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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.

A luz ao fundo do túnel.

"Dancing in the Street", cantorias de bairro em tempos de pandemia. Escutamos a guitarra e a voz de Yifeng a interpretar a canção de David Bowie e Mick Jagger. Yifeng está no pátio de casa, em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos da América. Com ele estão familiares e vizinhos que mantêm a distância social e alguns juntam-se até por videoconferência. Ao longo de 75 dias, Yifeng tem colocado no YouTube um vídeo por dia a interpretar canções, sempre com companhia. É um pequeno momento em que vizinhos se juntam para cantar e tocar e assim fugir à solidão do confinamento. Coronavirus Neighborhood Sing-Alongs é o nome deste projeto, que continua mesmo com as medidas restritivas a serem levantadas. Os Estados Unidos da América são, de longe, o país mais afetado pela pandemia de Covid-19. Mais de 105 mil pessoas morreram, sendo que cerca de 1,8 milhão já ficaram infectadas. Na Europa, o pior parece já ter passado e todos os países avançam sem retorno com os planos de desconfinamento. Portugal não é exceção. Esta semana arrancou a terceira fase do plano de regresso à atividade. Na segunda-feira tiveram autorização para reabrir ginásios, lojas de centros comerciais, lojas do cidadão, salas de espetáculo e cinemas, e esta semana regressou também o pré-escolar. Desta vez, há uma segunda velocidade para a capital. Lisboa tem serviços a reabrir mais tarde por ser o centro da epidemia neste momento. Há muitas medidas restritivas, muitas regras que devem ser cumpridas, mas os portugueses estão aos poucos a voltar à normalidade. O túnel começa a ficar para trás e nesta semana há mais setores que estão a desconfinar. O futebol está de regresso, mas ainda sem público, e nas praias já se pode ir a banhos. Aliás, a partir de dia seis vai ser mais seguro. Nesse dia, arranca a época balnear. Neste momento, há poucos setores que ainda não regressaram à atividade. Bares e discotecas ainda não têm ordem para reabrir. É uma das grandes incógnitas neste momento. De qualquer forma, a economia começa a fase de recuperação e com isso, desconfina também um dos setores mais importantes para o país: o turismo. Esta semana, partiu do Luxemburgo o primeiro voo da Luxair rumo a Faro. A bordo estavam 141 pessoas, entre as quais 70 turistas. O sucesso de Portugal no combate à pandemia e a reabertura de comércio e serviços está a colocar o território luso como um dos mais atrativos para quem quer gozar férias. Com o regresso do turismo, retomam também as ligações aéreas. O setor da aviação é um dos mais afetados pelos efeitos da pandemia e, por isso, hoje falamos da luz que se acende na atividade dos voos comerciais.

A partir das 24h00 de amanhã, de forma a dar tempo suficiente à rotação, quer de aviões, quer das pessoas que estão fora e queiram regressar, quer as pessoas que estão dentro e queiram partir. Portanto, a partir das 24h00 de amanhã, estarão suspensos todos os voos internacionais para fora do espaço da União Europeia e de fora do espaço da União Europeia com destino a qualquer aeroporto nacional.

O anúncio foi feito a 17 de março, na véspera de ser decretado o estado de emergência em Portugal. Uma decisão sem precedentes: voos suspensos. Daí em diante, o setor da aviação teve a maior paragem da história. Olhando para Portugal, a NAV, que é responsável pela gestão do espaço aéreo nacional, anunciou que teve uma quebra de 36% em março, isto em comparação com 2019, e em abril a queda foi de 94%, também em comparação com esse mês no ano anterior. É uma quebra quase total. Os aviões começam agora a levantar voo, mas ainda de forma muito lenta. Qual é o futuro do setor da aviação? É esta a pergunta que serve de partida para a conversa com o comandante José Correia Guedes, antigo piloto da TAP, trabalhou na transportadora aérea durante cerca de 40 anos. Já se aposentou, mas continua a ser uma das vozes mais ativas sobre a atividade dos voos comerciais.

Olá, Miguel, bom dia.

Comandante José Guedes, tudo bem?

Tudo, muito obrigado.

Está por casa?

Agora, neste momento, estou por casa. Passei uma boa parte do tempo do confinamento. Agora já tenho mais alguma liberdade, mas ainda passo muito tempo em casa. Sim, mais do que gostaria.

