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A nossa cultura está na Casa da Ribeira. Estamos agora aqui ao pé de uma bancada que tem várias flores feitas de papel crepe. Revelaram-me há pouco, antes de começarmos o episódio, que se chamam flores dos namorados. Quem me revelou isto foi a Diana Silva, que trabalha aqui na Casa da Ribeira. Olá, Diana. Fale-me um bocadinho da história destas flores dos namorados.
As nossas flores dos namorados nasceram no seio de uma família de Fragosela e esta tradição tem sido vida passada de geração em geração. Elas eram vendidas em feiras e romarias, normalmente numa banquinha que tinha um lençol branco onde depois se botava as flores, porque elas vêm acompanhadas de uma quadra de pedido de namoro ou de amor.
Agora fiquei curioso. Leia-me lá a quadra da flor que tem na sua mão. O que ela diz?
Esta flor diz aqui: "Dê-me cá uma flor bonita da sua mão, quero ter amores consigo da raiz do coração".
Ok, isto era uma flor que era entregue pelo rapaz à rapariga, é isso?
Sim, normalmente eram os rapazes, quando estavam nas romarias, que iam à banquinha comprar uma flor e se tivessem a oportunidade, até porque os relacionamentos antigamente, os namoros eram à janela como os meus avós me costumam dizer. Normalmente ao domingo depois da missa, as pessoas iam para a romaria e era quando os rapazes aproveitavam para conseguir falar com a rapariga de quem gostavam.
Estas flores são cravos, se eu não estou em erro, é isso?
São cravinhos, sim.
Temos aqui cravos de várias cores, temos cor-de-rosa, azul, vermelho, rosa com branco, além das flores, tem umas penas aqui em cima. Estas penas amarelas vêm de onde?
Estas penas amarelas normalmente eram tingidas, porque eram usadas das galinhas que esta família tinha em casa e depois tingiam de amarelo e colocavam na flor. Nós costumamos dizer que a flor dos namorados de Fragosela é uma tradição nossa, de Viseu, até porque nós já tivemos aqui várias oficinas com a Artesã e elas têm o segredo, e como se costuma dizer, o segredo é a alma do negócio, e nós nunca conseguimos fazer uma flor.
Nunca conseguem fazer exatamente igual.
Exatamente igual, não.
Eu estou tentado a pegar numa e a ler o que diz o verso. Vou pegar aqui nesta azul. Então que diz: "Não é cravo, nem é rosa, mas é um lindo botão. Dou-lhe eu de convite para pôr no coração". Que moça é que podia resistir a isto? Diana, dizíamos-
Deixe-me dizer que até as próprias quadras, que ainda hoje a Artesã mantém, são estas quadras antigas com este tipo de português e de forma de escrever também, que hoje em dia já não é tão usual e que ela mantém ainda hoje as quadras.
E hoje em dia já não é tão difícil pedir namoro. Estas flores são usadas em que situações? Romarias?
Sim. Aqui nos nossos ranchos folclóricos da região de Viseu, nós caracterizamos muito bem as flores dos namorados, até porque normalmente as senhoras, o traje de romaria, de romeiros, que levam sempre o cestinho merendeiro na mão ou à cabeça, e as senhoras levam sempre lá estas flores dos namorados que caracteriza exatamente isso, que foi à romaria e recebeu uma flor de um rapaz e colocou no cesto. E os homens também, na lapela do chapéu, muitas vezes não haveria oportunidade de oferecer e colocavam aqui a flor na lapela do chapéu.
A Diana sabe isto tudo, vou contar um segredo que ela contou-me antes de começarmos a gravar o episódio, porque também faz parte de um rancho folclórico.
É verdade, também faço parte de um rancho folclórico aqui da região de Viseu.
E onde usam a flor do namorado.
Também usamos nos nossos trajes de romeiros, também usamos no cestinho merendeiro a flor dos namorados e um dos senhores também leva na lapela do chapéu. Em situações de festas religiosas, também, deixe-me dizer-lhe que muitas vezes as flores, só a parte do cravinho, que daria para fazer um arranjo, poderiam servir para enfeitar os andores.
Têm 1001 funções então, que estas flores dos namorados ainda desempenham hoje em dia e que podem ser observadas na Casa da Ribeira, em Viseu, onde está hoje a nossa cultura da Rádio Observador.