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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a "História das Histórias", eu sou o João Paulo Secadura e comigo está em Viseu, Jorge Adolfo Marques. Ele vai hoje falar-nos de um filme, de um cinema, de uma história, de um filme do capitão Almeida Moreira, este filme chamado "Viseu", que vamos falar aliás, em dois dias e por isso, para já, a bola está do teu lado, Jorge. Bem-vindo, vamos a isso então, saber tudo sobre esta peça da sétima arte.
Exatamente. Olá, João e a todos que nos ouvem. Pois, hoje vamos ver por palavras o filme Viseu, intitulado "Viseu", que foi realizado pelo capitão Almeida Moreira, em 1930, portanto, já passaram alguns anos, mas é um filme a preto e branco, um filme daquilo que se designa um documentário sobre a cidade de Viseu. É interessante que nós estamos precisamente naquele momento charneira, 1930, estamos ali entre a viragem do cinema mudo, e nós já falámos de cinema mudo, para o cinema sonoro. Isto é um documentário sobre a cidade de Viseu. Já disse que foi o capitão Almeida Moreira, que é uma figura extremamente importante na história da cidade de Viseu. Eu diria que é talvez uma das figuras mais importantes da história de Viseu contemporâneo. Apesar de ele ter falecido já há muito tempo, ele faleceu em 1939, precisamente no ano em que começa a Segunda Grande Guerra. Ele nasce em 1873, aqui em Viseu, e é filho de uma senhora chamada Ana Ermelinda de Almeida Moreira e de Francisco de Laura Moreira. Mas ele ficou órfão muito cedo, aos oito anos de idade ficou órfão e foi criado por um tio.
Ficou órfão de pai e mãe?
De pai e mãe. Ele depois vai ser criado por esse tio, que é aliás também uma figura importante aqui na região, porque vai ser o fundador do Hospital de Mangualde, aqui a cidade de Mangualde, nossa vizinha. E ele quando é muito criança ainda, depois de aprender as primeiras letras, os primeiros anos de escola, vai pro Real Colégio Militar e vai seguir a carreira das armas. Por isso é que ele hoje, toda gente o conhece pelo capitão Almeida Moreira.
Exatamente.
O percurso dele. Embora ele também tenha estudado na Universidade de Coimbra e na Escola Politécnica do Porto. É um homem que tem uma sólida formação acadêmica e militar também, porque a carreira dele é essencialmente militar. Mas também vai ser professor. E isso aí é a ligação entre a parte da formação militar à sua formação acadêmica, literária, da universidade e no Porto, na Politécnica. O que é certo é que ele em 1903, depois vem para Viseu, aqui pro Regimento de Infantaria, aqui faz o seu percurso militar. Mas há um aspecto muito importante nesta figura, e por isso é que ele é o autor desse filme, "Viseu", realizado em 1930. E o aspecto importante é que ele era amigo de inúmeras figuras das artes da sua época. Columbano Bordalo Pinheiro, uma série de pintores, de escultores e de arquitetos, e a sua sensibilidade artística vai estar sempre presente. E o que é que acontece para chegarmos ao filme? É que ele vai fazer parte de uma chamada Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu. Essa Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu ainda foi criada no período de transição da Primeira República para a Segunda República ou para a ditadura militar, como lhe queiram chamar. Porque essa instituição resulta, em 1921, foram criadas as Comissões de Iniciativa e Turismo, que iam ser instaladas em instâncias turísticas, e Viseu foi considerada uma instância turística.
Ok.
E foi criada uma comissão. Em 1923, ela vai se instalar aqui em Viseu. Ele mais tarde, em 28, vai pertencer a essa comissão. Por quê? Porque ele também estava muito ligado à política. Ele chegou a ser vice-presidente da Câmara Municipal de Viseu, e teve o pelouro do urbanismo e estética da cidade. Era um homem com uma grande sensibilidade e que vai deixar uma marca no espaço público viseense. Essa comissão de iniciativa vai propor a realização de um filme e o capitão Almeida Moreira, homem de uma época, mas que olhava para o futuro. Aqui há uns anos houve uma exposição em Viseu, precisamente na sua casa museu, Casa Museu Almeida Moreira, que faz parte agora da rede de museus municipais, em que o título dessa mesma exposição era que o Capitão Almeida Moreira foi o primeiro marketeer da cidade. Ou seja, ele era um homem com uma visão muito à frente, como nós costumamos dizer. Um homem com uma visão muito moderna. Provavelmente ele, se vivesse hoje, seria um homem da inteligência artificial, das tecnologias. Mas ele à época era o homem das tecnologias da época, nomeadamente o cinema. O cinema que estava no momento então de transição, como eu disse. Então esse filme que ele vai fazer, e que está hoje disponível, isto é importante para todos aqueles que nos ouvem. Este filme está disponível online, se colocarem, se googlearem "Viseu 1930, Capitão Almeida Moreira", podem ver o filme. O filme tem uma duração de 40 minutos, sensivelmente, 41 minutos. Ele está dividido fundamentalmente em duas partes, uma parte em que ele mostra a cidade de Viseu antiga, porque ele é um homem da história, ele é um homem do patrimônio. Ele vai ser o fundador do Museu de Grão Vasco.