Comandante José Correia Guedes, vamos falar um pouco do que será o futuro do setor da aviação. José, a pandemia veio para praticamente parar por completo este setor. Da vasta carreira que teve, não há memória de um momento como este.

Nunca aconteceu nada, nem vagamente parecido. Eu ultrapassei várias fases a nível mundial, uma a nível nacional, que foi o 25 de Abril, que obviamente também provocou grandes modificações, umas para melhor, outras nem por isso. Refiro-me apenas à aviação comercial E depois atravessei também o 11 de setembro, que teve um impacto gigantesco na aviação comercial também, e depois a crise financeira de 2008, que também teve repercussões sérias, mas nada se pode comparar com isto que estamos a passar agora.

E agora vamos ter uma fase difícil, as empresas a entrar num período de recuperação. Acha que as empresas, companhias aéreas, vão conseguir recuperar de toda esta paragem forçada?

Eu não tenho a mínima dúvida que vão conseguir recuperar. O mundo não vive sem a aviação comercial, a nossa economia não vive sem a aviação comercial. Agora, também acho que vai haver uma fase de transição bastante difícil, que, de resto, já se anuncia. Não é imponimento que os aviões ficam parados durante dois meses e agora vão continuar parados. A aviação vai retomar, mas será um processo muito lento, muito difícil. Penso que vai ser doloroso. Algumas companhias já estão a anunciar despedimentos e prescindir de aviões. Portanto, isto vai ser mau para toda a gente, para as companhias, para os fabricantes e para o público em geral, porque todos nós vamos ter que atravessar agora uma fase de lutar contra o medo que tudo isto nos causou. Não só o medo da doença, mas também o medo de ficarmos apeados em qualquer lado, de não podermos regressar por qualquer razão.

Mandaante Guedes, já vamos olhar um pouco para essa questão do medo, principalmente aqui nos passageiros. Os dados mais recentes da Associação de Transporte Aéreo Internacional, a IATA, estima que o impacto da pandemia no volume de negócios das companhias aéreas neste ano de 2020 supera os 280 mil milhões de euros. São muitos milhões, muitos milhares de milhões. Quanto tempo poderá o setor demorar para recuperar deste grande impacto?

Depende de vários fatores. Um bom exemplo dessas perdas, tem-se falado muito, principalmente aqui na Europa, tem-se discutido muito, e o caso da TAP não é exceção, no financiamento que os Estados vão ter que prestar às companhias de aviação, porque sem esse financiamento, as companhias de aviação não conseguem voltar a voar. Se olharmos à nossa volta, nós vemos a Lufthansa, vemos a British Airways, Air France, Alitalia, que vão precisar de apoios estatais. Mas do outro lado do Atlântico, isto aqui há uns anos seria impensável, nos Estados Unidos, economia totalmente liberal, o presidente Trump já disse que vai ter que entregar uns largos bilhões de dólares às maiores companhias de aviação americana para elas poderem voltar a voar, porque a economia americana e a economia do mundo, como eu disse há pouco, não funcionam sem a aviação comercial. Como eu disse há instantes também, agora vai ser preciso vencer o medo. E vai ser preciso vencer o medo e vai ser preciso vencer mais uma série de barreiras, porque o quadro que se nos apresenta neste momento para o reinício da aviação não é muito animador. Os passageiros vão ter que voar com máscara, os procedimentos de embarque vão ser ainda mais demorados. Já eram por razões de segurança, agora vão ter que se fazer medições de temperatura, testes, por aí fora. Portanto, o desconforto é total. Nalguns países, vai ser preciso fazer quarentena. Isto leva-me a pensar que nesta primeira fase, só vai voar quem tiver mesmo que voar. Portanto, o tráfego de turismo e de visitas, penso que não vai arrancar agora. E essa é uma componente importantíssima da aviação comercial.

E estamos a entrar agora nessa fase que referia em que o setor da aviação retoma a atividade. Muitas empresas estão a fazê-lo até já com a lotação completa nos aviões, com todos os lugares ocupados. Muitos passageiros já vieram contestar, dizem que não estão reunidas as condições de segurança para um regresso desta maneira. As empresas dizem que a segurança está garantida. Qual é a sua opinião sobre isto?

