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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e apenas estou aqui para apresentar o Alberto Correia, este historiador beirão que hoje continua a desfiar as suas memórias, as suas crónicas sobre a cidade de Viseu. Concretamente, hoje vamos ao Claustro da Sé de Viseu, "Harmonia de um mundo novo". Olá, Alberto, bem-vindo.
O Claustro da Catedral, esse multifuncional corpo que se ergue a sul entre o braço do transepto e os pés da nave correspondente desta peculiar igreja selão, dimensionado à extensão da nave lateral, deve compreender-se como um corpo orgânico que responde a usuais práticas do culto, funcional espaço que medeia a intimidade da relação do homem com o divino, que se cumprirá por inteiro na atmosfera silenciosa do templo recoberto pela abóbada dos nós. Acresce que a sua materialidade carreia um profundo simbolismo explicado pela circularidade de um percurso sobre esse chão empedrado, que se torna a metáfora da humana presença num tempo concreto de vida, que haverá de soltar-se como as colunatas que se elevam para esse espaço aberto sobre o azul, que metáfora é da cúpula ampla do céu, que destino pode tornar-se. A edificação que ao presente nos oferece, ambicioso projeto de um bispo iluminado por uma ampla cultura vivida em Paris e nos círculos humanísticos de Roma, quando ao tempo se elevava a portentosa edificação da Basílica de São Pedro, protótipo em Portugal de um Renascimento embrionário, deve-se ao inspirado génio do bispo Dom Miguel da Silva, que governa a diocese de 1526 a 1540, fâmulo da corte de Dom João III e da corte papal de Paulo III, que fará dele cardeal. Dom Miguel da Silva deixará em Viseu inapagável rasto que perdura, materializado nas tábuas de Grão Vasco, no cadeiral do coro alto encomendado a partir de Roma, na transfiguração dos Passos ao Fontelo, para cuja áulica capela de Santa Marta, Gaspar Vaz terá a encomenda do especioso painel que rememora a visita de Cristo à casa de Lázaro, Marta e de Maria, lá onde lhe deixará retrato, e na figuração dos intimistas jardins e do arvoredo que povoou de gaiolas onde as aves cantavam e onde havia o remorejar das fontes. De Roma, arrastará consigo o arquiteto Francisco de Cremona, treinado nos estaleiros do Vaticano, e será este obreiro que terá sido, em Viseu, do risco da Casa do Miradouro, encomenda do Leão Fernão Ortiz de Vilhegas, quem irá traçar o inspirado desenho do Claustro da Catedral entre 1528 e 1534, obra primeira do Renascimento Português, onde salta à vista o harmonioso perfil das colunas jónicas, suportadas por um desusado murete e a complexidade dos capiteis, onde se encontra referência às clássicas ordens coríntia e compósita, e de onde se levanta a arquitetura das abóbadas que irão suportar, no século XVIII, a construção do amplo espaço que hoje se abre para o Museu de Arte Sacra, lá onde se evoca a velha morada do Prior São Diotono.
Muito bem, continuamos aqui neste périplo pelas maravilhas desta acrópole de Viseu. Depois do Claustro da Sé de Viseu, desta magnífica abóbada dos nós, que eu tanto gosto. Amanhã vamos falar de outros pormenores, concretamente do Catedral, do Museu Nacional Grão Vasco, que o Alberto dirigiu durante mais de uma década. Vamos a isso. Para já, agradecemos hoje e marcamos encontro amanhã. Muito obrigado. Bem-haja, Alberto.
Até amanhã.