Ah, foi o fundador mesmo?
O seu primeiro diretor em 1916. Portanto, ele é um homem das artes, ele é um homem da museologia-
Do patrimônio
...do patrimônio. Ele vai deixar não só um cunho na arte, mas também na defesa do patrimônio e também com uma perspectiva moderna à época. E portanto, é um homem com visão. É um homem que vai deixar o seu cunho também na Feira de São Mateus. Por quê? Porque a Feira de São Mateus era apenas uma feira, eu ponho aqui entre aspas.
Sim, era feira franca.
Exatamente. Era uma feira que vem desde a Idade Média. Foi criada pelo nosso rei Dom João I. E vem até os nossos dias, aliás, realiza-se agora no mês de agosto. Mas é uma feira que era uma feira essencialmente comercial. Enfim, comprava-se, vendia-se. Não era uma feira exposição, não era um certame de diversão. E ele vai lhe dar esse cunho um bocadinho ao estilo daquilo que nós conhecemos da feira popular. Um espaço também de diversão, não só um espaço para comprar e vender produtos.
Sim.
E portanto, ele vai lhe dar esse cunho de modernidade. Ora, o capitão Almeida Moreira, quando faz esse tal filme, portanto é dentro deste espírito de promoção da cidade, porque estas comissões eram comissões conselheiras, enfim, eram as figuras mais importantes da cidade, do conselho, faziam parte dessa comissão. Portanto, o capitão Almeida Moreira, com todo este know-how de arte, de conhecimento. Um aspecto interessante também que importa referir. Ele era professor de Educação Física no Liceu de Viseu. E essas aulas de Educação Física também vão estar presentes nesse filme. O que é muito curioso. Mas o filme "Viseu", que é propriedade da Câmara Municipal, e foi recuperado pela Cinemateca Nacional, foi restaurado nos anos 90. O filme com tantos anos precisava de um restauro.
Uma conservação, claro.
Neste momento é um filme com 96 anos.
É extraordinário.
É um filme que está quase a fazer-
Foi redescoberto, digamos
...foi redescoberto.
Exato.
Aliás, como outros mais recentes, mas também filmes muito interessantes sobre a cidade. E é um registo muito importante da cidade, e portanto, este filme, "Viseu", que era um filme de promoção, vai ser apresentado no Avenida Teatro, em Viseu, um cineteatro, que hoje já não existe na cidade, foi demolido e o espaço foi ocupado por uma urbanização, mas que foi ali apresentado ao público, aliás, mais do que uma vez, logo pouco depois de ser realizado. Esse filme, então, nessa divisão que o Almeida Moreira faz, é muito claro o pensamento dele. Ou seja, ele faz uma primeira parte em que retrata Viseu antigo, com aquilo que nós chamamos de centro histórico. As muralhas, os edifícios, os palácios, as capelas, as igrejas, as ruas, as janelas manuelinas. Portanto, todo esse casco velho, que ele amava E com a catedral, dá muita ênfase à catedral, porque também é o monumento mais importante da cidade. O interior, os pormenores.
A maravilhosa abóbada dos nós. Extraordinário.
Tudo, exatamente. Ele faz esse retrato do monumental da cidade.
Da primeira parte, então, de Viseu antiga, a parte mais antiga.
A parte antiga, é o Viseu antigo. Há uns títulos que dividem o filme, como no cinema mudo, que são os intertextos. E que tem a dizer: "Viseu antigo". E depois à medida que vai aparecendo um monumento diferente, a Igreja da Misericórdia, os Terceiros. Ele vai colocando isso para dividir a matéria a dar, o aspecto pedagógico dele também presente. E é muito interessante, porque ao longo do visionamento desta parte, nós chegamos a uma conclusão interessante que é: praticamente tudo aquilo que ele mostra continua a existir em Viseu.
Isso é bom.
Com duas ou três pequenas alterações, uma delas, por exemplo, ali no Rossio, no centro da cidade, na Igreja dos Terceiros, que era um convento franciscano. Quando se rasgou a avenida, na altura, Doutor António de Oliveira Salazar, e depois rebatizada 25 de Abril, foi demolido parte desse convento. A capela da Senhora da Vitória foi recolocada, trasladada para o parque da cidade, mas está tudo ali e é muito interessante. Quem conhece Viseu e não é de Viseu, veja este filme e acho que vai ficar emocionado ao ver aquelas pessoas, porque há sempre muitas pessoas a circular na rua, no casco velho, mulas e burros carregados com sacos. É uma cidade de 1930 do interior.
Muito bem.
Portanto, acho que é muito interessante verem e compararem com o que existe hoje.
Exatamente, com hoje, e dizer isso, que é um exercício muito curioso de fazer. E nós vamos continuar esta nossa conversa amanhã. É uma maneira, Jorge, de nós puxarmos o gás da nossa sardinha e também aguçarmos o apetite pela conversa que amanhã vai falar de uma segunda parte deste mesmo filme, e já falando de Viseu moderno. Vamos a isso, então. Até amanhã, Jorge Banhares.
Até amanhã.