Obviamente, não existe uma coordenação a este nível. Existe uma entidade internacional que coordena a aviação comercial, que é a IATA, mas que até agora ainda não definiu uma política, e vai ser muito difícil definir uma política neste aspeto, porque há países que estão ou que foram muito mais afetados que outros. Portanto, penso que terá que ser decidido país a país e o que eu estou a ver neste momento é que está a ser decidido até a nível de companhia a companhia. Cada companhia tem os seus critérios, cada país tem os critérios da sua própria autoridade sanitária e vai ser difícil conseguir um consenso. E penso que isso é muito negativo para os passageiros. A única coisa que eu posso garantir, e muitas vezes me colocam essa questão, é a qualidade do ar que se respira a bordo durante uma viagem. E essa eu posso garantir que é excelente. O ar é renovado todos os três minutos, é filtrado. Quanto ao resto, eu vejo vários critérios, vejo companhias a voarem com os aviões cheios, vejo outras a fazerem distanciamento, mas isso penso que é inviável, porque as companhias não podem prescindir de um terço dos seus lugares ou então têm que aumentar exponencialmente os custos dos outros. Portanto, esta fase agora vai ser muito confusa, não vamos ter dúvida alguma em relação a isso.

Mandaante José Guedes, falava já dessa questão de medição de temperatura, uma medida que parece que veio para ficar nos aeroportos. E de fato, este espaço, os aeroportos, são conhecidos por terem elevadas medidas de segurança, já é habitual nestes espaços. Acha que isto permite que seja mais fácil aplicar algumas restrições a nível sanitário para conseguir retomar a atividade de forma segura?

Já pedem aos passageiros para um voo de médio curso comparecerem duas horas antes e no longo curso, três horas ou mais. Agora, com estes novos procedimentos, as pessoas vão ter que estar afastadas. Aquelas filas para a segurança, que eram compactas, vão deixar de existir, as pessoas vão ter que estar separadas por dois metros. Isto vai dar centenas de metros, se calhar quilómetros. Isto é completamente inviável. Vai ter que ser encontrada uma solução, que eu não sei qual é, até chegarmos à retoma. Obviamente, nesta fase haverá uma retoma muito ligeira. Far-se-ão meia dúzia de voos por dia, 15, 20, estou a falar em Lisboa neste momento. Porque realmente não há recursos para mais, quer recursos sanitários, quer até espaço físico para gerir uma situação deste tipo. Como eu disse, essa retoma, em qualquer circunstância, será lenta e será dolorosa a nível de aviões, a nível de pilotos. O mercado vai ficar com um superávit, com excedente de tripulantes. Eu só vou falar de tripulantes porque é a parte que eu conheço melhor, mas também no resto dos empregados das companhias. E é realmente um fenômeno muito triste, porque estávamos a viver numa fase de enorme expansão da aviação comercial. A nível da carreira de pilotos, também havia uma procura imensa. As escolas de aviação em Portugal e no resto do mundo estavam superlotadas e havia perspetivas excelentes de carreiras, em Portugal e no resto do mundo também. Havia excelentes perspetivas para os fabricantes de aviões, Boeing, Airbus, Embraer, estavam a vender como nunca. E agora tudo isso acabou.

Comandante José Guedes, estamos a chegar ao fim desta conversa. Tenho duas perguntas para lhe fazer antes de terminarmos. E a primeira é: quando é que foi a última vez que andou de avião?

Andei de passageiro. Há muito pouco tempo. Fui a Paris em fevereiro, logo no início da pandemia. Fui lá ver a exposição do Leonardo Da Vinci, fins de fevereiro. Já havia vírus a circular em Paris, ainda hesitamos um bocado. Fui numa companhia low cost, que é uma coisa que eu não gosto muito, mas que veio para ficar.

Chegou agora a pandemia, temos este regressar da atividade do setor da aviação. Quando é que espera voltar a andar de avião, enquanto passageiro?

