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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a história das histórias, já sabe, eu sou o João Paulo Sacadura. Alberto Correia, hoje, mais esta crônica, vem nos falar da vida camponesa, a cruz num campo de pão. Onde também vamos falar de ex-votos, que ainda ontem falamos. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.
Nos meses de maio de antigamente, os campos da Beira, semeados de centeio, ondulavam já ao vento com as espigas pesadas, promissoras. As arcas estavam ao tempo quase vazias de grão e os moleiros que então havia vinham buscar o último pão às fanegas e traziam depois a farinha, oito dias passados. Era um tempo de ansiedade, de demorada espera. Em maio, soltavam-se às vezes as trovoadas e surgiam pragas de bichos ou ferrugem, sabe Deus o quê. Antigamente, havia camponeses que mandavam pintar pequenos retábulos, quadrinhos de ex-votos, para agradecer o milagre de uma seara escapar aos malefícios, numa qualquer capela dedicada a Nossa Senhora dos Verdes. Outras vezes, ia o povo inteiro de uma aldeia numa procissão virtuosa que atravessava os campos, parando aqui e além num cruzeiro, à beira de uma capela, e o povo ia cantando uma doce ladainha as ditas rogações. No dia 3 de maio, que o povo cristão festeja como o dia de Santa Cruz, os lavradores antigos partiam cedo para os campos semeados de pão. Construíam então cruzinhas ligeiras de varas, que atam com vimes e plantam-nas entre duas pedras no moroso alto, onde permanecem vigiando a seara. É um exorcismo, a cruzinha. A seara irá escapar às trovoadas, às pragas dos insetos, à cobiça de outros homens. Os camponeses eram homens de fé. Em junho, pelo solstício, quando o centeio estava maduro, quando os ceifeiros terminavam a faina da ceifa e a rolheira ficava pronta a deslado do caminho, o dono do campo levantava sobre ela, temeroso ainda, a cruzinha. Mais tarde, em agosto, já recolhido o pão nas arcas, a mulher dormindo descansada, o lavrador fincava na cruta do palheiro a cruzinha de pau. Mas então, no seu coração, já não morava o medo, só a alegria.
Os camponeses, então, eram homens de fé. Que bonita esta crônica, Alberto, em todas as maneiras que eles pediam para salvar a sua lavoura, para salvar o seu ganha-pão, as promessas, as procissões, os ex-votos, os cruzeiros e essas curiosas cruzinhas de varas de pau que se punham nas searas, não fazia ideia. De facto, é uma recordação muito bonita esta homenagem que faz a esta fé do povo mais ligado à agricultura. Muito obrigado, Alberto. E marcamos encontro para a semana. Bem-haja.
Então, é para a semana.
Obrigado.