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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a história das histórias, já sabe. Eu sei que estava à espera de ouvir, sobretudo, não eu, João Paulo Secadura, mas o Alberto Correia. Ele, em Viseu, vai-nos continuar a fazer esta visita guiada pelo património tão belo de Viseu. Hoje falamos de um antigo hospital, que acolhe outros utentes, mas hoje são clientes, não são doentes, são os clientes desta novíssima pousada que existe em Viseu. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Quem olhar de longe esse gigante alcandorado num vizinho morro da velha cidade, onde havia antes plantado um olival, quem olhar das bandas de nascente, há de pensar que ali se levanta, desde há anos sem conto, uma fidalga moradia. Quem olhar, logo repara na larga escada de acesso que conduz a um terreiro resguardado, logo repara na nobreza de um pórtico sobre o qual pousa soleno um varandim, um brasão no tímpano e as alegóricas figuras de eleição postadas na cimalha. Mas não é assim. Ali pousa, e mais de dois séculos já lá vão, o hospital que a Santa Casa da Misericórdia de Viseu manda levantar, obediente ao seu compromisso outorgado à boca do século XVI, assim cumprindo a missão de assistir aos enfermos, como lhe ditava o catecismo. Obra ingente que esta obra foi, requerida em sentida exposição dirigida ao rei a 22 de maio de 1793, quando havia já sido solicitada ao renomado arquiteto portuense Teodoro de Sousa Maldonado, a planta que já fora aprovada em sessão da mesa de 19 de maio desse mesmo ano. Estava decadente o velho Hospital das Chagas. Os tempos eram novos. A ciência e a técnica já se uniam emergentes para cumprir esse humanístico desígnio de sarar feridas dos homens, de alongar as suas vidas. Iniciada a obra, logo teve de suspender-se em 1810, devido às dificuldades trazidas pelas invasões napoleónicas. Retomar-se-á em 1825, avançando depois ao ritmo dos recursos alcançados, e em 1842 receberá os primeiros doentes, ainda que as obras estivessem longe do seu termo. Fizeram-se mais tarde alterações à planta desenhada e delas resultou esse excepcional corpo de quatro pisos, que a despojada fachada principal de clássico matriz não nos mostra. A uni-los, uma ampla escadaria que dá acesso aos serviços instalados naquelas nobres alas que circuitam esse jeito de claustro onde entra a luz do sol e o saudável ar que vem da serra. Cumpriu sua missão esta casa que, em 1963, fica sob a titularidade de São Tiotónio, quando, em 1997, abre na cidade, cuja geometria se alargava, o moderno Hospital Distrital de Viseu. E o hospital que, ao tempo, o Estado governava, voltou à inteira posse da Santa Casa da Misericórdia, que outro destino lhe consente. Um ambicioso projeto levado a cabo pelo arquiteto Gonçalo Byrne transfigura a casa, adequa-lhe os espaços, alteia-lhe um piso e, no ano do Senhor de 2005, o grupo Pestana inaugura ali a luxuosa pousada que mantém salvaguardada a dignidade da fachada, honrada a velha missão, respeitados os sonhos de quem a inicial casa levantou.
E assim, bem restaurada e recuperada, não se perde um património grande da cidade. Muito bem, Alberto. Por hoje, então, estamos conversados. Marcamos encontro pra semana. Bem-haja. Obrigado.
Então, até à próxima.