Logo que surja a oportunidade. O meu problema, neste momento, penso que o problema de ninguém, não é o viajar de avião. São os riscos envolvidos relacionados com a pandemia. Aliás, eu perdi uma viagem, eu tinha uma viagem marcada em março para as Antilhas, mas só vou fazer essa viagem, uma próxima viagem, se tiver garantias que posso regressar. Não posso correr o risco de chegar a um sítio qualquer e ter uma crise de febre, uma dor de dente, uma coisa qualquer, e não me deixam regressar. Portanto, voltando ao início da conversa, vamos ter que vencer este medo. Não é o medo físico, não é o medo que o avião caia. É o medo de não podermos regressar. Eu conheço vários casos de terror de amigos meus, um dos quais ficou retido na Austrália durante meses. Não dá jeito nenhum ficar retido na Austrália, como imagina. Com falta de ligações, ficou incapaz de regressar a Portugal. Situações dessas envolvem grandes riscos e, do meu ponto de vista pessoal, neste momento, não tenho vontade de viajar. Espero que mais um par de meses isto se resolva e que em breve, no interesse de todos nós e no interesse dos meus colegas, da minha carreira profissional, da profissão que eu tive toda a vida, que isto volte a renascer com a força que teve e, se possível, até com mais. Vamos ter esperança. Vai demorar algum tempo, mas eu acredito firmemente que a aviação vai voltar a crescer, e a crescer com grande dinâmica, e isto não vai demorar muito. Um ano, um ano e picos. É aquilo que eu digo aos alunos que estão agora a pensar, ou aos candidatos aos cursos de pilotos de aviação, que estão agora a pensar entrar na carreira, eu digo-lhes isto: "Olha, o mercado agora vai, durante um ano, um ano e meio, vai cair. Mas como esse é o tempo que demora a fazer o curso, quem sabe daqui a dois anos haverá novas oportunidades." Acredito piamente que sim.

Para já, o comandante José Guedes vai continuar longe dos céus. O futuro da aviação ainda é incerto, com muitas dúvidas sobre a segurança dos passageiros. De qualquer forma, o setor está a regressar à atividade de forma gradual, tal como praticamente toda a economia. Depois de ter passado o pior período da pandemia, agora é tempo de olhar para trás e perceber o que foi bem feito, o que precisa de ser corrigido e o que foi um erro. Os investigadores e cientistas continuam a trabalhar para encontrar a melhor forma de combater o vírus, mas já começam a surgir conclusões que permitem perceber quais foram as melhores estratégias para lidar com esta pandemia. A grande maioria dos países decidiu aplicar medidas restritivas e ordenar o confinamento, mas nem todos seguiram esse plano. O Reino Unido e a Suécia, por exemplo, sugeriram uma estratégia que promovesse a imunidade de grupo. Os britânicos rapidamente abandonaram a ideia. Já os suecos quiseram manter o plano, mas os resultados não foram os melhores. O país nórdico tem a taxa de mortes por milhão de habitantes mais alta em todo o mundo. Esta semana, a taxa foi de 5,29 mortes diárias por cada milhão de pessoas. Com 10 milhões de habitantes, a Suécia contabiliza já cerca de 4500 mortes. Portugal, com uma população semelhante, regista menos de 1500. Perante as falhas, o epidemiologista-chefe, que foi o arquiteto da estratégia sueca de não fechar serviços nem comércio, mostrou-se arrependido por não ter decretado medidas restritivas para lidar com a pandemia. A ideia de imunidade também não foi atingida. Pouco mais de 7% da população sueca desenvolveu anticorpos. Ainda não se sabe ao certo qual é a melhor estratégia para lidar com este vírus. E é por isso que, nos laboratórios, os cientistas aceleram as investigações. Procuram uma luz que seja capaz de pôr fim à viagem neste túnel.

Quando é que as escolas abrem?

Vai estar descansado, que daqui a um bocadinho vais voltar para a escola, porque isto agora não vão ser férias para sempre.

Os espetáculos podem começar a partir de hoje e, portanto, hoje é um dia muito especial. Hoje, simbolicamente, é um dia muito importante, que é o primeiro dia do resto da vida deles, como dizia Sérgio Godinho na sua canção.

Há todo um mundo novo à volta do regresso da competição e do futebol português.

Dentro daquilo que são as normas e diretrizes da DGS, neste momento estamos a dar todas as condições para que a pessoa possa treinar segura.

Isto deve ser feito com pequenos passos. Não vamos precipitar porque nós queremos que isto corra bem e não que haja avanços e recuos.