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Olá, boa tarde. Sejam bem-vindos à História das Histórias. O meu nome é João Paulo Secadura, já sabe, e também sabe, sobretudo, o nome do Alberto Correia, historiador e investigador aveirão, que nos traz sempre estas tradições. Hoje vamos falar um bocadinho, isto é quase uma cena antropológica, das trovoadas. E quem fala de trovoadas na província, já sabe, fala de Santa Bárbara Bendita. Vamos a isso. Alberto, bem-vindo.

A liturgia cristã celebra a festa de Santa Bárbara no dia 4 de dezembro. Santa Bárbara, esta jovem nascida em Ilcomédia, na atual Turquia, no século III, ao tempo do Império Romano, que não tolerava a nova doutrina. A torre de sua habitação tornou-se o símbolo iconográfico para distinguir as imagens desta figura, que se converteu ao cristianismo contra a vontade do seu pai, que ele próprio lhe inflige o martírio, sendo na ocasião ferido de morte por um raio. Santa Bárbara tornou-se, ao longo do tempo, padroeira dos mineradores, dos artilheiros e de quantos trabalham com o fogo. As capelas em sua honra foram, no geral, levantadas no cimo de pequenas colinas, nos arredores das povoações. E é por isso que, por aí fora, nos altos, é fácil ver capelinhas brancas, geralmente dedicadas a Santa Bárbara. Como na minha terra, onde o monte que se eleva a deslado da aldeia, entre o sul e o nascente, se chama também de Santa Bárbara, porque aí lhe levantaram uma capela, lá aonde, mais perto de Deus, junto dele poderia solicitar proteção para a aldeia em hora de trovoada. Dali vigiava também as nuvens subindo, negras, vindas do Covelinho, que era o sítio mais perigoso das trovoadas, e descobria ao longe os trovões rebentando sobre as penadias do Mordumo, essa colina feita de pedregal, lá longe. Quando as bátegas d'água chegavam, fustigando os telhados, e as pedras de granizo rompiam as folhas tenras das videiras no mês de maio, e quando, por desgraça maior, esvaguavam os cachos em setembro, as mulheres abriam a janela e colocavam no parapeito um prato esborcelado com brasas tiradas da lareira e queimavam sobre elas os ramos ventos de alecrim, de louro e oliveira, que haviam guardado para este efeito, pendurados no frontal, em domingo de ramos, ao findar da procissão. E as mulheres rezavam e pediam a Santa Bárbara que arremasse a trovoada e a levasse lá para longe, onde não haja eira nem beira, nem pé de figueira, nem gadilhinho de lã, nem alminha cristã. O fumo dos ramos ventos gastava-se no céu e, em breve, o bramido do trovão ouvia-se já ao longe, fugindo. As mulheres paravam de rezar. Agora eram só umas pingas gotejando do telhado sobre a bacia plantada no sobrado. Em breve, chegava um pastor com novidades. Uma serreira velha ardia ao longe com o lume de uma faísca que a quebrara. O mar monte das águas arrastara a ponte do ribeiro. As vinhas do Pocelo já ficavam vindimadas. As mulheres ainda limpavam duas lágrimas. Depois, abriam a gaveta da mesa e partiam fatias de pão para matar a fome dos filhos ou abriam a blusa e calavam com o leite a criança que chorava no seu colo. Os homens não choravam. Calçavam tamancos e polainas e partiam de sachol ao ombro para remediar os estragos. Voltavam ao anoitecer e quando no sino batiam as trindades, tiravam o chapéu e deixavam pousar a sua bênção sobre as mãos postas de um filho.

É muito bonito também. Estava agora a pensar, Alberto, que em Lisboa, por exemplo, veem-se muitos registos de azulejos nas fachadas das casas mais antigas, exatamente com a Santa Bárbara e com a sua torre, o seu símbolo iconográfico, por causa exatamente da proteção das trovoadas.

Quase todas as igrejas havia uma Santa Bárbara, a quem se recorria com típicas orações, algumas das quais eu recolhi nos meus tempos primeiros de estudante, e daí este gosto ainda de tratar destas coisas e de as lembrar.

Exatamente, que bom. Estou-me a lembrar que também há muitos registos, além, claro, do Santo António, de Nossa Senhora da Conceição, este género, mas a Santa Bárbara é muito vulgar e ainda aparece, ainda se vê destes registos. E também o São Marçal, que parece que era o padroeiro contra os terramotos, não era?

Sim, por ventura os terramotos. A Santa Bárbara é típica mesmo da proteção dela das trovoadas.

Das trovoadas, exatamente. Muito curioso. Muito bem, estamos conversados por hoje. Amanhã mais histórias, mais memórias. Amanhã também vai ser uma conversa muito boa. Quero agradecer a presença também aqui, de Viseu diretamente. Alberto Correia, bem-haja. Marcamos encontro, então, amanhã.

Até amanhã.