos ribeiros, ouvia-se o guizalhar alegre das ovelhas e a voz clara na distância dos homens que reparavam, como sempre acontecia, os açudes, os caminhos e carreiros. Os campos de centeio começavam depois a verdear e os lavradores acreditavam que iria ser fecunda a colheita do seu pão. Quanto bastava para aquele viver patriarcal. Memórias de um tempo que lá vai e não retorna, mesmo que a neve venha ainda saudosa visitar aquela terra, como aconteceu pouco antes do último Natal. Mas já não há gados na aldeia, já ninguém semeia pão, já não há cantares de mondadeiras, já ninguém fia linhos à lareira, já não há crianças a jogar o par e o pernão. Os sinos na torre da igreja, às vezes ouvem-se tocar as badaladas tristes de um adeus.

É uma memória que fica também destes mantos brancos que cobriam na altura do inverno. E este ano também tivemos neve. De facto, que fique aqui com este registo tão poético sempre desta sua memória. Alberto, bem-haja. Por hoje estamos conversados. Deixando-nos, como sempre, estas pérolas e estas memórias. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja.

Até amanhã.