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Olá, esta é a História das Histórias. Boa tarde, bem-vindos. Eu sou o João Paulo Sacadura e Alberto Correia, em Viseu, vai nos falar de mais uma memória da sua infância: os sinos da aldeia e os vários toques que tinham os sinos. Os toques de rezar, os toques festivos, todos. E o toque, claro, a rebate, que é o tema principal da crônica de hoje. Vamos a isso então, Alberto. Bem-vindo.
Nestes calamitosos tempos em que a tragédia dos incêndios destrói o singular rosto deste belo país que reconhecemos como pátria, desfeita a paisagem das aldeias, consome habitações e o granjeio de uma vida, martiriza o animoso corpo de bombeiros que heroicamente combate, desgastado, o danoso flagelo, arriscando vidas, e algumas se perderam já, arriscando integridade, e a de tantos já foi tocada. Ao ouvir o aflitivo som das sirenes, eu recordo o inquietante badalar dos sinos da torre da igreja da minha aldeia, que a voz do povo que ali aprendi chamava de toque a rebate. Que os sinos da aldeia tinham muitas vozes, tinham todas as vozes do povo feitas vidas. Badalar do domingo, toques festivos convidando para a missa da alegre manhã. João da Adélia, a gente sabia que ele era o sineiro. E os toques de rezar, a devoção da tia Leonor, que era ela que andava às badaladas, e o silêncio que então se fazia ao cair da noite, já recolhidos em casa, orações balbuciadas, a bênção pedida aos pais e à madrinha. Toques de rezar também ao despertar da madrugada. E na noite de Natal, na consoada, e o contínuo badalar durante a procissão de Santa Luzia. E os sinos que tocavam um triste toque de dobrar sempre que um freguês morria. Som alegre se era o anjinho que partia, então tentando dar ânimo à mãe, que ficava desolada. E o chamar do povo quando os gados pelo São João vinham ao adro para fazer a romaria, quando ali se construía o tabuado do leilão, quando se elegia o cargo de louvado, quando eram horas de as mulheres levarem o jantar, que ao meio-dia estava ganho pelos cavadores na primavera e no verão pelos ceifeiros. Como eu me lembro do toque dos sinos da minha aldeia. Que do toque de rebate também me lembro. Raras vezes aconteceu. Incêndio que se acendera na morada de um vizinho, que todos eram vizinhos na aldeia, da moita distante ao balcão alto ou à rua do sieiro. Lembro-me das mulheres que carregavam baldes d'água. E nunca eu esqueci nem o aflitivo badalar do sino, nem os gestos das mulheres, nem, nessas horas, a solidária aflição da minha mãe. Que me lembre, nunca eu vi o incêndio num pinhal, nenhum rolheiro de pão alguma vez ardeu, nem palheiro levantado no desvão das eiras. A minha aldeia cheia de gente nesse tempo. E hoje, quase não mora lá ninguém. Já não há medas de pão. Apagaram-se os fornos que gastavam lenha, os giestais cobrem os caminhos e às vezes acontece que arde um pinheiral. Já não tocam os sinos a rebate, tocam as sirenes dos bombeiros. Os sinos tocam depois a dobrar no nosso coração.
Bonita memória também, como sempre, da sua infância, Alberto, na sua aldeia e estes diferentes toques que nos falou, que marcavam tanto o dia a dia das aldeias e o sentir do povo e da província. Fazia parte da paisagem, esta paisagem sonora também da infância. Muito curioso. E muito bem então, Alberto, marcamos encontro amanhã. Bem haja, até amanhã.
Até amanhã.