IL e Pedro Passos Coelho têm sonhos em comum, mas antigo primeiro-ministro quer abrir a porta ao Chega e esse é um ponto de honra para os liberais. De tal forma que o vice-presidente da IL, Mário Amorim Lopes, chama “erro crasso” à ideia de Passos considerar que “o Chega seria a solução para um governo reformista”.

No dia em que deu a primeira entrevista televisiva depois de sair do Governo, há mais de dez anos, Pedro Passos Coelho recuou à primeira vitória de Luís Montenegro, em 2024, e considerou que o PSD tinha “obrigação de explorar” um “entendimento parlamentar entre o PSD, o CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal”. Reconheceu que “talvez não fosse fácil”, mas deixou claro que seria “importante” tentar.

O antigo primeiro-ministro acredita que Luís Montenegro devia ter sido capaz de aproveitar a “maioria de direita” conquistada nas urnas para fazer reformas e para “inverter” a situação do país, lamentando que nada tenha mudado “nos nove anos do PS” nem durante a governação atual. E, nisto, há um partido que está absolutamente de acordo e que faz das reformas bandeira desde sempre: a Iniciativa Liberal.

O vice-presidente Mário Amorim Lopes, no programa Choque Ideológico da RTP, deu conta de que Passos Coelho fez um “diagnóstico correto” em quatro situações: na necessidade de reformas (“Precisamos desesperadamente de reformas em Portugal”), na avaliação sobre as opções de António Costa, na teoria de que os portugueses “quando votaram para afastar o PS foi na esperança de conseguirem ter um governo reformista” e no facto de “passados dois anos e meios da eleição deste Governo ainda faltarem reformas”.

É praticamente um pleno, em que os liberais se colocam ao lado de Passos Coelho na visão que tem para o país, dando a entender que não teriam grandes problemas em alinhar num projeto comum para o país. Na verdade, já nas últimas eleições, a IL, na altura com Rui Rocha, deixou o caminho aberto para integrar o Governo de Luís Montenegro. Porém, os cálculos eleitorais não permitiram que AD chegasse à maioria com a IL e os liberais preferiram ter a liberdade de fazer oposição.

Ainda assim, há um gigante pormenor nas intenções de Passos Coelho que jamais seria aceite pelos liberais, tendo em conta a narrativa traçada por todos os presidentes liberais até ao momento — o Chega. Mário Amorim Lopes explica que Passos Coelho cometeu um “erro crasso na ideia de que uma coligação com o Chega seria a solução para um governo reformista” e justificou que o partido liderado por Ventura “foge de reformas como o diabo da cruz” porque “as reformas podem tirar votos no curto prazo”, sugerindo que o Chega não está disposto a arriscar.

“O Chega não tem um registo reformista“, avisa, argumentando que “a ideia de que a solução passa por uma coligação entre PSD e Chega parece completamente disparatada”. Carlos Guimarães Pinto, num comentário na SIC Notícias, desenvolveu o raciocínio no mesmo sentido: “Passos Coelho sempre se quis posicionar como ‘Que se lixem as eleições, o importante é o país’, quando o posicionamento do Chega é o oposto ‘Que se lixe o país, o que importa é ganhar eleições’ porque não aprovam uma única reforma que seja impopular, mesmo que seja boa para o país.”

“É por isso que me custa entender esta aproximação entre Pedro Passos Coelho e o Chega porque representam coisas bastante diferentes”, conclui o deputado da IL. E, mesmo sublinhando que não estava ali para defender a governação de Passos, explicou que “muita da aura que [Passos] tem hoje entre uma certa direita resulta certamente dos excessos do maniqueísmo que existiram nessa altura”, justificando que “nenhum partido e primeiro-ministro” baixa pensões ou salários por um gosto maquiavélico”.

Passos é “desafio”, mas pode ser oportunidade

Apesar de haver uma ideia bastante alinhada no que à necessidade de fazer reformas diz respeito, na direção da IL reconhece-se que o regresso de Passos Coelho seria um “desafio significativo” para o partido, desde logo porque, “primeira vez, enfrentaria um líder de outro partido com credenciais reformistas efetivas e reconhecidas”.

Mas apesar de se admitir que “Passos tem experiência de governação, autoridade e capacidade de liderança que ninguém pode negar”, também há quem considere que “nesta tentativa de regresso ainda não demonstrou que dispõe de uma agenda liberal consistente e adaptada aos desafios atuais do país”. Pelo que se alerta: “É precisamente aqui que reside o maior risco: confundir a memória de um primeiro-ministro que enfrentou circunstâncias excecionais com a resposta aos problemas do presente. Portugal enfrenta desafios muito diferentes dos de 2011 e a nostalgia política não pode toldar-nos o raciocínio, alimentando uma espécie de sebastianismo em torno de quem já governou.”

No que toca a contas eleitorais, partindo do princípio que um partido como a IL — que cresceu quando o PSD perdeu o condão mais liberal — poderia ser prejudicado, traçam-se cenários em que tanto se pode ganhar como perder. Se por um lado se reconhece que alguns eleitores da IL poderiam regressar ao PSD (até por ser a casa-mãe de muitos) também se vê uma oportunidade na conquista daqueles que, desiludidos com a opção de Passos, até pela hipótese de uma coligação com o Chega, se poderiam tornar em “desistentes do PSD”.

No final do dia, Passos Coelho traz ao léxico político uma bandeira que a IL nunca largou — reformas — e que tem permitido ao partido atacar o “país das maravilhas” de Luís Montenegro, com críticas constantes às opções que o Governo tem tomado e, principalmente, àquelas que tem deixado para trás. Se Passos seria um catalisador ou um travão para os liberais é preciso esperar para ver. Ou não.